José Rodrigo Rodriguez

Archive for the ‘Berlim aos pedaços’ Category

Berlim (e Hamburgo) aos pedaços (XXIII): Obrigado, Alec!

In Aforismas e fragmentos, Berlim aos pedaços on 13/02/2010 at 2:03

Alec Empire, ex-vocalista do Atari Teenage Riot (ATR), agora em carreira solo, no clube Tresor em Berlim, programação oficial da Berlinale. 

O Tresor é uma casa clássica, uma das primeiras a abrir por aqui na onda clubber nos anos 90. Um prédio meio destruído, vigas à mostra, pé direito alto, aparência de uma ruína da era industrial, com elementos tecnológicos (projeções de vídeo por todo o lugar) e uma qualidade de som impressionante.

Antes de Alec vários DJs e uma projeção, completa, de Blade Runner, sem diálogos, reinterpretado por  Zan Lyons, que criou uma nova “trilha sonora”, ao vivo, para o filme. Na verdade, uma nova obra, a justaposição do filme com a música de Lyons, um DJ de Techno Hard Core, cujo vocabulário musical, assim como o de Alec Empire, é muito difícil de ser descrito.

Música difícil de ouvir, muito pesada, muito agressiva. As imagens que me ocorrem são: dezenas de chapas de metal sendo esfregadas e rasgadas em intervalos curtos; dezenas ônibus e jamantas desgovernadas, derrapando e tentando brecar no mesmo segundo; centenas de sirenes de polícia acionadas quase simultâneamente.

Sempre sons claramente urbanos, incômodos, executados fora de tom e de forma obsessiva, enfim, a delícia de qualquer adorniano um pouquinho mais esperto.

Às vezes Alec fica mais calmo, faz coisas diferentes, não se resume a si mesmo. Mas o vocabulário musical descrito acima que o tornou conhecido e que eu aprendi a gostar, faz mais de 15 anos.

Alec começou sua apresentação as 3h30 e terminou quase 6h da manhã para uma platéia pequena. Pois mesmo aqui em Berlim, o que ele e Lyons fazem não agradam a muitas pessoas. Tomei coragem e fui conversar com o cara enquanto ele esperava para fazer seu set, andando de cá para lá no Tresor, sem beber uma gota de álcool.

Cara normal, espantou-se com um brasileiro ali, ainda mais fã do ATR e dele. Lembrou do show da banda no Brasil em 1997, reclamou de estar numa casa de techno e da falta de bons lugares para tocar em Berlim.

Sou muito fã do fulano, mas não tenho mais 20 anos. Foi engraçado conversar com ele sem sentir aquela emoção adolescente de estar diante de um ídolo. Minha sensação atual em relação aos artistas de que gosto é, cima de tudo, de gratidão.

Gratidão por darem forma a emoções que sinto, problemas que enfrento, inquietações que me incomodam. As músicas do ATR e de Alec Empire sempre me ajudaram a pensar o problema da violência da cidade onde vivo, São Paulo, e a tentar lidar com a minha própria violência.

A cidade que agride com seus sons e paisagens devastadas, os quais, paradoxalmente, começam a parecer acolhedores e atraentes. Também o desejo de eliminar os obstáculos à força, livrar-se violentamente de pessoas e problemas.

Estes desejos, que precisamos reprimir para viver em sociedade, são os mesmos que me fazem olhar para a ruína industrial que é o Tresor e sentir prazer estético, além de adorar ter os tímpanos quase estourados pelos ruídos do ATR e de Alec Empire: centenas de decibéis em alta velocidade.

Como uma luta de boxe ou uma tourada, ATR e Alec são estilizações da violência que alimentam o monstro para que ele não irrompa à superfície e destrua tudo. Uma forma de satisfazer, de maneira inofensiva, o desejo de matar e de destuir.

Provavelmente, se eu passar um mês ouvindo música doce, terminarei assassinando alguém!

Por isso não me espantei por Alec ser um fulano tranquilo e simpático, quase delicado, como Lyons; este, além disso, franzino e esquálido. Fez todo o sentido do mundo.

Mas neste ponto estou, certamentemte, forçando demais a interpretação. Seja como for, quero deixar claro: ouvir o cara ao vivo e ter tido a oportunidade de agradecer a ele pelas música que já fez me deixou, muito, mas muito alegre.

Repito aqui a primeira frase que disse a ele, na verdade, a primeira coisa que me veio a cabeça: meio ridícula, mas absolutamente correta:

“Obrigado, Alec, por todos estes anos de boa música!”

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Berlim (e Hamburgo) aos pedaços (XXII): Sebastião

In Aforismas e fragmentos, Berlim aos pedaços, Poemas para mim mesmo on 11/02/2010 at 0:26

O cansaço que aparenta,
a luz que só vela,
a luz que se apaga,
a lua,
cabem dentro deste ostensório.

“Outros ainda virão!”,
disse meu pai, Sebastião
às portas do reformatório.

Sebastião é velho como um Cristo,
trocado,
sem cruz e sem manifesto,
sem reis e sem manjedoura.

“N’ Ele tudo se aparenta
e quem dorme
vela pelos vivos
que já não sentem mais sono
e se esquecem de deitar,
como aqueles que trabalham
e não podem pedir a seu corpo
que adie, mais ainda,
o seu compasso de espera.

A lua, o sol, as andorinhas,
também tantas hesitações
cabem todas neste ostensório,
cansaço que vela pelos vivos
sob essa luz de misericórdia
que nem sempre se aparenta.

Berlim (e Hamburgo) aos pedaços (XXII): Quanto homem lindo!

In Aforismas e fragmentos, Berlim aos pedaços on 10/02/2010 at 14:07

Ainda no capítulo das recomendações musicais turcas, Ali Özütemiz e Tatlises, favoritos do seu Metim. Dois homens bonitos, sem dúvida nenhuma. Um deles, vestido como se fosse participar do antigo programa do Bolinha e o outro, é o Bolinha redivivo. Cuspido e escarrado.

Qual deve ser a alegria de um homem que pode se vestir como esses dois e ainda ser considerado um astro da música?

Qual deve ser a sensação de poder ostentar um bigode como o de Tatlises, sem ser ridicularizado por ninguém, e ainda conquistar as mais belas mulheres?

Ou exibir a barriguinha e a careca de Ali Özütemiz e exalar um sex appeal irresistível, como na foto acima? Sonho de 9 entre 10 heterossexuais convictos. Se inveja matasse…

Uma informação divertida: Tatlises aparece, a cada tomada de câmera de seus clipes, a cada foto de seus discos, com uma roupa diferente, uma mais bonita do que a outra, numa performance meio Madonna. Aliás, ele também á ator.

Diante desse desempenho impressionante, eu me perguntei, intrigado: “Mas que negócio é esse? Será que ele vende o diabo dessas roupas?”

Pois é, vende mesmo. Encartado no CD, um catálogo com a coleção primavera-verão de sua griffe, “by Tatlises”.

Quanto homem lindo, meu Deus!

Berlim (e Hamburgo) aos pedaços (XXI): Na loja do seu Metin

In Aforismas e fragmentos, Berlim aos pedaços on 09/02/2010 at 23:22

Entrei na loja do seu Metin a Orient Musikhaus (Adalbertstr, 87) para olhar as guitarras turcas penduradas em todo o teto. Aberta até bem tarde, coisa estranha, pensei. Mas ao perceber a imensa quantidade de CDs nas prateleiras, deixei qualquer escrúpulo de lado e resolvi fazer um pequeno estrago no meu orçamento.

Seu Metin me olhou com desconfiança, mas ela durou pouco. Apenas o tempo dele perceber a qualidade do meu alemão e eu esclarecer que era brasileiro. Pedi que ele me mostrasse os discos de que gostava e, a partir daí, foram mais de duas horas de música turca e conversa numa língua misturada; inglês, alemão e turco.

Aberto até tarde porque ele mora ali, atrás da loja. Pode arriscar ficar aberto: está apenas perdendo seu sono, já que sua família não mora com ele. Seu Metin está há anos sozinho na Alemanha.

Tomei água na sua pequena cozinha depois que ele perguntou meu nome e me convidou para ir atrás do balcão para me mostrar alguns clipes no youtube. Na parede, ao lado do caixa, invisível para seus clientes, a foto de seus sete filhos, enfileirados, três no lombo de um carneiro, com sua esposa do lado, numa paisagem árida, provavelmente na Turquia.

Ele aqui trabalhando, ela cuidando dos filhos. “Linda família, Metin!” , eu disse a ele, que sorriu, satisfeito.

Pão folha sobre a mesa de fórmica, casa de homem, cozinha desarrumada, pouca comida.

Seu Metin tem uns cinquenta anos, bigodão preto, extremamente simpático, conhecia bastante música brasileira. Citou nomes variados e ficou ainda mais contente quando eu comecei a torcer a cara para os discos de POP que ele me mostrava.

Foi buscar os discos mais tradicionais e cantores atuais que seguem na mesma linha, inclusive Rojda, uma cantora curda, linda de morrer. Vejam por vocês mesmos abaixo. Dela, comprei o álbum “Sebra Min”, entre diversos outros CDs da cantores variados.

Pedi dicas de lugares para ouvir música turca, restaurantes, lojas de roupas: não vou poder aproveitar muito. Meu tempo em Berlim agora é curto. Mas há muito mais coisas para se ver por aqui. Essa vida paralela que acontece no mesmo bairro em que eu vivo, provavelmente a dois passos de distância,  só agora começo a ver.

Seu Metin me deu de presente uma misbahae, em turco, tespih, feita de contas brancas. Um brinde pela compra grande. Como bom árabe, nãos sei se foi presente mesmo ou se ele incluiu no preço dos CDs. Mas valeu pela conversa e pelas dicas.

De tudo o que me vendeu, essa parece ser a favorita do seu Metin (“Eu amo, amo, amo!, disse ele, sem hesitação): Yildiz Tílbe cantando Metris:

Pelo jeito, seu Metin gosta de mulher bonita. Só espero que as cantoras turcas não sejam como as brasileiras, praticamente todas homossexuais. Assim não dá nem para sonhar direito.

Berlim (e Hamburgo) aos pedaços (XX): “No Brasil não existe preconceito racial.”

In Aforismas e fragmentos, Berlim aos pedaços on 09/02/2010 at 14:04

“No Brasil não existe preconceito racial”, ouvi essa mesma frase de alguns alemães, especialmente daqueles que moraram no Brasil, namoraram ou casaram com mulheres brasileiras. Não conheço nenhuma mulher que tenha casado com um homem brasileiro, o que não deixa de ser interessante também…

Mas enfim, fico tentando entender o que a frase significa, porque que existe preconceito racial em meu país, disso ninguém, ao menos no Brasil tem a mais pálida dúvida.

Participei de uma conversa esses dias que talvez elucide alguma coisa. Um fulano que conheci, que mora entre Brasil e Alemanha, dizia para um amigo, alemão como ele, que este país é uma sociedade realmente integrada. Acrescentou: “Raramente alguém vai chamar um negro de sujo, como aqui”.

A primeira parte pode fazer algum sentido, a segunda, evidentemente, é a mais pura fantasia. Comecemos pela bobagem que está na segunda parte da frase.

Vou contar duas lembranças infantis, pessoais, minhas, sobre o assunto:

Eu devia ter uns 13 anos. Um parente meu, meio afastado, habitante da periferia de São Paulo, classe média baixa, me explicava como fazer para fazer sexo com uma negra: “Não pague motel, não, faça na rua, numa moita, por exemplo, para não acostumar mal a mulher”.

Outra memória infantil, do mesmo calibre:

Depois de cumprimentar um colega de trabalho negro, na minha frente, um parente, também habitante da periferia de São Paulo, classe média baixa, me disse baixinho: “Sempre que dou a mão para esse cara tenho vontade de lavar”.

Isso são apenas as memórias mais remotas. Hoje, eu contaria os exemplos já às centenas, uma para cada semana da minha vida, provavelmente.

E são frases de uma violência tão grande, dignas de qualquer país altamente preconceituoso. É claro que elas não são exclusividade de meus parentes: sou autor de um texto sobre racismo e direito e sei que essas coisas acontecem o tempo todo.

Uma observação para complicar: Se acrescentarmos o problema do gênero nesse caldo e pensarmos no preconceito contra homossexuais, a coisa se torna bem mais complexa.

Esta questão aparece, por exemplo, no excelente livro “Cidade de Deus” de Paulo Lins, infelizmente transformado num faroeste high tech para entreter, pelo Spielberg brasileiro, Fernando Meirelles.

No livro, um personagem homossexual sofre maus tratos por preconceito com sua identidade de gênero por parte, justamente, daquelas pessoas que foram vítimas de toda uma série de outros preconceitos. Em suma, negros pobres oprimindo gays pobres, numa mistura de problemas difícil de lidar e compreender. 

Mas enfim, porque alguns alemães falam este tipo de bobagem? Talvez a primeira parte da frase do meu recém conhecido diga alguma coisa de útil: a menção à palavra “integração”. Comparada com a sociedade alemã e mesmo com a americana, a sociedade brasileira parece ser mesmo mais misturada, pelo menos à primeira vista.

Se esquecermos, por exemplo, que em São Paulo há milhares de bolivianos trabalhando na indústria têxtil, em péssimas condições, fica mais fácil ainda ter essa impressão.

No bairro em que estou Kreutzberg, nitidamente, há sociedades paralelas, por exemplo, de turcos, com bares próprios, empregos próprios e língua própria. Há pessoas que moram aqui faz trinta anos e não falam alemão.

Ontem mesmo eu pedi uma informação na minha barraca de frango favorita, dirigida por turcos, logo na entrada do Görlitzer Park, e o atendente me disse: “Eu não falo alemão”. Provavelmente, fala apenas as frases que o permitem vender o frango. Ou simplesmente não estava a fim de falar alemão com um branco como eu.

Em conversas por aqui, me dizem que os turcos falam entre si uma espécie de dialeto que mistura alemão e turco, seus filhos também, e que as crianças alemãs e turcas estudam juntas, mas não freqüentam as casas umas das outras.

Não sei se isso é regra geral, mas é um comentário comum por aqui. Essa é a percepção dos moradores com quem conversei. E estamos falando da região mais tolerante de uma das cidades mais tolerantes de toda a Alemanha.

Deve haver estudos mais sistemáticos sobre isso. Vou procurar…

Bom, num panorama como este, os problemas brasileiros podem tender a serem minimizados. Ou simplesmente não serão vistos.

Basta que um alemão vá ao Brasil e não encontre o tipo de violência com a qual está acostumado para pensar, talvez, “O preconceito não existe aqui”.

Existe sim, é claro, sob outras formas.

Mas o paraíso dos outros talvez seja o nosso inferno: para ser feliz, bastaria ser cego. Seletivamente.

Mas a cegueira, neste caso, não vai durar para sempre.

Eu estou faz dois meses aqui e já começo a sentir certa raiva desta cidade, especialmente após ouvir essas histórias sobre os turcos.

Kreutzberg, exatamente um bairro de turcos, ficou famoso por ter dado lugar a muitas revoltas e protestos.

Diante do que ando ouvindo, já estou achando a vizinhança muito calma. E isso se deve, em parte, ao fato de os pobres estarem sendo expulsos daqui, em razão do preço, para bairros ainda mais afastados, como relatou um outro conhecido, também alemão. 

Mas enfim, espero que o autor da frase que estou comentando também desenvolva um ódio profundo pelo Brasil.

Só assim podemos melhorar as coisas e parar de falar bobagens, um sobre o país do outro.

Os espaços de integração e tolerância, infelizmente, são poucos e devem ser ampliados a todo custo.

Não sei se a melhor solução são cotas, criminalização, educação conjunta, enfim. Mas está tudo por fazer.

Berlim (e Hamburgo) aos pedaços (XVIII): Homero ausente

In Aforismas e fragmentos, Berlim aos pedaços on 07/02/2010 at 11:32

Fui visitar Homero aqui em Berlim, no Neues Museum, que guarda restos de Tróia e papiros com um trecho da Ilíada, mas especificamente dos livros 21-23, certamente não saído das mãos do poeta. Os objetos de Tróia são resultado das escavações feitas por Heinrich Schliemann, arqueólogo alemão do final do século XIX, cujo objetivo era atestar a existência da cidade sobre a qual Homero escreveu. A coleção, de dezenas de milhares de objetos, está em parte na Rússia e foi parcialmente destruída, conseqüências da Segunda Guerra.

Fui visitar Homero como quem visita um colega ilustre, talentoso, mas sem tanta reverência. Já não sinto tanta emoção diante de seus textos e de sua idéia. Digo “sua idéia” porque ainda não há certeza se existiram Homero ou Tróia: há teorias e hipóteses, mas nenhuma comprovação definitiva. Tanto a cidade quanto o poeta podem ter sido uma invenção de parte da humanidade em busca de uma ilusão de fundamento.

Por isso senti uma sensação mais prosaica e menos grandiosa. Homero para mim perdeu parte da aura que já teve, especialmente durante minha adolescência. Não estou mais diante “do” fundamento de minha arte e de minha civilização, “da” obra fundamental e definitiva, mas de um de seus momentos mais importantes. Um episódio central, entre outros.

A Grécia, em grande parte, é uma invenção do romantismo alemão, invenção esta que não serviu a objetivos lá muito nobres.

No meio desse caminho de séculos, muitos textos foram recuperados, muitos objetos foram resgatados, muitos estudos importantes foram feitos. Mas também muita coisa ruim aconteceu em razão dessa idéia que pensa as civilizações isoladas, muito bem demarcadas, com referências culturais claras e linhas de força evidentes, despidas de choques culturais, sem mestiçagem, sem mistura, sem algum grau de bagunça epistemológica.

Mesmo para compreender a Grécia e Homero, esta visão não funciona mais. O gênio grego, se existe, é resultado de muita mistura, de influências mútuas entre diversas civilizações do período, a começar pelo Egito, cheio de negros e amado por dez entre dez artistas gregos. A obra de Homero, não se sabe individual ou coletiva, também é resultado dessa mistura, que vem sendo recuperada por aqueles estudiosos que resolveram mudar de foco.

Fui visitar Homero, ainda, porque sei que este processo de revisão não irá torná-lo mais ou menos importante. Ele (s) não tem culpa de nada. Quem (ou o que) colocou a Ilíada e a Odisséia de pé fez, sem dúvida, um excelente trabalho. É lindo. Fui visitar Homero sem tanta reverência, mas ele (ou eles) ainda merece muita. Fui prestar meus respeitos ao(s) poeta(s) que, acreditava eu, estaria me esperando atrás das portas monumentais do Neues Museum. Mas, infelizmente, ele não estava presente.

O pedaço de uma lira, cerâmica que segurava as cordas do instrumento; um vaso com duas alças, supostamente citado na Odisséia III, 43; papiros com trechos da Ilíada e mais centenas de fragmentos de uma suposta Tróia, vindos de um sítio arqueológico que, estudos mais recentes, descobriram ter sido destruído e reconstruído mais de 50 vezes.

Como alguém pode olhar para esses milhões de pedaços e enxergar uma cidade, uma pessoa, um todo? Não teria sido tudo aquilo, especialmente em épocas sem medição de carbono, sem tantos recursos tecnológicos para compreender as escavações, a mera imputação de categorias e idéias nascidas do desejo de ver uma totalidade onde ela nunca existiu?

O que é São Paulo, a minha cidade, o que é Berlim, o que é Hamburgo? Estas cidades tão complexas, que só podemos captar aos pedaçõs? E quem sou eu? Estaríamos nós hoje melhor aparelhados para responder estas perguntas, tão prosaicas, do que arqueólogos e literatos, ansiosos por encontrar o fundamento de sua civilização, ou cientistas sociais em busca de explicações totalizantes?

Quando o amor acaba e alguém nos diz, ressentida ou ressentido, “eu não estou te reconhecendo mais”, será que algum dia ela ou ele já chegou a nos conhecer? Ou é o desejo de ser capaz de fazê-lo, sustentado por anos, contra todas as evidências, o elemento que vai juntando os fatos mais disparatados, vai agrupando fragmentos e pedaços para atribuir um sentido ao todo, até a que o amor desapareça e tudo se despedace?

E nesse sentido, não seria a invenção de Homero e de Tróia, resultado do amor à humanidade? Subtraído seu caráter excludente, matizada pela diversidade de culturas que, hoje, reconhecemos e defendemos; alimentada dos choques culturais e dos cruzamentos que, hoje, estão sendo descobertos, não precisaríamos ainda deste impulso de unir e compreender, de reunir e agrupar, para que a humanidade não se fragmente e se veja como um arquipélago de estranhos?

Seguir o caminho oposto ao do iluminismo, apostar na fragmentação mais completa, não levaria a um resultado autoritário, mas por outra via? Milhões de estranhos que não se conversam, cada um, um idiota, sentado em sua própria ilha, sem um espaço comum para sentar e deliberar. Autocentrados e autopoiéticos, sem amor à humanidade e sem aquilo que esse amor, por si mesmo, tem sido capaz de inventar. 

Por isso fui prestar meus respeitos a Homero, porque ainda acredito na necessidade do universalismo. E o que mais me emocionou na visita, o que mais me comoveu por trás daquelas portas imensas do Neues Museum foi, exatamente a ausência do poeta. Ele não estava lá e isso me fez sentir, de novo, uma emoção adolescente.

Ele não estava lá e sim, aqueles restos singelos, prosaicos e até sem graça que só fizeram ressaltar o gesto que os colocou e os mantém num todo relativamente coerente. O que me fez vibrar foi pensar na força da imaginação dos homens que sustentaram esta idéia, muitos anos antes do nazismo; e na força do amor de todos aqueles que, hoje, sustentam a esperança de construir um espaço de interação cosmopolita entre os seres humanos.

Pois este gesto precisa ser incessantemente repetido pelos que vieram depois. A humanidade, todos sabemos, especialmente depois de visitar a Alemanha e estudar sua história, está sempre em risco. O universalismo, todos sabemos, especialmente depois de tudo que ocorreu depois do 11 de Setembro, pode se perder facilmente.

E eu não estou preparado para viver num mundo sem estas duas idéias.

Para o querido amigo, Érico Nogueira, ausente, saudades.

Berlim (e Hamburgo) aos pedaços (XVII): As Casas Bahia e o socialismo

In Aforismas e fragmentos, Berlim aos pedaços on 07/02/2010 at 0:12

Marcel Breuer, Cadeiras em quatro tamanhos, 1924

O Bauhaus queria ser as Casas Bahia: design bonito para as massas, pesquisa tecnológica aplicada à produção em série de objetos como cadeiras, luminárias, bules e jogos de chá. O significado de “massa”  no começo do século certamente não incluía uma conta de bilhões de pessoas. Mas a questão persiste: Os produtos populares precisam ser feios? Design é apenas para ricos? As massas devem ter acesso à beleza estética? Este problema não seria secundário quando se fala em saúde, saneamento básico, previdência social e educação?

Museu Bauhaus em Berlim, Neues Museum, também em Berlim, e sua bonita coleção de arte antiga. Tróia, civilização Cipriota, Europa na idade da pedra, dos metais, Egito: sempre a presença do ornamental. Qual a utilidade de anéis de outro doze séculos atrás? Para que enfeitar o cabo de uma espada, cuja função é apenas matar e ferir? Porque esculpir com maestria um simples copo para beber água e vinho?  

Meu conhecimento de história é insuficiente para chegar a uma resposta. Mas a presença da dimensão estética, seja ela uma realidade ou mera ilusão retrospectiva, parece perene. Qual a utilidade prática de se construir um copo brilhante e harmonioso ou uma espada decorada com pedras coloridas? Diferenciação de casta, de classe, de grupo?  Mas porque a diferenciação via beleza e não uma simples marca, sinal, simples, preto e branco, sem graça?

Há alguma coisa de arrebatador no estético, que faz mudar nosso estado mental imediatamente. Seja diante de um ser humano bonito, de uma roupa bonita, de um prato bonito, de um quadro bonito ou de uma escultura: algo acontece de mágico logo depois que nosso olhar toca cada uma dessas superfícies.

Adorno fala desse assunto em sua Teoria Estética, chamando de filistinos a todo aquele que se entrega cegamente à sensação de encantamento, cuja função é fazer com que os homens esqueçam da injustiça do mundo. O artista fornece “alívio”, “diversão”, “entretenimento” e é justamente isso que se deve combater, produzindo uma arte tensa, convulsa, que se recuse a fechar-se em si mesma e a elevar o espírito.

É preciso esfregar a sujeira na cara dos expectadores, da audiência, do respeitável público, um  gesto que vive da tensão entre o belo e a realidade da exploração, entre o estético e o grotesco da sociedade capitalista, entre o arrebatamento e o desespero do mundo completamente administrado.

Como o design se encaixa nisso? O que significa para o socialismo, produzir uma bela caneta a menos de 2 euros, numa sociedade completamente injusta? A beleza só poderá ser gozada sem culpa quando houver justiça total no mundo? Não sei como responder a nenhuma dessas perguntas.

Mas há uma questão anterior à da exploração que entra em jogo neste contexto: o caos do mundo diante de nossa existência finita, mortal e a possibilidade de controlar a natureza. Um objeto harmônico pode ser visto, nesse contexto, como um símbolo do humano diante do indeterminado. 

Traçar uma figura geométrica numa folha de papel alimenta o ideal de controlar nosso estar no mundo. Recortar o espaço com muros e lajes serve para a organizar a vida de uma certa maneira. Pintar um quadro, construir um bule, esculpir uma figura, tudo isso é sinal do humano sobre as coisas e a tudo isso se pode chamar de esclarecimento.

Sua hybris se chama “sociedade administrada”, sua medida justa se chama “socialismo”: não pode haver condenação tout court da dimensão estética. Mesmo numa sociedade injusta.

Mas qual é sua justa medida hoje para que a arte não sirva para ocultar a realidade da exploração? A resposta será dada obra a obra, a resposta está nas mãos de cada artista. Não parece ser possível ditar nenhuma fórmula pronta.

Berlim (e Hamburgo) aos pedaços (XVI): Navio de loucos

In Aforismas e fragmentos, Berlim aos pedaços on 05/02/2010 at 20:44

Uma cidade, uma família, uma empresa, uma universidade, um país, um clube, ou seja, qualquer tipo de coletividade, deveria ser julgada em função da quantidade de loucos que consegue reunir, incluir, integrar e sustentar materialmente. Defendo, inclusive, que este seja um critério para diferenciar direita e esquerda e para medir a distância que nos separa do socialismo.

Sempre há aquele fulano para quem olhamos e nos perguntamos: “Como ele pode ser assim e sobreviver? Como ele consegue arrumar namorada? Como consegue manter um emprego e se sustentar? Como consegue ter um apartamento, andar com roupas limpas, barba feita? Como, enfim, pode andar na rua assim, completamente solto?”.

Quanto mais vezes fizermos estas perguntas, mas próximos estaremos de uma sociedade emancipada.

Todo louco é meio disfuncional, ou seja, a princípio, improdutivo. Mudando-se o ponto de vista, ou seja, se a sociedade decidir acolhê-lo, será necessário instaurar outra organização para que ele, o pinel, se torne funcional. Será preciso adotar outra dinâmica, que inclua comportamentos e pensamentos inusuais na rotina e permita, assim, que o lelé se sinta em casa. E quem está em volta também. Ou seja, para integrar um maluco é necessário fazer a revolução.

Bater palmas para maluco dançar, não é essa a expressão? Dita normalmente em tom de crítica, para sugerir que alguém está incentivando um maluco em detrimento de seus interesses, na sociedade socialista ela irá perder, completamente, sua inflexão negativa.

Pois como já deve estar muito claro, cada maluco que você conhece tem um alto potencial revolucionário, provavelmente, muito maior, hoje, que o da classe trabalhadora. Partindo-se do ponto de vista dele para rearticular o que está em volta de modo a transformar o maluco em gente normal, a práxis ganha uma inflexão bem mais radical do que se nos voltarmos para nossos líderes sindicais.

Se você não ligar, é claro, em ter que, eventualmente, conversar com pratos e colheres, cotovelos e maçanetas. Se não se importar de, às vezes, andar com a cueca na cabeça e as meias nas orelhas ou, ainda, se você achar divertido prestar continência a uma legião inteira de Napoleões, 7 dias por semana.

O potencial revolucionário dos malucos fica ainda mais claro e fundamentado quando nos lembramos que a imagem de um navio de loucos, despachados para longe, longe de suas famílias, vagando sem porto de chegada, foi interpretada por Foucault como uma metáfora da consciência sobre os pecados da sociedade medieval.

Os malucos, todos juntos, vagando pelo mundo, objeto de chacota e diversão para quem quisesse ver, indicavam qual seria o destino de todo aquele que não se integrasse à comunidade.

Na sociedade emancipada, ao contrário, os malucos nunca irão vagar sem porto de chegada. Viverão juntinho de nós, andadarão todos soltos na rua, ganharão seu dinheiro em atividades produtivas, partilharão de nossas mulheres e homens, de nossa comida e de nossa atenção; e chuparão seus dedões em público, sem vergonha e sem limites.

Temos nosso clássico literário sobre a loucura, “O Alienista” de Machado de Assis que, até onde eu sei, nunca foi comparado com a fonte literária mais remota da metáfora, “The Ship of Fools”, livro de 1458 escrito por Sebastian Brant, que inspirou um quadro homônimo de Hieronymus Bosch.

Sobre maluco, tem muita coisa. No campo do rock, temos o maravilhoso “Cê tá pensando que eu sou Lóki?” de Arnaldo Baptista, temos nosso saudoso Maluco Beleza (“Toca Raul!”) enfim… Aliás, para ficar no roquenroll e introduzir Berlim neste texto, o baixista da minha banda favorita, Alexander Hacke do Eisntürzende Neubauten, natural desta cidade, juntou-se à cantora Danielle Picciotto para produzir uma pequena opereta rock baseada, justamente, no livro de Brant. Em CD nas melhores lojas do ramo. 

São tantas as conexões… Mas fico me perguntando, à luz dessa referência mais berlinense e roqueira, se Hacke chegou ao livro e decidiu compor seu “The Ship of Fools” porque mora em Berlim. E se morasse em Hamburgo, seria a mesma coisa: estas cidades, chego a esta conclusão, têm uma grande capacidade de atrair e/ou produzir malucos de todo gênero. Um pouco além do que se pode encontrar nas outras cidades grandes que conheci.

Você sai para dançar, por exemplo, num clube de rock, numa casa de musica latina, numa festa de música eletrônica. Claro, não pode ser um lugar muito arrumadinho, como todos que há em SP (mesmo os alternativos), senão o pessoal vai estar fazendo caras e bocas. Vá a um lugar normal.

Você pode também tomar o metrô, fora da hora do rush (porque neste momento, está tudo tão cheio que não se vê ninguém) ou ir a restaurante, barraquinha de comida, supermercado. Você pode só andar na rua, pronto, não vá a lugar nenhum. Ande na rua.

Sempre vai haver alguém fazendo uma coisa meio gozada, que você acha que passou meio da conta e, por isso mesmo, vai atrair os olhos das autoridades e a repreensão pública. Você olha aquilo sem crer, baixa a cabeça com uma certa vergonha, esperando a intervenção de alguém, olha para os lados com o rabo dos olhos e, depois de alguns minutos, se pergunta, afinal, porque nem a polícia parou para prender o nego (ou a nega) e porque ninguém sequer prestou atenção no negócio.

Indiferença com o outro ser humano? Isolamento e fragmentação da sociedade moderna? Selva das cidades? Resultado da excessiva repressão das instituições alemãs, que fazem as pessoas simplesmente estourarem, executando coreografias e gestos meio lelés? Pode ser. Mas seja como for, se o maluco estiver numa danceteria em Kreutzberg, ele vai ser aplaudido, vão formar rodinha em volta e, depois da maluquice, todos vão querer dançar com ele e, se possível, dar uns catos.

Fala aqui uma testemunha ocular: um fulano de toquinha de lã, com cara de lenhador, forte como um touro halterofilista, camisa e calça apertadinhas, resolve dançar, do nada, como um cossaco completamente descoordenado, ao som de música latina, depois de passar quase uma hora sentado no banquinho do bar, batendo papo com você como se fosse uma pessoa completamente normal, tirando o maior sarro de um outro cara no bar, que ele achava muito maluco.

Resultado: todo mundo tenta imitar o maluco, todas as mulheres do local querem pegá-lo depois e os marmanjos no recinto ficam dando tapinhas nas costas, tipo, “Você é o cara!” e  “Meu herói!”. Não consigo imaginar um lugar em São Paulo, exceto as festas da Física da USP, em que uma coisa assim seja possível.

Estar num lugar assim vai dando aquela sensação de, “Meu Deus, o que mais pode acontecer agora?”…

Bom, eu já falei do Der Clochard de Hamburgo em um texto anterior: é a mesma racionalidade punk. Pode ser que haja um aspecto sinistro nisso tudo, falta de interesse na dor alheia, na história alheia, excessiva repressão, indiferença, enfim. Mas parece que não é só isso.

Ao contrário de São Paulo e Rio de Janeiro, por exemplo, aqui em Berlim, também em Hamburgo, pelo menos em alguns ambientes, temos a impressão de que o navio dos loucos foi completamente banido do mapa e da história. Ou virou a cidade inteira, o que dá na mesma. Vale, literalmente, qualquer roupa, qualquer coisa, qualquer nota.

O que me faz sentir, evidentemente, mais perto do socialismo do que em qualquer momento da minha vida, claro, desse jeito meio biruta, dançando feito um cossaco descoordenado na direção da tropas inimigas.  

Tudo isso poder ser apenas uma ilusão, resultado da minha falta de compreensão dessa cultura meio estranha. Mas que ilusão deliciosa!

E dá muita vontade de transformá-la em prática, em algo real, uma forma de vida e de sociabilidade. Só por isso, já me sinto fazendo a revolução. Mesmo que seja desse jeito, meio lelé.

Berlim (e Hamburgo) aos pedaços (XV): Como fariam os beats

In Aforismas e fragmentos, Berlim aos pedaços, Poemas para mim mesmo on 01/02/2010 at 14:34

Pegar a estrada, sem destino,
como faziam os beats,
as pistas correm paralelas,
faixas pintadas e faróis
acesos, apontam
um lugar distante
qualquer,
como faziam os beats,
postos de gasolina,
barreiras
policiais, há muitos
sinais, obstáculos,
nenhuma deriva.

Como faziam os beats
hoje eu viajo
para melhor lembrar,
lençóis na cama branca,
um beijo leve, dedos
roçando a nuca branca,
atresavessando
espaços internos.

Como faziam os beats,
hoje eu viajo
para melhor voltar,
depois da batalha deste dia,
antes da dura estrada,
esta
que nos leva,
ao mesmo lugar,
nestas esquinas,
ainda,
nossas palavras,
como fariam os beats,
hoje eu viajo,
para saber ficar.

Hamburgo (e Berlim) aos pedaços (XIV): Ver o mundo da perspectiva de um pato hamburguês

In Aforismas e fragmentos, Berlim aos pedaços on 01/02/2010 at 6:55

O lago Alster em Hamburgo congelou este ano. É a primeira vez que isso acontece desde 1997, lá se vão mais de dez anos.

Não sei se este fato realiza alguma previsão de sensitivos e sentivas alemãs. O que diria, sobre isso, a nossa querida mãe Dinah, se tivesse nascido nessas terras de Beckett?

 “Este ano, alguém famoso morrerá, a CDU continuará no poder, Jürgen Habermas lançará um livro de mais de 400 páginas e o lago Alster irá congelar…”

Seja como for, estive sobre ele este sábado, caminhando, deslizando e quase caindo, juntamente com uma pequena multidão saracoteante, sobre litros e mais litros de água gelada.

Confesso que um certo medo tomou conta de mim. Nada grave, mas devo confessar.

Havia crianças zanzando no local, alegres e escorregadias como minhocas brancas e serelepes, velhos e velhas de mãos dadas, adultos e adultas, casais de namorados, enfim, o congelamento do lago virou atração turística, com direito a camelôs vendendo vinho quente e comidinhas variadas.

Mas o clima de alegria não evitou que eu tivesse pensamentos relativamente sombrios: 

“P… que me p… Se essa p… quebrar estamos todos f…”, pensei enfaticamente, mas com serenidade, num laivo de cuidado e preocupação com meus semelhantes.

“A Prefeitura não liberou oficialmente que a população andasse sobre o lago. Mas também não proibiu!”, informou minha amiga Renata, um segundo antes de pisarmos sobre o Alster, na intenção clara de me acalmar. 

“Veja só o resultado dessa conduta dúbia dos poderes públicos!”, pensei.  “Como assim não liberou? E esse povo está todo aqui? Depois a gente fica pensando que alemão é sério!”

A presença da cruz vermelha nas margens não serviu para aumentar minha serenidade.

“A camada de gelo está com 14 centímetros”, continuou Renata, fornecendo detalhes que, naquela altura do campeonato, me interessavam muito pouco. “Eles estão medindo a camada de três em três dias.”

“Espero que tenham medido hoje! Ontem fez um solzinho e deve ter derretido um pouco….” pensei comigo mesmo, caminhando, caminhando em direção ao meio do lago…

“14 cms, 14 cms, 14 cms me separam de milhões de litros da água congelante…”

“Acho que minha régua da segunda série tinha 15 centímetros”, lembro sem querer.  Material obrigatório: régua acrílica de 15 cms, pequenininha, para caber no meu estojinho, folhas de almaço, papel crepom, giz de cera…

“Não seria melhor esperar até que se forme uma camada de gelo mais grossinha? Uns 500 metros, 1 quilômetro, só para não ter nenhum problema?”, perguntei a meus amigos.

“Não tem perigo! Vamos lá… Se a camada chegar a 20 centímetros, a Prefeitura vai liberar para a cidade fazer uma festa em cima do lago. Mas 14 já é bastante…”, terminou seu informe Renata, já no meio do lago, escorregando abusadamente, de um lado para o outro, com seu fiel companheiro Andreas, os dois, sob minha vigilância serena e zelosa.

Um menino de patins passou zunindo por nós e deu um salto no vazio, caindo sob o gelo logo adiante.

“Precisa pular em cima dessa m… desse jeito,  c…”, pensei, ainda serenamente, caminhando a passos cautelosos lago Alster adentro.

“O mais interessante no fato de o lago ter congelado, meu querido Zé, é que agora podemos ver o mundo da perspectiva de um pato!”, concluiu Renata, em um tom filosófico e enigmático, como sói ocorrer neste país, pátria da filosofia mais hermética. Mesmo eu, PhD no assunto, ainda não consegui decifrar afirmações tão densas. 

O pato sou eu? O pato éramos todos nós? Pensamentos profundos, densos, pesados, sobre milhões e milhões de litros de água congelante…