José Rodrigo Rodriguez

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Cultura de massa, socialismo e vulgaridade (fragmento)

In Aforismas e fragmentos on 28/08/2011 at 17:59

A formação do assim chamado “grande público” a par do desenvolvimento dos meios de comunicação de massa não é apenas um reflexo do avanço tecnológico. Todos nós precisamos do conforto ou do desconforto de idéias e sentimentos que carreguem em si a promessa de permanecerem intactos por mais do que alguns segundos. Há um limite para mudar de posição, há um limite para o incômodo da incerteza, há um limite para se lidar com tanta fragmentação e tanta diversidade política e cultural. Mas será mesmo?

Fazer sucesso é entregar conforto para apaziguar ou indignar, mas sempre da mesma maneira. Grandes diretores de cinema, grandes intelectuais de esquerda e de direita, grandes animadores de auditório: todos têm em comum a preocupação com o bem estar de seu público, seja para fazer uma piada de português, indicar os caminhos para a luta revolucionária ou construir uma história de amor. O sucesso se faz contra a dúvida, seu inimigo mais feroz.

Mas falar para o grande público, ter acesso a milhares de lares e de cérebros, ter meios para influenciar milhões e milhões de pessoas não pode ser um fato positivo no fim das contas? Ao invés de frases vazias, idéias complexas e inteligentes, ao invés de vulgaridade, problemas complexos e relevantes, ao invés de entretenimento, arte e cultura.

O projeto socialista é educar as massas ou fazer com que elas pensem com suas próprias cabeças? É lutar para manter o controle dos meios de comunicação ou expandir o acesso a idéias e pontos de vista? Padronizar as referências ou acolher o humano em toda a sua diversidade, mantendo espaço inclusive para piadas de português, frases vazias e para a vulgaridade que, olhada mais de perto, pode ser apenas mais um marcador de classe?

O sucesso de público e crítica e qualquer forma de hegemonia no campo da arte e das idéias não devem ser combatida como se combate a formação de grandes conglomerados empresariais com tendências monopolistas?

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Risco e responsabilidade

In Poemas para mim mesmo on 28/08/2011 at 16:14

São milhões de aliados no combate à fome mundial
e hordas de militantes pela construção do socialismo moreno
mais centenas de associados em escritórios de marcas e patentes,
interessados em aplicar bilhões de dólares no desenvolvimento
de novas tecnologias para a produção de energia limpa
e novos produtos farmacêuticos,
remédios para todos os males.

Projetos, riscos e responsabilidades
as pessoas não têm medo dos ônus
e das tarefas que consomem uma vida,
os 12 trabalhos de Hécules,
heróis da ciência, das finanças,
da medicina, do esporte, do direito,
mas quando chega o fim do dia
e as luzes vão baixando de tom
para essa cor de prata suja,
o que pode fazer o meu tempo passar
sem o sentido pânico da urgência?

Será que eu vou morrer hoje?
Será que eu mereço?
Porque o dia se estende e o Sol retardando,
caminha entre campos e espaços?

O que pode tornar esta hora mais suave?
Um projeto, um manifesto,
um plano de negócios, você?
Quem se responsabiliza?

Assinatura

In Poemas para mim mesmo on 25/08/2011 at 17:31

José R. ↔ Josefa R.
Rodriguez

para Judith Butler

MINHA ENTREVISTA> RádioUSP> AudioPapo:19/08

In Aforismas e fragmentos on 22/08/2011 at 16:35

CLIQUE AQUI e ouça

[eu falo nos blocos 1, 2 (começo) e 4]

Professor universitário, pesquisador do Cebrap, editor da revista Direito GV e poeta, José Rodrigo Rodriguez apresenta suas utopias. “Temos que achar meios mais humanos e mais adequados para organizar as instituições”, reflete.

“O direito, normalmente, pensa para trás, com as instituições postas. É um espaço de tradição”, constata Rodriguez. “Estou tentando ser um jurista, nesta minha atuação, que tenta pensar para frente. Quer dizer, a partir de uma ideia de imaginação institucional, de como podemos melhorar e construir instituições melhores.”

“É uma intuição que eu chamo de anarquista”, reforça o pesquisador acadêmico.

(texto do site do programa Audiopapo)

A fuga

In Poemas para mim mesmo on 18/08/2011 at 3:44

Você não precisa de mim
para nada,
sempre haverá vento e folhas,
frutos pendentes ao longo
da estrada de mil pernas
como centopéia cega,
cujo farol é seu senso.

Você não precisa de mim
para nada,
eu espero você sair
para derramar a primeira lágrima.

Nada demais, logo passa
e se não passar
eu prometo:
vento dentes de aço
pele riscada que arde
onde se veja sem volta,
antes que eu te reconheça.

Pois é preciso partir rápido
e fugir dos cães de caça,
evitar a captura
de um nome ou
de tanto amor:
fica muda e me chupa
eu gosto, você gosta.

Hiper-paulistanos (fragmento)

In Aforismas e fragmentos on 17/08/2011 at 17:38

Há diversas maneiras de ser paulistano, a melhor delas, provavelmente, é vir de fora daqui. Como qualquer outro grande centro, a cidade é um refúgio para os deslocados em seus locais de origem. Gente interessada em pensar demais, em ganhar dinheiro demais, em transar demais ou que estava simplesmente cansada de ver as coisas permanecerem como ainda estão no lugar em que nasceram.

Deve ser incrível viver em uma cidade de sonho, um lugar espinhoso, difícil, mas que pode finalmente compreender você e realizar todos os seus desejos. Deve ser incrível também ter um lugar para onde se possa voltar e contar tudo o que se fez, um ponto de partida para servir de referência para a sua evolução na vida.

Gosto de ouvir as pessoas falando da minha cidade em um tom grandiloqüente e cheio de esperanças, movidas pela paixão de uma idéia, mesmo que mesquinha e venal. Gosto de ver como elas vão se integrando à vida cotidiana, como vão encontrando seu espaço, como conseguem se firmar em seu trabalho, mesmo sem conhecer muita gente. Gosto de ver também como essas pessoas, muitas vezes, amplificam os defeitos e qualidades de seu novo meio para se tornarem uma espécie de hiper-paulistanos.

Porque o menino ou a menina com a conversa e a roupa mais modernas da balada, o empresário ou a empresária mais rica e mais  perua (ou playboy) dos jardins,  o  intelectual ou a intelectual mais dedicada aos gênios municipais, o paulistano ou a paulistana que ventila os maiores preconceito contra os nordestinos e tem raiva da suposta falta de ética no trabalho do restante do país, não raro, nasceu bem longe daqui.

Sua paixão por aquilo que ele (ou ela) é e por aquilo que ele (ou ela) representa deriva de sua hiper-integração a uma cidade conquistada a duras penas, mas em relação à qual muita gente que nasceu aqui sente um profundo enfado e às vezes nojo, tão pura e simplesmente. Mas para essas pessoas de pouco entusiasmo, entre as quais eu me incluo, nada melhor do que poder aprender a ser paulistano com quem realmente entende do assunto. Afinal, nem sempre os sonhos e os estrangeiros são arautos de mudanças.

Spirit / Espírito

In Poemas para mim mesmo on 16/08/2011 at 19:50

Spirit

to John, Deidra and Zoe

Friends so far away feel so close
as a a sign in my skin from the light that irradiates
the Sun of a few words that opened for good
the ears and the chest
for a common world
that neither the strongest winds
nor the most frightening flood
nor madness, nor sleep, nor death
could ever bend.

From here, so far away
I can hear your breath.

__________________________________

Espírito

para John, Deidra and Zoe

Amigos distantes sente-se perto
como a pele marcada pela idéia que irradia
o Sol de algumas palavras que abriram por bem
os ouvidos e o peito
para um mundo em comum
que nem o vento mais forte
a enchente mais terrível,
a loucura, o sono ou a morte,
será capaz de dobrar.

Aqui, de tão longe,
eu ouço você respirar.

Mania de saber

In Poemas para mim mesmo on 15/08/2011 at 4:33

O hábito de saber não é humano,
mas divino.
Heráclito

É na poesia que eu desaprendo
a contar, a soletrar,
fantasmas recidivos,
mensagens de além-túmulo,
escrita ditada pelo capeta.

Mas quando a noite se organiza
com suas luzes que se acendem
uma a uma
e eu estou andando pela rua,
ou eu estou girando no palco
ou eu estou vagando na sala
ou na cozinha fria em que eu entro
para comer rabanetes ou para tomar
café com leite e ovos quentes.

Ou quando eu sonho ou quando
eu tremo ou quando eu caio,
é na poesia que eu realmente fico,
homem de lata, boneco de madeira,
despacho de macumba ou santo milagreiro.

É na poesia que eu finalmente me calo.

Tropical

In Poemas para mim mesmo on 15/08/2011 at 2:57

Chovia como se fosse a última vez,
mas a memória vai falhar,
as cores vão ficar
como trocadas, talvez um dia
antes do outro,
cronologia mais que perfeita,
desta palavra que se diz
há muito tempo,
mas que não se repete
e não ecoa e não é como um ditado
sempre vivo e indecifrável
em seu retorno.

A chuva desta memória anêmica
é como se estivesse presente
sem cansar,
mas sempre tátil, pertinente,
lágrima clara por todos os poros,
um Trópico atrás ou adiante,
as casas passando tão depressa
e a represa vazia de água
com seus muros indevassáveis,
até por isso mesmo.

Quem estava de pé e quem caiu
aos pés daqueles postes elétricos
com fios de cobre ou batentes de alumínio,
a luz sem calor de uma lâmpada a gás
e sua voz excessivamente branca,
até por isso mesmo.

A inveja do pênis

In Poemas para mim mesmo on 14/08/2011 at 22:27

Cabeça de chave, capitã do time,
destaque da escola de gênios,
campeã de videogame e
do campeonato do arroto,
primeiro na lista no vestibular
para medicina nuclear,
a primeira mulher a pisar
em Vênus e em Plutão,
o primeiro, a primeira Presidente
do Planeta chamado Terra e tudo isso
sem falar no tamanho descomunal do dote
ou na extensão da terra a perder de vista,
porque é preciso ficar claro agora,
já, neste minuto,
quem é que manda aqui neném, sacou?
quem tem a opinião mais abalizada,
o argumento mais potente,
o soco ou o grito,
mas tudo isso
é muito, muito cansativo:
faca na bota, pau no cu,
foda-se, foda-se
sua babaca, seu babaca,
corta essa merda fora.