José Rodrigo Rodriguez

Archive for the ‘Rock-poesia-politica’ Category

Se eu for parar no inferno (If I Should Fall in Grace With God) – The Pogues

In Rock-poesia-politica on 13/07/2011 at 14:24

Se eu for parar no inferno
De onde ninguém se salva
Lá embaixo, lá no fundo
Nem os anjos me recebem

Eu quero ir, cara
Eu quero ir, cara
Quero me enfiar na lama
Onde os rios secam

Essa é a nossa terra
A terra de nossos pais
Ela é minha, ela é deles
Não é de mais ninguém

Deixa eles irem, cara
Deixa eles irem, cara
Deixa eles irem para a lama
Onde os rios secam.

Quero terminar no mar
Onde fantasmas não me alcancem
Posso balançar com as ondas
Sem cadáveres sobre o peito

Lá vêm os três, cara
Eles vêm vindo, cara
Deixa eles virem para a lama
Onde os rios secam

Se eu for parar no inferno
De onde ninguém se salva
Lá embaixo, lá no fundo
Nem os anjos me recebem

Eu quero ir, cara
Eu quero ir, cara
Quero me enfiar na lama
Onde os rios secam
_________________________________

If I Should Fall from Grace with God, The Pogues

If I should fall from grace with god
Where no doctor can relieve me
If I’m buried ‘neath the sod
But the angels won’t receive me

Let me go, boys
Let me go, boys
Let me go down in the mud
Where the rivers all run dry

This land was always ours
Was the proud land of our fathers
It belongs to us and them
Not to any of the others

Let them go, boys
Let them go, boys
Let them go down in the mud
Where the rivers all run dry

Bury me at sea
Where no murdered ghost can haunt me
If I rock upon the waves
Then no corpse can lie upon me

It’s coming up three, boys
Keeps coming up three, boys
Let them go down in the mud
Where the rivers all run dry

If I should fall from grace with god
Where no doctor can relieve me
If I’m buried ‘neath the sod
But the angels won’t receive me

Let me go, boys
Let me go, boys
Let me go down in the mud
Where the rivers all run dry

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Minha Fera (Little Lion Man) de Mumford & Sons

In Rock-poesia-politica on 12/07/2011 at 18:45

Minha Fera, Mumford & Sons

Chore por você, amigo
Você nunca vai ser o que queria
Chore por você,  minha fera
Você já não é tão valente quanto foi
Pense na vida, junte seus pedaços
Você vai precisar de toda a coragem que sobrou
E gastou para resolver problemas que só existem na sua cabeça

Mas foi minha culpa, não sua
E seu coração estava em jogo
Eu fodi tudo dessa vez
Não foi, meu querido?

Cuide de você, meu amigo
Você  já viu tudo isso antes
Cuide de você, minha fera
Não tem como recuperar o tempo perdido
E essa cara de metido já não pega assim tão bem
Tanta audácia junta para ficar assim à beira do abismo
Lembre o que mamãe dizia ou fique aí se destruindo

Mas foi minha culpa, não sua
E seu coração que estava em jogo
Eu fodi tudo dessa vez
Não foi, meu querido?
_________________________________________________

Little Lion Man, Mumford & Sons

Weep for yourself, my man,
You’ll never be what is in your heart
Weep little lion man,
You’re not as brave as you were at the start
Rate yourself and rake yourself,
Take all the courage you have left
Wasted on fixing all the problems that you made in your own head

But it was not your fault but mine
And it was your heart on the line
I really fucked it up this time
Didn’t I, my dear?

Tremble for yourself, my man,
You know that you have seen this all before
Tremble little lion man,
You’ll never settle any of your score
Your grace is wasted in your face,
Your boldness stands alone among the wreck
Now learn from your mother or else spend your days biting your own neck

But it was not your fault but mine
And it was your heart on the line
I really fucked it up this time
Didn’t I, my dear?

Por uma Arte Revolucionaria Independente (1938)

In Rock-poesia-politica on 03/02/2011 at 14:10

Um libelo pela mais plena e absoluta liberdade de expressão, sem qualquer tipo de amarras.

Leon Trotski e André Breton, tiveram em 1938, na Cidade do México, um encontro histórico de que resultou, após muitos debates entre eles e outros agentes culturais, este documento, cuja versão final foi elaborada por Breton e Diego Rivera, com a aquiescência de Trotski. Naquele momento nascia a F.I.A.R.I. – Federação Internacional da Arte Revolucionária e Independente – de vida efêmera mas importância histórica crucial.

Dentre os propósitos estabelecidos, ressaltamos:

_ Uma aliança em prol da civilização, da vida, do ser humano em sua plenitude de manifestações.

_ Nenhuma barreira, nenhum tipo de controle, nenhum limite aos sonhos, à cultura ou à arte, que todos nascem no mesmo lugar.

_ Um libelo pela mais plena e absoluta liberdade de expressão, sem qualquer tipo de amarras.

_ O mais vigoroso repúdio a toda e qualquer forma de autoritarismo ou dirigismo.

_ Os meios materiais devem ser postos sem limite ou controle de qualquer espécie a serviço do ser humano e da arte.

_ A arte jamais deve ser reduzida a serviçal do capital.

_ O capitalismo é liberticida por definição.

_ O socialismo não pode ser autoritário.

_ Se destruir uma obra de arte é considerado por todas as pessoas sensíveis um gesto hediondo, como classificar o gesto de impedi-la de sequer existir?

_ Repúdio à barbárie das guerras e do autoritarismo.

Ao texto final, assinado por Leon Trotski e André Breton na cidade do México dia 25 de julho de 1938.

POR UMA ARTE REVOLUCIONARIA INDEPENDENTE

André Breton e Leon Trotski

1) Pode-se pretender sem exagero que nunca a civilização humana esteve ameaçada por tantos perigos quanto hoje. Os vândalos, com o auxílio de seus meios bárbaros, isto é, deveras precários, destruíram a civilização antiga num canto limitado da Europa. Atualmente, é toda a civilização mundial, na unidade de seu destino histórico, que vacila sob a ameaça das forças reacionárias armadas com toda a técnica moderna. Não temos somente em vista a guerra que se aproxima. Mesmo agora, em tempo de paz, a situação da ciência e da arte se tornou absolutamente intolerável.

2) Naquilo que ela conserva de individualidade em sua gênese, naquilo que aciona qualidades subjetivas para extrair um certo fato que leva a um enriquecimento objetivo, uma descoberta filosófica, sociológica, científica ou artística aparece como o fruto de um acaso precioso, quer dizer, como uma manifestação mais ou menos espontânea da necessidade. Não se poderia desprezar uma tal contribuição, tanto do ponto de vista do conhecimento geral (que tende a que a interpretação do mundo continue), quanto do ponto de vista revolucionário (que, para chegar à transformação do mundo, exige que tenhamos uma idéia exata das leis que regem seu movimento). Mais particularmente, não seria possível desinteressar-se das condições mentais nas quais essa contribuição continua a produzir-se e, para isso, zelar para que seja garantido o respeito às leis específicas a que está sujeita a criação intelectual.

3) Ora, o mundo atual nos obriga a constatar a violação cada vez mais geral dessas leis, violação à qual corresponde necessariamente um aviltamento cada vez mais patente, não somente da obra de arte, mas também da personalidade “artística”. O fascismo hitlerista, depois de ter eliminado da Alemanha todos os artistas que expressaram em alguma medida o amor pela liberdade, fosse ela apenas formal, obrigou aqueles que ainda podiam consentir em manejar uma pena ou um pincel a se tornarem os lacaios do regime e a celebrá-lo de encomenda, nos limites exteriores do pior convencionalismo. Exceto quanto à propaganda, a mesma coisa aconteceu na URSS durante o período de furiosa reação que agora atingiu seu apogeu.

4) É evidente que não nos solidarizamos por um instante sequer, seja qual for seu sucesso atual, com a palavra de ordem: “Nem fascismo nem comunismo”, que corresponde à natureza do filisteu conservador e atemorizado, que se aferra aos vestígios do passado “democrático”. A arte verdadeira, a que não se contenta com variações sobre modelos prontos, mas se esforça por dar uma expressão às necessidades interiores do homem e da humanidade de hoje, tem que ser revolucionária, tem que aspirar a uma reconstrução completa e radical da sociedade, mesmo que fosse apenas para libertar a. criação intelectual das cadeias que a bloqueiam e permitir a toda a humanidade elevar-se a alturas que só os gênios isolados atingiram no passado. Ao mesmo tempo, reconhecemos que só a revolução social pode abrir a via para uma nova cultura. Se, no entanto, rejeitamos qualquer solidariedade com a casta atualmente dirigente na URSS, é precisamente porque no nosso entender ela não representa o comunismo, mas é o seu inimigo mais pérfido e mais perigoso.

5) Sob a influência do regime totalitário da URSS e por intermédio dos organismos ditos “culturais” que ela controla nos outros países, baixou no mundo todo um profundo crepúsculo hostil à emergência de qualquer espécie de valor espiritual. Crepúsculo de abjeção e de sangue no qual, disfarçados de intelectuais e de artistas, chafurdam homens que fizeram do servilismo um trampolim, da apostasia um jogo perverso, do falso testemunho venal um hábito e da apologia do crime um prazer. A arte oficial da época estalinista reflete com uma crueldade sem exemplo na história os esforços irrisórios desses homens para enganar e mascarar seu verdadeiro papel mercenário.

6) A surda reprovação suscitada no mundo artístico por essa negação desavergonhada dos princípios aos quais a arte sempre obedeceu, e que até Estados instituídos sobre a escravidão não tiveram a audácia de contestar tão totalmente, deve dar lugar a uma condenação implacável. A oposição artística é hoje uma das forças que podem com eficácia contribuir para o descrédito e ruína dos regimes que destroem, ao mesmo tempo, o direito da classe explorada de aspirar a um mundo melhor e todo sentimento da grandeza e mesmo da dignidade humana.

7) A revolução comunista não teme a arte. Ela sabe que ao cabo das pesquisas que se podem fazer sobre a formação da vocação artística na sociedade capitalista que desmorona, a determinação dessa vocação não pode ocorrer senão como o resultado de uma colisão entre o homem e um certo número de formas sociais que lhe são adversas. Essa única conjuntura, a não ser pelo grau de consciência que resta adquirir, converte o artista em seu aliado potencial. O mecanismo de sublimação, que intervém em tal caso, e que a psicanálise pôs em evidência, tem por objeto restabelecer o equilíbrio rompido entre o “ego” coerente e os elementos recalcados. Esse restabelecimento se opera em proveito do ”ideal do ego” que ergue contra a realidade presente, insuportável, os poderes do mundo interior, do “id”, comuns a todos os homens e constantemente em via de desenvolvimento no futuro. A necessidade de emancipação do espírito só tem que seguir seu curso natural para ser levada a fundir-se e a revigorar-se nessa necessidade primordial: a necessidade de emancipação do homem.

8) Segue-se que a arte não pode consentir sem degradação em curvar-se a qualquer diretiva estrangeira e a vir docilmente preencher as funções que alguns julgam poder atribuir-lhe, para fins pragmáticos, extremamente estreitos. Melhor será confiar no dom de prefiguração que é o apanágio de todo artista autêntico, que implica um começo de resolução (virtual) das contradições mais graves de sua época e orienta o pensamento de seus contemporâneos para a urgência do estabelecimento de uma nova ordem.

9) A idéia que o jovem Marx tinha do papel do escritor exige, em nossos dias, uma retomada vigorosa. É claro que essa idéia deve abranger também, no plano artístico e científico, as diversas categorias de produtores e pesquisadores. “O escritor, diz ele, deve naturalmente ganhar dinheiro para poder viver e escrever, mas não deve em nenhum caso viver e escrever para ganhar dinheiro… O escritor não considera de forma alguma seus trabalhos como um meio. Eles são objetivos em si, são tão pouco um meio para si mesmo e para os outros que sacrifica, se necessário, sua própria existência à existência de seus trabalhos… A primeira condição da liberdade de imprensa consiste em não ser um ofício. Mais que nunca é oportuno agora brandir essa declaração contra aqueles que pretendem sujeitar a atividade intelectual a fins exteriores a si mesma e, desprezando todas as determinações históricas que lhe são próprias, dirigir, em função de pretensas razões de Estado, os temas da arte. A livre escolha desses temas e a não-restrição absoluta no que se refere ao campo de sua exploração constituem para o artista um bem que ele tem o direito de reivindicar como inalienável. Em matéria de criação artística, importa essencialmente que a imaginação escape a qualquer coação, não se deixe sob nenhum pretexto impor qualquer figurino. Àqueles que nos pressionarem, hoje ou amanhã, para consentir que a arte seja submetida a uma disciplina que consideramos radicalmente incompatível com seus meios, opomos uma recusa inapelável e nossa vontade deliberada de nos apegarmos à fórmula: toda licença em arte.

10) Reconhecemos, é claro, ao Estado revolucionário o direito de defender-se contra a reação burguesa agressiva, mesmo quando se cobre com a bandeira da ciência ou da arte. Mas entre essas medidas impostas e temporárias de autodefesa revolucionária e a pretensão de exercer um comando sobre a criação intelectual da sociedade, há um abismo. Se, para o desenvolvimento das forças produtivas materiais, cabe à revolução erigir um regime socialista de plano centralizado, para a criação intelectual ela deve, já desde o começo, estabelecer e assegurar um regime anarquista de liberdade individual. Nenhuma autoridade, nenhuma coação, nem o menor traço de comando! As diversas associações de cientistas e os grupos coletivos de artistas que trabalharão para resolver tarefas nunca antes tão grandiosas unicamente podem surgir e desenvolver um trabalho fecundo na base de uma livre amizade criadora, sem a menor coação externa.

11) Do que ficou dito decorre claramente que ao defender a liberdade de criação, não pretendemos absolutamente justificar o indiferentismo político e longe está de nosso pensamento querer ressuscitar uma arte dita “pura” que de ordinário serve aos objetivos mais do que impuros da reação. Não, nós temos um conceito muito elevado da função da arte para negar sua influência sobre o destino da sociedade. Consideramos que a tarefa suprema da arte em nossa época é participar consciente e ativamente da preparação da revolução. No entanto, o artista só pode servir à luta emancipadora quando está compenetrado subjetivamente de seu conteúdo social e individual, quando faz passar por seus nervos o sentido e o drama dessa luta e quando procura livremente dar uma encarnação artística a seu mundo interior.

12) Na época atual, caracterizada pela agonia do capitalismo, tanto democrático quanto fascista, o artista, sem ter sequer necessidade de dar a sua dissidência social uma forma manifesta, vê-se ameaçado da privação do direito de viver e de continuar sua obra pelo bloqueio de todos os seus meios de difusão. É natural que se volte então para as organizações estalinistas que lhe oferecem a possibilidade de escapar a seu isolamento. Mas sua renúncia a tudo que pode constituir sua mensagem própria e as complacência degradantes que essas organizações exigem dele em troca de certas possibilidades materiais lhe proíbem manter-se nelas, por menos que a desmoralização seja impotente para vencer seu caráter. É necessário, desde este instante, que ele compreenda que seu lugar está além, não entre aqueles que traem a causa da revolução e ao mesmo tempo, necessariamente, a causa do homem, mas entre aqueles que dão provas de sua fidelidade inabalável aos princípios dessa revolução, entre aqueles que, por isso, permanecem como os únicos qualificados para ajudá-Ia a realizar-se e para assegurar por ela a livre expressão ulterior de todas as manifestações do gênio humano.

13) O objetivo do presente apelo é encontrar um terreno para reunir todos os defensores revolucionários da arte, para servir a revolução pelos métodos da arte e defender a própria liberdade da arte contra os usurpadores da revolução. Estamos profundamente convencidos de que o encontro nesse terreno é possível para os representantes de tendências estéticas, filosóficas e políticas razoavelmente divergentes. Os marxistas podem caminhar aqui de mãos dadas com os anarquistas, com a condição que uns e outros rompam implacavelmente com o espírito policial reacionário, quer seja representado por Josef Stálin ou por seu vassalo Garcia Oliver.

14) Milhares e milhares de pensadores e de artistas isolados, cuja voz é coberta pelo tumulto odioso dos falsificadores arregimentados, estão atualmente dispersos no mundo. Numerosas pequenas revistas locais tentam agrupar a sua volta forças jovens, que procuram vias novas e não subvenções. Toda tendência progressiva na arte é difamada pelo fascismo como uma degenerescência. Toda criação livre é declarada fascista pelos estalinistas. A arte revolucionária independente deve unir-se para a luta contra as perseguições reacionárias e proclamar bem alto seu direito à existência. Uma tal união é o objetivo da Federação Internacional da Arte Revolucionária Independente (FIARI) que julgamos necessário criar.

15) Não temos absolutamente a intenção de impor cada uma das idéias contidas neste apelo, que nós mesmos consideramos apenas um primeiro passo na nova via. A todos os representantes da arte, a todos seus amigos e defensores que não podem deixar de compreender a necessidade do presente apelo, pedimos que ergam a voz imediatamente. Endereçamos o mesmo apelo a todas as publicações independentes de esquerda que estão prontas a tomar parte na criação da Federação Internacional e no exame de suas tarefas e métodos de ação.

16) Quando um primeiro contato internacional tiver sido estabelecido pela imprensa e pela correspondência, procederemos à organização de modestos congressos locais e nacionais. Na etapa seguinte deverá reunir-se um congresso mundial que consagrará oficialmente a fundação da Federação Internacional.

O que queremos:

a independência da arte — para a revolução

a revolução — para a liberação definitiva da arte.

Não vamos crucificar (ainda) a Ministra da Cultura!

In Rock-poesia-politica on 26/01/2011 at 17:38

“Creative Commons” é uma licença padrão criada por Lawrence Lessig de Harvard (que é apenas um moderado na discussão da internet, não tem nada de radical, não chega a relativizar o problema da autoria, esta sim, a questão chave desse debate todo) como sugestão para os autores que publicam na internet.

A sacada foi criar algo simples que facilitasse a comunicação entre o autor e o público. Simples assim. Agora, adotá-la (ou não) não é, de jeito algum, sinônimo de apoiar (ou não) a livre circulação da informação na internet. Uma coisa não decorre da outra em absoluto.

Claro que Lessig faz propaganda de si mesmo desta forma e gostaria que sua licença se tornasse sinônimo de “liberdade na net”. Por isso mesmo, com certeza, adotá-la significa apoiar um projeto de Harvard (que, aliás, não “pegou” na internet inteira).

É perfeitamente possível conseguir o mesmo efeito desta licença com a legislação nacional, como afirmou a Ministra Ana de Holanda. Acho excessivo, apenas com base neste fato, crucificá-la e dizer que ela defende o ECAD e posições conservadoras. É preciso mais dados para dizer isso.

Eu, particularmente, gostei da medida. Acho a licença CC conservadora porque reafirma e naturaliza o direito do autor individual que publica o conteúdo na internet, justamente um ambiente que relativiza a autoria e a visão individualista do “autor” daquilo que foi publicado. O CC é uma forma de povoar um ambiente do século XXI com uma gramática jurídica do século XIX. O problema central que devemos discutir é esse.

Claro, espero que esta decisão não aponte para a adoção de uma visão restritiva da circulação de informação na internet. Se isso se comprovar, apoiarei a crucificação da Ministra, que está ocorrendo um pouco cedo demais em minha opinião.

Super8 Podcast: Músicas profundas de artistas superficiais

In Rock-poesia-politica on 12/09/2010 at 13:30

Meu irmão e eu fizemos um podcast temático. O primeiro episódio é sobre “músicas profundas de artistas superficiais” incluindo George Michael, Lulu Santos, Madonna, Beyoncé, Green Day, Hole, Nada Surf e Maná. Vejam abaixo!

Anti-coool, brutal e tosco: Iggy Pop ao vivo em São Paulo

In Rock-poesia-politica on 09/11/2009 at 17:53

Iggy-Pop

O show de Iggy Pop é sobre quebrar as regras, mas de uma maneira muito específica. Não se trata de acusar a platéia de conformista e gritar slogans políticos a plenos pulmões em seus ouvidos culpados.  Também não se trata de direcionar explosões de raiva contra as instituições para desmascará-las em sua expressão ideológica mais cínica. Iggy Pop não é um líder carismático, tampouco um intelectual interessado em mobilizar as massas. Sua política, se é que podemos chamar o que ele faz de “político”, é mais sutil. Ver o show de Iggy Pop é ver alguém que não tem medo de quebrar as regras e de se colocar fisicamente em risco.

As regras que ele quebra são aquelas vigentes no momento do show e não leis e regulamentos abstratos do “sistema” opressor. Iggy desafia o tempo todo a barreira de seguranças que o separa do público, a barreira imaginária entre palco e platéia, as regras de decência e compostura, o figurino que alguém poderia esperar de um astro de rock clássico de sessenta anos de idade. E tudo isso sem nenhum glamour, porque Iggy é tosco, a música que ele toca é tosca, o que ele canta é direto, primário, tribal, mal acabad0, sem nenhum traço de cerebralismo ou sofisticação. Estamos diante de uma força bruta sem lapidação ou compostura. E com o pênis praticamente à mostra no meio do palco.

A palavra “urgência” se aplica aqui: o show de Iggy Pop é eletrizante porque sua performance acontece naquele momento. Algo de agressivo e arriscado se materializa ali, e fica claro nos riscos físicos a que Iggy expõe a si mesmo a sua banda. Quem já participou de alguma briga e levou um soco na rosto ou um chute na barriga sabe do que eu estou falando. Em certas situações nos sentimos na iminência de sermos machucados, golpeados, surrados. Foi esse tipo de sensação que o público do Festival Terra experimento este sábado. Uma performance realmente transgressora.

Evidentemente, não há política em chutar a bunda de alguém, também não há política em apanhar da polícia. Mas ainda assim, parece haver algo no comportamento de Iggy Pop que incomoda e inspira. Algo que nos convida a  testar os limites que cercam nossa forma de estar no mundo. As regras de comportamento, as convenções sociais, as leis que organizam nossa sociedade, tudo fica em suspenso durante o show de Iggy e os Stooges.

Logo na segunda música, Iggy chamou o público para subir no palco: aproximadamente 50 pessoas aceitaram o convite, contra a vontade dos seguranças.  Foi necessário muitos minutos e muita porrada para retirar as pessoas do palco. Ao criar este tipo de baderna e suspender as regras por alguns momentos, a esperança de Iggy Pop talvez seja nos fazer compreender como se fabrica um ato de inconformismo. Como ele se fabrica fisicamente, corporalmente, de dentro para fora da carne. E todo ato deste tipo implica em correr riscos.

Mas retomemos nossa questão inicial, o significado político disso tudo. Claro, Iggy Pop tem tem mais a ver com anarquia do que com uma reivindicação política qualquer e pode parecer pueril,  sem sentido, completamente inócuo diante dos problemas que enfrentamos no mundo. Sua performance p0de até mesmo ganhar inflexões conservadoras como numa luta de boxe, em que pagamos seres humanos para encenarem a violência que reprimimos em nosso cotidiano.

Mas apesar disso tudo, acho que há algo de exemplar em asssitir Iggy Pop. Por um momento, deixamos de lado nossas couraças de proteção, mesmo que apenas no campo imaginário. Nenhum dos movimentos  de Iggy é pensado ou calculado: ele se joga, se atira, despenca, se choca com as coisas e com as pessoas. Está completamente fora de controle. Ali, na nossa frente.

Se a emancipação tiver algo de físico e não apenas de intelectual, se a política for um espaço para discutir idéias e interesses, mas também as amarras que constrangem nossos corpos no espaço e no tempo; se questionar a ordem atual do mundo significar abrir espaços novos para além do que está posto como aceitável e de bom tom, Iggy Pop ainda tem muito a nos dizer. Anti-coool, brutal e tosco: Iggy Pop é hoje, sem nenhuma dúvida, meu clássico do rock favorito. Vivo ou morto.

Namorada em coma

In Rock-poesia-politica on 15/10/2009 at 13:33

“Strangeways, here we come” é o disco menos ouvido e comentado dos Smiths, banda dos anos 80 que canta aquela música do garoto com um “thorn in his side”. A propósito, você sempre se perguntou que catzo é isso “thorn in his side”? Eu também. Faz algum tempo descobri que não se trata de um “espinho no seu flanco“, como diz uma tradução que circula pela net.  A expressão se refere a um menino que sente uma perturbação constante, está angustiado, sofrendo, como se tivesse um espinho cravado em alguma parte de seu corpo e não pudesse arrancá-lo.

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“A boy with a thorn in his side” deve ser, de fato, a melhor forma de descrever a obra dos Smiths e de Morrisey, um de meus heróis pessoais, sobre o qual não tenho nenhuma isenção para falar e a respeito do qual tudo que se comenta ou pensa, mesmo na parte mais funda e inexcrutável da alma humana,  me diz respeito a ponto de eu querer discutir, dar opinião e, se necessário for, partir para as vias de fato. Vidas misturadas: quando isso acontece, falar mal de alguém equivale a xingar sua mãe.

Vou logo pondo as cartas na mesa: perdi faz tempo o senso crítico para avaliar Einstürzende Neubauten, Velvet Underground, Smiths e Morrisey, a ponto de achar ótimo ele aparecer pelado na capa de um de seus últimos discos, sob protesto de meus amigos gays: “Quem quer ver tiozinho pelado? Prefiro bichas novinhas!”. Nesse mundo cada vez mais babaca e superficial, achei genial.

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Mas não foi por isso que comecei a escrever este texto, para falar dos hábitos assexuados deste ocidente cada vez mais conservador e conformado. Foi para apresentar uma avaliação objetiva e serena de um disco meio esquecido dos Smiths. Bom, por onde começar? E genial, certo? Estamos conversados? Nenhuma pergunta, não é? Agora, que tal mexer essa bunda/dedo gordo para comprar? Não seria uma boa idéia?

Mas enfim, sobre o disco, se você ainda não se convenceu e perdeu o amor a vida, basta ler o título de algumas canções para entender do que se trata: “Girlfriend in a coma”, “Death of disco dancer”, “I started something I couldn´t finish”, “Paint a vulgar picture”, “Death at one´s elbow”, ou seja, o mesmo clima festivo e alegre de todos os discos dos Smiths, mas com uma grande diferença: os problemas, as situações, as questões são muito mais complexas, ambíguas, difíceis, típicas de um adulto, muito longe da depressão adolescente dos álbuns anteriores. Caminhos inusitados, estranhos, inéditos.

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Nada contra os adolescente aliás, acho que alternamos momentos adultos, adolescentes e infantis ao longo da vida. De qualquer forma, nesse disco, os Smiths entraram, pouco antes da banda acabar, num campo temático diferente que, hoje em dia me interessa bem mais.

Vamos ficar com “Girlfriend in a coma”: o título não é metafórico. A letra fala de alguém que não suporta a idéia de ter que ir visitar sua namorada em coma e se culpa por isso. Imagine se ela morrer no hospital sem ele tê-la visto? Imagine o tamanho do remorso! Mas como é difícil ver alguém que amamos, cheio de energia, de vida, de idéias, reduzido a quase nada, se debatendo numa cama de hospital para conseguir sobreviver. Encarar a morte de frente: como isso é doloroso… A materialidade da morte; seu cheiro, sua cor, sua temperatura.

Eu já vi um olhar ir se apagando na minha frente. Morrendo ali, por detrás das pupilas. Não há ator ou atriz capaz de representar esse momento, acho eu. Nunca vi nada igual.  A sensação é de estar ouvindo uma fuga, com o perdão do trocadilho involuntário. Perda de foco, algo que se dissipa, mas sem nenhuma revelação por detrás: apenas a aparição assustadora de uma matéria opaca.

nuvem

O momento em que uma nuvem se forma: talvez esta seja uma boa imagem para tentar figurar o instante da morte. A condensação da água em pleno céu e o primeiro do flutuar dos flocos de algodão branco: ver alguém morrer é testemunhar o nascimento de uma nuvem. De uma bruma que ocupa aos poucos o lugar do olhar e rouba a intensidade da carne viva do olho vivo. Ver alguém morrer, para mim, é passar a acreditar na existência da alma e sentir para sempre a dor constante daqueles que carregam pela vida um espinho enfiado, bem fundo, num flanco inacessível de seus corpos.

Os Smiths de “Stangeways, here it comes” falam exatamente dessas coisas, para mim, motivo suficiente para ouvir e para amar o disco.

Oh metade arrancada de mim! [Underground nos anos 80 e 90]

In Rock-poesia-politica on 14/08/2009 at 12:52

“Que tipo de som você gosta?”

“Muitas coisas, mas cresci ouvindo Rock. Isso é o básico.”

“Legal? O que gosta de Rock brasileiro?”

“Bom, eu adorava o Vzyadoq Moe. Ouvi muito os primeiros discos do De Falla, Violeta de Outono. Putz, também aquela coletânea em homenagem ao Arnaldo Baptista, “Sanguinho Novo”. O Fellini tocando “Loki”… Eu adoro aquilo. Olho Seco. Eu não era punk, mas achava impressionante o som deles. Comecei por aí…”

“Ahn..? O que?”

confuso

Tive diálogos como esse dezenas de vezes nos últimos tempos. A partir deste ponto da conversa, a saída é o silêncio, a mudança brusca de assunto, ou a menção de bandas como Titãs, Paralamas, Legião Urbana que eu NÃO ouvia e NÃO gostava na época. Hoje, mais tolerante com o mundo POP, até curto. Mas para quem gostava de Rock entre o final dos anos 80 e anos 90, esse povo fazia música POP e ia ao Chacrinha para ganhar dinheiro. Não havia nada de transgressivo naquilo. Sonzinho coxa para as massas. Renovaram o POP, mas eram a retaguarda do Rock.

E os caras podiam cheirar e fumar baseado o quanto quissessem (desde quando ser louco é trangressão?): seu som era comercial na veia. Fácil de ouvir, fácil de engolir, fácil de mostrar para a mãe e para o pai. Talvez à exceção do IRA! (parente em primeiro grau da cena underground paulistana), Lobão e Barão Vermelho, havia tanto roquenroll no assim denominado “Rock Brasil” quanto existem pessoas ponderadas e conciliadoras na Al-Qaeda. Que existem, existem, mas tem que procurar com lupa.

Sempre que mantenho diálogos como o que mostrei acima, é difícil evitar a sensação de ter tido meu passado roubado. A história do Rock brasileiro tem sido escrita apenas do ponto de vista do mainstream, do que fazia sucesso, especialmente depois dos anos 70, quando se forma, de fato, a indústria cultural.  A cena underground dos 80 e 90 (rock e punk), o rock psicodélico brasileiro dos anos 60 e 70 (um mundo a ser descoberto) e tantas outras coisas, são deixadas de lado, seja porque as pessoas têm preguiça de pesquisar, seja porque querem apenas falar do que pode dar certo.  Ou do que pôde dar certo. Traçam uma linha reta que vem da Jovem Guarda (outro movimento POP) , passa pela Blitz e termina na cuticuti da Mallu Magalhães, sem olhar atalhos ou desvios. Mas a história não é feita de linhas retas.

Walter Benjamin: sem linhas retas.

Walter Benjamin: sem linhas retas.

O resultado é a predominância do POP, da música fácil e comercial, na história do nosso roquenroll. Do ponto de vista pessoal, isso resulta em eu não ter com quem partilhar e conversar sobre coisas que tomavam (e ainda tomam) muito tempo da minha vida. Pois à exceção de alguns gatos pingados, quase ninguém sabe que essas banda existiram e fizeram parte de uma cena forte, ao largo do “Rock-POP-Brasil-COXA”, cuja história ainda não foi contada. Começa a haver voluntários para desfazer esta hegemonia da musica facinha: CLIQUE AQUI e leia o texto do Diogo no EU GARIMPO. Algumas destas bandas voltaram a tocar, voltaram a despertar interesse. Shows recentes de Fellini, Smack, Mercenárias, Harry, Violeta (que nunca parou). Talvez a ficha comece a cair agora, quinze anos depois…

Seria genial.  Especialmente neste momento, em que a internet e o barateamento dos custos de gravação abrem espaço para se fazer música não comercial sem precisar vender a mãe e/ou as cuecas. Casas de show aparecem, um novo circuito, talvez alguma grana, mesmo que não sejam milhões. Todos sabem que o undergound praticamente morreu, ao menos no Brasil, lá pelo final dos anos 90. O que temos hoje, quase sem exceção, são bandas que almejam fazer sucesso e bandas que já fazem sucesso.

Convenhamos: quando o projeto de vida de alguém, logo de saída, é aparecer na Globo e sair na Veja, tudo está perdido. Afinal, ninguém sai na Veja ou aparece na Globo impunemente: tem que diluir a mensagem, simplificar a expressão, situar-se rente ao lugar comum, falar de coisas anódinas com todo o cuidado para não ofender a maioria e perder audiência, ou seja, é preciso virar um coxa.

coxinhaOK-thumb

Nada de errado com isso, só não dá para entrar nesse jogo e reinvindicar o título de transgressor. Lamento, mas não dá mesmo. Não se pode ter tudo na vida. Como eu gosto de diversidade na música, acho que o mundo fica mais interessante quando mainstream e underground convivem, trocam experiências, modificam um ao outro. Aparentemente, isso está acontecendo de novo, ou pode vir a acontecer. Talvez eu esteja otimista demais…

Mas o fato é que se pararem de surgir bandas como Velvet Undergroung, The Stooges, Einstüerzende Neubauten, Cabaret Voltaire, Sonic Youth, Vzyadoq Moe,  Throbbing Gristle, Olho Seco, As Mercenárias, Smack, o mundo vai perder o sentido para mim e o Rock vai ser dominado pelos Dinhos Ouros Pretos dessa vida, hoje reencarnados ainda em vida nos EMOs, na cuticuti da Mallu e em Tatá Aeroplano. Não me entendam mal: todos têm o direito de existir e se divertir como músicos de roquenroll. O que me assusta é a perspectiva de padronização e “coxinização”.

zie e zii

Por isso é importante contar essa história esquecida. De novo, Caetano Veloso pegou as coisas no ar.  No momento crucial, percebeu, com “Cê” e “zie e zii”, que um dos modelos disponíveis de transgressão  está nesse veio, o undergound dos anos 80 e 90, que ocorreu no mundo todo e no qual o Brasil tem uma honrosa inscrição. Os caras criaram selos, fizeram revistas, fundaram clubes, ou seja, se apropriaram dos meios de produção cultural para fazer uma música diferente, ao largo dos esquemões das gravadoras. Ouçam as bandas que acabei de mencionar e tantas outras, que vocês vão descobrir se forem fuçando por aí, depois digam se estou errado.

O mundo está melhorando!

Mas será mesmo?

Para Fabíola e Felipe

Uma letra “avant la lettre”

In Rock-poesia-politica on 09/08/2009 at 5:25

A banda The Kinks sempre teve urgência em falar dos problemas de seu tempo de forma direta, num tom que os faz soar como uma banda punk avant la lettre. Menos sofisticados do que os Beatles e os Rolling Stones, de quem são contemporâneos, ganham em contundência e, por isso mesmo, parecem ter envelhecido melhor do que a maior parte dos artistas de seu tempo.

A revolução punk que mudou o rock nos anos 70 para torná-lo musicalmente mais simples e direto, teve nos Kinks um precursor imediato, fato reconhecido pelos diversos covers de suas músicas, que não param de ser gravados. Os Kinks sempre se preocuparam em comentar seu tempo, tanto no campo político quanto no campo dos costumes. A letra que traduzimos abaixo é um exemplo claro disso.

História de um affair entre um jovem e um transexual, trata de um assunto controverso até os dias de hoje com a coragem de falar claramente de desejos que, na maior parte das vezes, permanecem escondidos. Afinal, transsexuais ou são motivo de piada, casos de policia (com giletes escondidas na gengiva) ou performers divertidos, mas nunca pessoas interessantes, sedutoras e humanas. Muitos de vocês já devem ter cantarolado seus versos sem se ligar na letra da sensacional Lola.

Eu a conheci num clube no velho Soho
Onde a champanhe tem gosto de Coca Cola
Ela se levantou e me convidou para dançar
Eu perguntei seu nome e numa voz cavernosa, disse: Lola

Bom, eu não sou exatamente um atleta
Ela me apertou forte e quase quebra minha espinha
Oh minha Lola!

Bom, eu não sou idiota, mas eu pude entender
Ela falava como homem e andava como mulher
Oh minha Lola!

Bom, bebemos champanhe e dançamos a noite toda
Sob a luz de velas elétricas
Ela me pegou, me pôs nos seus joelhos
E disse, meu querido, vem para casa comigo.

Bom, eu não sou um cara assim tão passional
Mas ela olhou nos meus olhos, quase me apaixonei por minha Lola

Eu a deixei para lá
E andei até a porta,
Eu caí no chão
E fiquei de joelhos
Então olhei para ela e ela olhou para mim…

Bom, queria que as coisas ficassem assim
É assim que eu queria deixar as coisas para minha Lola
Garotas serão garotos e garotos serão garotas
Este é um mundo virado, confuso e misturado, mas não para Lola

Bom, eu tinha saído de casa há uma semana
E eu nunca tinha beijado uma mulher na vida
Mas Lola sorriu e pegou na minha mão
E disse, meu garoto, vou te fazer homem.

Bom, eu não um sou cara assim tão másculo
Mas eu sei o que sou e sou feliz por ser homem
Também Lola.

Tradução: José Rodrigo Rodriguez

Lola

I met her in a club down in old soho
Where you drink champagne and it tastes just like cherry-cola [lp version:
Coca-cola]
C-o-l-a cola
She walked up to me and she asked me to dance
I asked her her name and in a dark brown voice she said lola
L-o-l-a lola lo-lo-lo-lo lola

Well Im not the worlds most physical guy
But when she squeezed me tight she nearly broke my spine
Oh my lola lo-lo-lo-lo lola
Well Im not dumb but I cant understand
Why she walked like a woman and talked like a man
Oh my lola lo-lo-lo-lo lola lo-lo-lo-lo lola

Well we drank champagne and danced all night
Under electric candlelight
She picked me up and sat me on her knee
And said dear boy wont you come home with me
Well Im not the worlds most passionate guy
But when I looked in her eyes well I almost fell for my lola
Lo-lo-lo-lo lola lo-lo-lo-lo lola
Lola lo-lo-lo-lo lola lo-lo-lo-lo lola

I pushed her away
I walked to the door
I fell to the floor
I got down on my knees
Then I looked at her and she at me

Well thats the way that I want it to stay
And I always want it to be that way for my lola
Lo-lo-lo-lo lola
Girls will be boys and boys will be girls
Its a mixed up muddled up shook up world except for lola
Lo-lo-lo-lo lola

Well I left home just a week before
And Id never ever kissed a woman before
But lola smiled and took me by the hand
And said dear boy Im gonna make you a man

Well Im not the worlds most masculine man
But I know what I am and Im glad Im a man
And so is lola
Lo-lo-lo-lo lola lo-lo-lo-lo lola
Lola lo-lo-lo-lo lola lo-lo-lo-lo lola

Trepar com você ou te foder?

In Rock-poesia-politica on 02/08/2009 at 23:06

Falar de sexo fora do registro pornográfico é muito difícil. Podem examinar toda a história da literatura: falar do assunto sem dissolvê-lo nas palavras elevadas do amor; o sexo em sua animalidade e carnalidade é dos temas mais difíceis. Sexo e política: pior ainda. Faz tempo a relação sexual foi politizada em razão de questões como estupro, abuso de mulheres, de homens e de crianças. O impulso veio do feminismo, mas o problema é geral: a relação sexual e o prazer são hoje um problema público e privado, uma questão da cidade e da casa.

Que linguagem usar para falar desse assunto? Que forma inventar? O problema que a Banda Bikini Kill enfrentou nas duas letras traduzidas abaixo é complicado para qualquer escritor. Sem cair em maniqueísmos a banda se sai muito bem ao falar da sexualidade feminina em versos cheios de hesitações e repetições que preparam estrofes claras e diretas sobre os problemas que desejam abordar, despida a linguagem de qualquer artifício. O objetivo estético é eliminar toda e qualquer ambigüidade, com violência se necessário, para constituir um ponto de vista que vê a si mesmo como ignorado pela sociedade.

Esta necessidade de falar algumas coisas de forma clara e na nossa cara motiva a escolha do estilo, coloquial a ponto de ser constrangedor, cheio de gírias e palavrões entre os quais reluzem versos de altíssima carga emotiva como:

Só porque meu mundo, querida, é tão fodidamente,
Merda, cheio de estupro – – Isso quer dizer que
Meu corpo será sempre fonte de dor?
Não, não, não.

Ou:

E então, você, você, você, você, você, você, você, você, você, você, você, você,
Vá dizer para a porra dos seus amigos
O que eu pensei e como me senti
Como, caralho, a porra
Da minha boceta cheira
Você já disse para eles?

O efeito é extremamente agressivo; como se alguém passasse um bom tempo balbuciando ou grunhindo sentenças sem muita ligação entre si para ser capaz de formular algumas frases que soam como um soco no estômago. A dificuldade na formulação, a violência, a hesitação, tudo se liga à gravidade e intimidade do assunto abordado. Quem se sentiria completamente à vontade discutindo, por exemplo, o cheiro de uma boceta?

Nada nos textos é ingênuo ou displicente. O tom confessional e coloquial pode enganar o leitor desatento. Mas a pontuação, a escolha de palavras, o ritmo, a forma de diálogo, tudo está a serviço do eu poético que tem urgência de falar sobre um assunto difícil para tentar pensar novas formas de sexo a partir de elementos velhos, uma linguagem nova a partir de palavras e relações marcadas pelo violento modelo do estupro.

Emancipar o sexo/linguagem: daí a necessidade do Bikini Kill de politizar questões tão íntimas e tão complexas para encontrar uma linguagem/relação emancipada. Falar de forma direta, de indivíduo para indivíduo, sem metáforas ou mediações, foi a solução adotada pelo eu poético que deseja convencer os ouvintes de seu ponto de vista. Pois o Bikini Kill, banda formada apenas por mulheres, acredita na emancipação do sexo/linguagem e quer nos convencer disso. Quer falar sobre o assunto, mesmo que seja difícil e duro.

Apesar de tudo, apesar de você comentar com seus amigos o cheiro da minha boceta, “Acho que gosto de você/ Acho que sim” e “Eu creio nas possibilidades radicais do prazer”. Pois um dia, talvez, você possa vir a trepar comigo e não se limite a me foder! Afinal, as mulheres também gostam de trepar para sentir prazer!

O som? Punk rock, claro.
Nada mais adequado.

Kathleen Hanna e Kathi Wilcox do Bikini Kill

Kathleen Hanna e Kathi Wilcox do Bikini Kill

Eu gosto de trepar

Bikini Kill

Ei! Você acredita que há algo
além desta realidade tosca? E acredito, eu acredito.

É tão difícil estar apenas bem
Estar feliz, cara, é o que às vezes
Me dá mais medo
Cara, tipo, é tão difícil para
mim, lutar – – eu não sei eu
Acho que nunca lutei – – Porque você
Não me mostra como – – como sair de mim

(ela é tão “Caguei!”)

Só porque meu mundo, querida, é tão fodidamente,
Merda, cheio de estupro – – Isso quer dizer que
Meu corpo será sempre fonte de dor?
Não, não, não.

(Ela é tão “Caguei!”, Ela é tão “Caguei!”)

Só porque eu falei claro, querida
não quer dizer nem por um minuto que você
deva pensar que eu sou o contrário de
qualquer coisa – – mas se você quer ter certeza
eu digo

Nós não vamos provar nada nada
Sentadas, paradas, olhando nossa fome
O que precisamos é de ação/estratégia
Eu quero eu quero eu quero
Eu quero agora

Eu creio nas possibilidades radicais do prazer, cara.
Eu creio. Eu creio. Eu creio.

Tradução: José Rodrigo Rodriguez

I like fucking

Hey do you believe there’s anything beyond troll-guy reality?
I do. I do. I do.

It get’s so hard
Just to be okay
Sometimes being happy baby
Is what I’m most afraid of
Baby you know
It gets so hard for me to fight
I don’t know how
I guess I never did
Why don’t you show me now
How to lose control

(She’s so very I don’t care She’s so very I don’t care)

Just cuz my world sweet sister
Is so fucking goddamn full of rape
Does that mean my body must always be a source of pain?
No. No. No.

(She’s so very I don’t care She’s so very I don’t care)

Just cuz I named it right here sweet chickadee
Don’t mean for a minute you should think
I’m the opposite of anything
But if you wanna know for sure I’ll tell you
We’re not gonna prove nothing, nothing
Sittin around watching each other starve
What we need is action/strategy
I want. I want. I want.
I want it now.

What I want. I believe in the radical possibilities of pleasure babe
I do. I do. I do.

Dissertação anti-prazer

Bikini Kill

Acho que gosto de você
Acho que sim.

Acho que é real
Só não sei se me enganei ao confiar em alguém
Diz, me diz, me diz.
Você contou para eles tudo o que eu disse?
Você contou tudo?
Você contou para eles tudo o que eu disse?
Você contou para eles tudo o que eu disse?

Por que você não conta?
Vocês riram gostoso?
Diz, foi bom, foi bom?
Foi bom?
Foi bom para você?
Você ganhou aquela corrida?
Você fez aquele gol?
Cara, você é muito foda! Muito foda!
E então, você, você, você, você, você, você, você, você, você, você, você, você,
Vá dizer para a porra dos seus amigos
O que eu pensei e como me senti
Como, caralho, a porra
Da minha boceta cheira
Você já disse para eles?

Caguei. Caguei. Caguei. Caguei.
Eu não sei, não sei de verdade.

Acho que gosto de você
Acho que sim.

Tradução: José Rodrigo Rodriguez

Anti-pleasure dissertation

Maybe I like you
Maybe I do

Maybe I found something real
I just don’t know if was I wrong to trust anyone
Tell me, tell me
Did you tell them everything I said?
Did you tell them everything?
Did you tell them everything I said?
Did you tell them everything I said?

Why don’t you tell them?
Did you get a good laugh?
Tell me was it good was it good?
Was it good?
Was it good for you?
Did you win that race?
Did you score that point?
Oh yeah you’re so fucking cool, fucking cool
Now did ya, did ya, did ya, did ya, did ya, did ya, did ya, did ya, did ya, did ya, did ya, did ya?
Go tell your fucking friends
What I thought and how I felt
How punk fucking rock
My pussy smells
Now did you tell them?

I don’t care. I don’t care. I don’t care. I don’t care.
I really, really don’t know

Maybe I like you
Maybe I do.