José Rodrigo Rodriguez

Archive for the ‘Poemas para mim mesmo’ Category

Domingo maior

In Poemas para mim mesmo, Uncategorized on 18/01/2015 at 23:33

Meu silêncio

eu levo no peito,

coração negro,

como um homem de ferro

que roubasse a luz

ao invés de incandescer,

uma história por escrever

para adultos e crianças.

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A maçã

In Poemas para mim mesmo on 14/12/2014 at 1:48

“Eu preciso aprender a só ser.”

Gilberto Gil

 “Boa tarde!” disse Pablo

o meu cachorro

para sua eterna tristeza.

 

“Eu sei o que te espera”,

pensei comigo,

depois dessa mágica

que não espantaria

a mais ninguém.

 

Conversamos sobre bifes,

e sobre o conceito de churrascaria.

Curioso e animado, Pablo sorriu.

 

Mas agora ele sabe que é um cão.

 

Não me ocorreu dirigir-lhe

pergunta alguma,

encerrei a conversa

rapidamente

e fui dormir.

 

Quem mais haveria comido

a maçã?

 

Olhei para o meu gato de esguelha,

que ainda,

como gato,

virou de costas

e sumiu

em seu saboroso

silêncio

sem sentido.

 

 

 

 

 

Poética (ou “A propaganda é a alma do negócio”)

In Poemas para mim mesmo on 04/12/2014 at 16:15

Eu não quero parar,

perpetuar um instante.

 

Quero que ele passe,

quero que ele passe

quero que ele passe,

 

que se vá e se perca

e que suma:

pronto, acabou.

 

Meu poema é feito de morte,

meu poema tem cheiro de morte

 

não se anime

não se confunda

não se surpreenda

 

palavra é perda

palavra é nada

 

marola no aquário

terremoto no tanque de areia

distância sem superfície

 

essa ridícula.

Arabesque

In Poemas para mim mesmo on 26/11/2014 at 17:43

A menina no alto da escada
com meias de seda e sapatilhas
vermelhas nas mãos
quer se jogar.

Para um danseur noble
ampará-la ou enlevá-la,
pas couru,
não é mais do que um dever

por isso ela só quer cair.

Na queda
sozinha,
a toda velocidade,
pernas cruzadas
e de novo,
em um entrechat quatre,
ela sabe

que não há tempo
para pensar,
que não há tempo
para fugir.

A menina
parada
sozinha
bem no alto da escada,
com a saia rodada e as meias
arranhadas entre as mãos,
sapatilhas de ponta puídas,
tão vestidas e desvestidas,

a menina parada ali
eu acho que ela quer
morrer.

Mas esconder o esforço,
esconder a dor
é mesmo próprio das bailarinas:
será possível saber ao certo
apenas após o salto.

Plié, agora,
todo risco!
Seu primeiro
ou último passo

en devant,
sus,
ao final,
viva ou morta:

arabesque.

Esboço de Eclesiastes, 3

In Poemas para mim mesmo on 18/07/2012 at 17:26

Eu já não tenho medo
o gato veste suas botas
para saltar sobre os tempos.

E aquilo que não existia
agora também se acabou
nas marcas, nos rastros,
nas farpas
das patas cravadas
na areia.

Há tempo para lutar
e tempo para desistir,
há tempo para antever
e tempo para evitar,
há tempo para sufocar
e tempo para sentir,
há tempo para esquecer,
tempo para estudar,
tempo para querer,
resguardar,
caminhar, estacar,
usar, amar.

Nesta aurora simultânea
nada anda e
nada muda.

Em todos os livros sobre a mesa
e nos copos das garrafas fechadas
de vinho,
os homens, as mulheres,
as crianças, os travestis,
os homossexuais, as pessoas,
todos eles viciados em repetir
a mesma cena
de onde se partiu no começo.

A vida no começo,
as lembrança dos mesmos brinquedos
e dos mesmos jogos e desta copa
de onde se contemplam as árvores
igualmente frondosas dos milhares
de jardins espelhados e passados
em cimento e pedra.

Todos comendo o mesmo bolo e
o mesmo pudim e o quindim das
mães e das avós de merda,
babando o caldo pelos beiços
de merda do melhor pudim
de todos eles, o melhor pudim,
o meu ou o seu, o pudim de todos
os nascidos nesta mesma casa
que fica sempre
exatamente onde
este mesmo vem.

O sereno medíocre molhando de branco
a pele da pálpebra fechada
em que tudo é sopro,
em que tudo é o sopro involuntário
que limpa, que suja, que move,
este ar quente, salobro
e ralo.

Uma faca, um tiro
e os assassinados de sempre,
as dezenas de milhares de pessoas
gemendo em close na televisão aberta,
porque as pessoas precisam mesmo
morrer de alguma coisa,
quem quer viver para sempre?

Com o mesmo material
meu Deus, com o barro
deste pó ou com a terra
quase líquida, secando,
com os vivos e os mortos
misturados, secando,
com as mãos nuas no Sol a pino,
nenhuma perda se repõe jamais
e é assim mesmo que eu me livro.

A terra arenosa do
muro de arrimo,
que é meu pai,
a terra pisada
da grade de contenção,
que é minha mãe,
a terra molhada,
que ao deslizar e
cobrir o bruto e
sufocar o ímpio,
se faz ainda mais leve
do que poderia ser.

Há tantas mortes que devemos
celebrar, há tantos mortos,
que devemos saudar
nos acidentes providenciais
tão felizes porque fatais.

E tudo é sopro,
este sopro involuntário,
que se repete porque eu
preciso, afinal
respirar;
que se refrata porque eu
preciso, afinal
deste ar
pesado,
um uníssono de cordas
e metais e couro
da luz estourada,
bem no tímpano.

Porque eu preciso, afinal
cumprir este mandato
que recebi ao nascer,
seguir este preceito
da vida que vai indo,
seguir esta ordem
de suportar a norma
e adimplir o contrato
que eu tenho com Deus,
sem acidentes, infelizmente,
ainda vivo.

Eu, seu eterno devedor
nesta vida,
eu, seu eterno pecador
neste tempo,
eu, que comuto
a pena da existência
em via,
pela alegria de matar
o tempo.

Do que me importa ainda, mais nada,
tão pouco tempo se me dá em troca,
mas ao menos sei bem que, somente,
porque eu já não tenho mais troco,
porque eu já não tenho mais medo,
assim como tudo que para e paga,
eu só me fio,
em mim mesmo,
eu já não temo.

A rosa lacerada nesta brisa

In Poemas para mim mesmo on 16/07/2012 at 23:41

O efeito do gesto
no corpo.

Uma linha no ar
sem risco.

Bato palmas, um aceno,
uma flor.

Gesto seu nome no ar,
eu repito.

Lâmina seca no caule
do som.

Fibra sem músculo,
como a rosa lacerada
nesta brisa.

Esboço de Eclesiastes, 2

In Poemas para mim mesmo on 13/07/2012 at 17:10

Os rios não enchem o mar
quando ele vaza.

Com a água na pele da língua,
sempre física,
eu aqui,
eu não escapo.

Quantos pés na mesma cama emparelhados?

Entre as pernas trançadas,
para um copo de suor
e um cálice de vinho,
que eu não bebo,
a minha boca repleta
do sumo grosso do som.

O seu gozo ressoando,
em sua parte material,
no gosto surdo dos pelos,
eu aqui,
eu não escapo.

Os ouvidos abertos para tudo
entre o que eu fiz e depois
com a boca molhada de tons
e os olhos voltados pra dentro.

Como tudo que falta, eu completo
com mais sangue e mais vinho,
com mais livros e mais vasos,
o vago da sala deserta,
o vago dos orifícios,
a greta viscosa
em sua parte reta, rejunte,
tijolos, areia de pedra grossa.

Eu bebo o que vaza ou água da chuva,
seu gozo, seu cuspe ou baba ou seu mijo,
eu como o que resta depois que mastiga,
com ar e com calma e com sal e com tripa,
eu mesmo,
eu engulo.

Mas eu sei, eu já sei,
os livros estão fechados
e não há nada,
não há mais nada
a aprender.

O que foi mau
nesta água que condensa
o bafo na janela por dentro,
lavando, molhando
a areia salgada dos espelhos,
eu aqui,
eu não escapo.

Mas eu sei, eu já sei,
o insensato está sempre na treva.

E eu fecho as janelas
para a São Paulo das frestas,
a minha Jerusalém truncada
de moscas e baratas,
de vento frio nas cartilagens
de som, da loucura e da tolice.

E eu eu espero a ambas,
aqui, com os olhos fechados,
eu não escapo.

Quem encontrar minha voz
rasgada nas alamedas,
em ondas de algodão grosso
molhada de água salgada,
neste cujo, exatamente,
procure, devolva, recolha,
escute,
eu mesmo.

Eu fincado,
eu misturado nas cartilagens de som
que eu engulo,
retalhos salgados de volta,
que volta, na boca,
a saliva estilhaçados dentes,
um engulho entupida garganta,
sangue mesmo correndo o esôfago
em sua parte material.

Eu aqui,
comigo mesmo,
com o bolso, bucho cheios,
eu espero Deus mostrar,
que eu não escapo.

Eu olho,
sem pressa.

Esboço de Eclesiastes, 1

In Poemas para mim mesmo on 11/07/2012 at 18:10

O gato vai pro trabalho
e eu fico,
num vai e vem
um vai e vem
que sopra e aspira
e cospe e engole
tudo que exala
como que fala
da minha boca.

O gato e eu
na minha roupa,
café e trocados
com dentes cerrados,
países errados,
sujando a louça.

Lá vai o gato sugando
a louça do sentido,
na beira da caneca
o bico do bule
em seu ouvido.

Um vento de Sol
que vaza para o Sul,
gravando no bigode,
um movimento
que circula,
uma palavra
que acumula,
num vai e vem,
um vai e vem
em tudo que se cansa
e o gato amansa.

Não há nada de novo
no sopro que exala
daquilo que respiro
e o resto do respiro
comido bem depois
embaixo do gemido.

Na língua a seguir
o cu do sentido
de sua vã filosofia
que o gato mia.

Lá vai o gato
e o gato mia,
se mia, mia
debaixo do Sol
em que eu
me escondo.

No armário fechado
ao Sul do meu lombo,
quando eu me rendo
e dirijo de novo
o que se endireita
no corpo que cimenta
a boca que volteia.

O gato foi Rei
onde eu não pude
e ele se chama
Gertrudes,
acontecido
o acontecido
do que ele queria,
com a cabeça morta
na orelha que nunca
se abaixa ou assopra.

Em que tudo persiste
quando eu fico triste
com o que se evadia,
depois que ele volta
eu volto à vaca fria
e o gato que fica
não mia, mia,
se mia, mia.

Esboço de Eclesiastes (i)

In Poemas para mim mesmo on 03/07/2012 at 3:57

Terra, terra, terra,
não há nada de novo
no que me faz crer,
vítima de tudo,
hábito de monge
terra, terra, terra.

Há um rio bem no dia
que eu habito,
uma escarpa que segue
todo pranto,
uma voz na palavra
que eu evito,
um vazio que habita
todo canto.

Há um gato de botas
na cozinha,
uma gota de sangue
no meu manto,
um detalhe de ouro
no sorriso,
um gatilho de carne
em acalanto.

Terra, terra, terra,
não há nada de novo
no que me faz crer,
vítima de tudo,
do dormir e do
viver, uma chave,
uma nota, uma parte
que se possa
oferecer,
rio da palavra,
lavo uma a uma,
hábito de monge,
colho tempestade,
terra, terra, terra.

Íon

In Poemas para mim mesmo on 18/06/2012 at 4:15

Prefiro ouvir em voz alta
a carta com a qual você respondeu
da minha calma para a sua culpa
uma pergunta que ninguém havia feito
ainda, uma pergunta que se poderia adiar
por alguns anos, mas você sempre antes,
mas você sempre alerta, mas você sempre
esperta, foi preciso dizer agora e com
a sua voz baixa de quando a luz se acaba,
enquanto se procuram as velas, enquanto
se tateia entre as cortinas e os móveis,
como se alguma coisa pudesse ser morta
ou perdida no processo, como se uma lâmpada
ou uma geladeira ou a televisão e as caixas
de som fossem mesmo despertar e explodir
quando a energia voltar, bem quando se puder
ouvir de novo tudo o que a cidade faz e tudo
o que nela trafega, quando se puder sentir e
colher e anotar como as páginas registram
as notas e as palavras, como as duas também
se escrevem, talvez agora, quando os dentes
se movem sobre a língua seca, talvez alguma
coisa ainda faça você simplesmente calar
e o que eu prefiro ou o que eu não prefiro
seja esquecido imediatamente
e com alívio.

As vozes mentem,
a música, o metro,
o poema,
as vozes cem vezes
mentem.

Mas livrai-nos do mal,
livrai-nos de todo o mal,
pois quem ouviu
talvez seja quem possa:
ao ver a luz tudo se cala
enquanto a calma ecoa na face
por dentro e por fora.