José Rodrigo Rodriguez

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TRALHA [JUNK]

In Poemas para mim mesmo on 29/09/2011 at 13:57

Paul McCartney
(tradução José Rodrigo Rodriguez)

As carangas, os guidões, magrelas pra dois
Jubileu de coração partido
Pára-quedas e coturnos, nosso saco pra dormir
Camping tão sentimental.

“Compra, compra”, diz a placa na loja
Mas por que? Por que?, diz a tralha no quintal
Castiçais e tijolos, algo novo e algo velho
Memórias de você e de mim

“Compra, compra”, diz a placa na loja
Por que? Por que?, diz a tralha no quintal
Castiçais e tijolos, algo novo e algo velho
Memórias de você e de mim

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Junk

Motor cars, handle bars, bicycles for two
Broken hearted jubilee

Parachutes, soldier boots, sleeping bags for two
Sentimental jamboree

“Buy Buy”, says the sign in the shop window
Why? Why?, says the junk in the yard
Candlesticks, building bricks
Something old and new
Memories for you and me

“Buy Buy”, says the sign in the shop window
Why Why, says the junk in the yard
Candlesticks, building bricks
Something old and new
Memories for you and me

McCartney

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O reformismo estético de Nirvana, Chico Buarque de Hollanda e The Beatles (fragmento)

In Aforismas e fragmentos on 25/09/2011 at 20:04

A trajetória do Nirvana e o pensamento de seus integrantes, especialmente de Kurt Cobain, é crucial para compreender a indústria cultural de nosso século e a trajetória da música alternativa:

“Nós nunca fomos uma banda alternativa que pretendeu fazer sucesso por razões financeiras. Claro, nós queríamos o respeito das pessoas que admirávamos e elas faziam parte do punk. Mas nunca fomos uma banda assim. Por exemplo, algumas bandas punk assinaram com grandes gravadoras e não agradaram ao público e por isso se tornaram bandas New Wave. Desde o começo nós sabíamos o que estávamos fazendo. Nós somos uma porra de uma banda de New Wave, cara! Claro, eu gostaria que as pessoas que ouviram “Nevermind” porque é fácil de ouvir também se relacionassem com a parte mais pesada de nosso som e fossem atrás de bandas punk como Black Flag e Flipper.”, disse Kurt Cobain a um repórter nos anos 90.

O projeto estético dos Beatles e de Chico Buarque de Hollanda difere muito do projeto do Nirvana? Reformistas moderados do POP, estes artistas incorporaram as experiências mais radicais de sua época de forma diluída para renovar um pouco o gosto das massas. Basta comparar a versão de Chico para “Me deixe mudo” com a versão original de Valter Franco para entender o que estou dizendo.

Em um tempo de grandes gravadoras e conglomerados de mídia, em tempos de ditadura militar e censura, este projeto assumia feições progressistas. Afinal, estávamos diante de artistas dispostos a renovar a experiência estética mais vulgar e falar de temas políticos sensíveis; incorporar novos elementos ao POP e às vezes desafiar o padrão comercial de seu tempo.

Mas com o fim da ditadura militar brasileira e o declínio dos grandes conglomerados de mídia também em razão da internet, parece ser ainda mais progressista apostar na destruição de qualquer grande centro de poder simbólico e fortalecer meios alternativos de produção e distribuição de música e cultura. Pois desta forma, podemos evitar a criação e a manutenção de estruturas capazes de homogeneizar o gosto por meio do abuso do poder econômico.

Este, aliás, é o maior legado político do movimento punk com seus inúmeros fanzines, gravadoras independentes, casas de show fora do circuito comercial e postura anti-star system.

Quem seria hoje autoritário e demagogo o suficiente para pretender ser “a voz de sua geração”?

Seja como for, quem estivesse em busca de artistas realmente radicais naquela época, era melhor procurar em outros lugares, como nos explicou Kurt Cobain, bem longe de Nirvana, Chico Buarque de Hollanda e The Beatles. O projeto estético de cada um deles excluía, logo de saída, a possibilidade de estar muito além do gosto comum. Quem sabe alguns centímetros?

Os cães europeus

In Poemas para mim mesmo on 25/09/2011 at 12:51

Os cães europeus quando em território
americano
voltaram a ladrar como
selvagens
disse Alexander Von Humboldt
em “Quadros da Natureza”.

Hoje, na França, os animais,
hoje, na Alemanha, os animais,
já não precisam viajar tão longe
e tomar tanta distância para o
chute ou para o grito.

A paisagem de origem
passada ao revés
por todo o sistema,
do ânus ao intestino,
o estômago na garganta,
com gosto de merda na língua
cravada entre os dentes.

Os cães europeus hoje em dia
estão como em casa.

E aqui na América
sonhos antigos
ainda movem montanhas,
mas nem sempre.

Eu escuto falar
esta língua que aprendi
entre as orelhas e a tíbia
que ressoa.

Maio de 1968

In Poemas para mim mesmo on 11/09/2011 at 16:45

Era amor livre
e não sexo livre
e o amor é a coisa mais difícil:
fuja dele.

Todas as responsabilidades,
todas as dores e crenças,
todo mal, toda falta e minuto,
cada palavra e sentença.

Por isso a utopia se dava
ao rés do chão,
tão perto, tão tensa.

Cheia de ódio e de som,
cheia de cor e de medo,
inteira.

O amor (maio de 1968)

In Poemas para mim mesmo on 11/09/2011 at 16:36

Se um dia acabar a fome na África
na Ásia e na Latino-américa,
e a miséria humana for equacionada
por programas humanitários eficazes:
o sofrimento, quanto mais perto,
mais ameaça.

Se um dia os governos falarem em nome
dos interesses dos mais fracos,
e o poder estiver perto dos homens
como você está agora
tão perto do meu peito,
como se ele pudesse viver
saindo por essa porta aberta.

O sofrimento, quanto mais perto,
mais ameaça.

Sai fora daqui,
some, me deixa:
o sofrimento quanto mais longe,
mais tempo, mais cedo,
mais sonhos para um missionário
com planos de ação prioritária.

O sofrimento, quanto mais perto,
ou como você,
medo, fogo,
mistério.

Os cachorros e as revoluções

In Poemas para mim mesmo on 11/09/2011 at 16:06

Há lugares em que o fracasso
é apenas meu,
em que tudo depende
só de mim,
o que eu disse,
o que eu não disse,
pelo nosso amor
eu sei,
eu não sei.

As revoluções e os cachorros,
as alianças e as armas,
as manobras, as escaramuças
ou apenas eu mesmo
e esta máquina de amar,
que tudo revela.

Inimigo imbatível,
adversário inexistente,
é impossível vencer,
é impossível falhar
é impossível.

As revoluções e os cachorros,
fonte de todas as certezas
onde se pode poupar
cada moeda.

Mas se você quiser
eu posso até latir
e abanar meu rabinho,
eu posso até matar
para ficar mais parecido
com este sonho
ou pesadelo.

Mas se você quiser
está feito:
Labrador dourado
ou General de Hitler.

Os meus direitos

In Poemas para mim mesmo on 09/09/2011 at 19:40

Eu vou fazer tudo certo
e se houver alguma recompensa no final
eu quero,
mas não por direito,
porque o que se pode exigir da vida
é apenas esse passo
do Sul ao nada.

Manter a crítica

In Poemas para mim mesmo on 09/09/2011 at 19:11

Eu faço drama e a vida
nem sempre responde.

Os dias pesam muito,
mas nem tanto.

A respiração,
me falta o ar,
mas ele volta.

Ninguém me ouça,
mas não está
tão ruim assim.

O mundo não anda
tão mal assim.

Mas o meu sorriso
eu escondo.

Pois é preciso
manter a crítica.

E ela não ri,
só riem dela
a bobona.

A menina morta

In Poemas para mim mesmo on 09/09/2011 at 18:20

Não faz a menor falta ter com quem
conversar nesta quarta-feira de trabalho
sem pausa, sem a obrigação de dizer
qualquer coisa ou o dever de estar
alerta para os problemas alheios
e para dilemas morais insolúveis
que eu ouço e indico,
como se faz com esta porta aberta,
de tanto viver assim sem nódoa e
sem acúmulo.

Pois eu contribuo para o lar das crianças
com câncer, eu ajudo todos os mendigos
que cruzam o meu caminho e dou orientações
gratuitas para o contínuo que se atrapalhou
com as compras a juros nas casas Bahia e
eu só ando de bicicleta, eu reciclo todo o
meu lixo, perecível, não perecível, eu adubo
as plantas orgânicas que eu mesmo como,
tão amiga dos animais, eu não produzo
praticamente quase nenhum resíduo, eu
aprendi a ser leve e quando eu passo, sempre
que um vento branco me assopra e me leva,
assim tão magra e tão esguia, eu me espanto
que você me pergunte sobre meu destino,
que você me pergunte sobre minha vida,
muito mais do que um centímetro.

O fluxo ininterrupto de tanto acúmulo,
os anos desta vida que eu vou inventando
ao lembrar que tudo muda e que tudo passa,
até mesmo você e seu direito de saber
o que eu penso,
fundado neste suposto amor
que também não se pode levar,
como essas nuvens que se riem de nós,
lavados por mais uma chuva.

Porque meu corpo esta aqui e ele é seu,
mas o que a alma não alcança
o paradeiro inacessível bem no alto,
onde se põe este Sol de tantos dias,
pois eu mesma,
eu já estou no céu.

Sonhei com você!

In Poemas para mim mesmo on 04/09/2011 at 3:23

Sonhei que fazia um bate e volta
para São Paulo
só para te ver
porque você andava tão triste…

E no meio do sonho acontecia
uma crise nos celulares
e víamos do alto do seu prédio
que São Paulo inteira estava em chamas!

Lá pelas tantas observei que você era negro!
E pensei: nunca havia notado
que você era negro!

Saudades…