José Rodrigo Rodriguez

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Bizâncio

In Poemas para mim mesmo on 25/04/2012 at 18:17

as pedras, os animais
as idades, as eras,
as mulheres, os homens,
com quem eu falo?

eu me lembro
dos nomes, das frases
dos argumentos

mas sou eu mesmo quem se move
atrás do espelho

prenúncio da Renascença
Jesus e seu pai
a divindade da carne
dois passos atrás

eu procuro em mim mesmo
a distância da outra face,
um espelho que me devolva
o vazio

Bizâncio,
prenúncio de nada
mas agora,
o que ele é?

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Fogo sereno

In Poemas para mim mesmo on 23/04/2012 at 13:35

quando estiver tudo perfeito
deixe uma coisa
torta
ou folha ou pétala ou flor

triângulos
naturais
em círculos
hesitantes
esboços

quando estiver tudo escrito
deixe uma linha para trás afiada
no branco desse som descontínuo
que vaza do tropel da rua
para dentro da cabeça

caroço duro
em meu ouvido,
cimento, farpa,
eco

e com os dedos
feridos,
o sangue saindo
surdo.

Os animais

In Poemas para mim mesmo on 22/04/2012 at 18:33

Os animais pensam com as mãos
e o que se revela quando eles falam
nunca provoca medo

como uma cadeira que se afasta
e depois se aproxima
de uma fresta, uma lança,
um beiral, limiar, fronteira,
sem que haja tempo para pensar
no vagido automático
do sangue movendo os dedos

os animais vivem
como deuses
sempre
por inteiro.

Para Natália.

Intervalo em dó

In Poemas para mim mesmo on 19/04/2012 at 3:02

palavras e coisas andando juntos,
mas se desencontram assim que eu te digo,
mas se desencontram, passo desconexo,
quando alguém se lembra, pássaro divino

riso descosido, arco vôo cego
cedo de manhã, barco ronco frio
meio desbotado, meio a descoberto
sempre necessário, pássaro divino

palavras e coisas quando alguém se lembra,
quanto mais eu digo, mais dentro
e a voz que se despede como fosse nada,
volta sem sucesso quando não precisa

resposta,
em tempo.

A janta

In Poemas para mim mesmo on 08/04/2012 at 22:30

A casca da banana
a casca da maçã
a casca da ameixa

dentro, fora
pele, engulho
planta, plástico,
animal
sentença

a pele do frango
a casca do porco
o pelo da vaca
a carne da unha
o cerne do dente

fala mais
e come menos.

Circular

In Poemas para... on 07/04/2012 at 14:00

Luz demais
e a metade que faltava,
pátio
clareira
remanso
redemoinho.

Pétalas largas de insetos,
enxames no verão
de sempre,
fonte precisa sem charcos:
o poço
lacrado.

Nem um segundo de Sol,
lágrimas secas,
mal despontando na boca
amara língua.

Tempo morto

In Poemas para mim mesmo on 04/04/2012 at 17:15

Um barco bem de perto
uma casa e sua cor

quem se demora
vê mais

quem se demora
incluso.

Nas brancas nuvens
do mesmo

ou granito ou mudo
ou mar.