José Rodrigo Rodriguez

Archive for outubro \12\UTC 2011|Monthly archive page

Canção para as horas

In Poemas para mim mesmo on 12/10/2011 at 16:15

não há resposta
e a solução está no verso do velho mapa,
este convite para um enigma de palavras cruzadas
ou jogo de detetive: não há resposta
eu espero
eu repito
eu me lembro

há algo de muito estranho esta noite
há algo de muito podre ou a mesma trama,
conspiração universal para destruir
o tempo, o tédio, as torres irmãs,
a rede mundial de computadores
ou o que quer que ainda seja

há algo de estranho no reino da Dinamarca,
mas também aqui, quando se apura o ouvido,
no meio de tanta incerteza e o silêncio
no meio dessas horas que se estendem
por mais que um minuto,
eu espero
eu repito
eu me lembro.

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Truque

In Poemas para mim mesmo on 02/10/2011 at 12:46

Nada nesta mão
e nada naquela,
um lenço comum,
uma caixa de fósforos,
um cordão grosso,
uma bola

a haste de uma flor,
o cabo de uma faca,
o côncavo de uma página,
a sede de uma mulher,
o ovo de uma sombra,
um peixe
um osso.

Questão de classe

In Poemas para mim mesmo on 02/10/2011 at 5:45

Na sua casa não se faz por menos
eles são grosseiros de fato,
mas grosseiros como quem?
Grosseiros como um
trabalhador manual embrutecido
pelos tijolos que carrega?
Ou como um executivo
que não lembra de dizer bom dia
para a mulher e para os filhos?
Grosseiros como alguém
que nunca foi para a Europa
e nunca viu a capela Sistina?
Ou grosseiros como quem não leu
Proust e não sabe da existência
dos livros do catálogo da Companhia das Letras?
Na sua família não se faz por menos
eles são mesmo grosseiros,
e grosseiros como alguém que sabe exatamente
o que se deve esperar
no espaço milimetricamente
adestrado
como seu terno e seu vestido perfeitos,
pois eles são mesmo grosseiros
com os olhos de quem olha
nestes olhos de quem vê:
é uma questão de classe.

O câncer e o grito

In Poemas para mim mesmo on 02/10/2011 at 5:28

O verso não tem avesso
quem só diz o que não quer
catálogo de sonhos
profissionais da interpretação,

mas a palavra é a pedra no lago.

E quando feito poesia
a palavra espalha
no vento sem metro
o infinito por todos
os lados.

O verso não tem avesso
nada está dentro
no rosto da palavra
o câncer e o grito.