José Rodrigo Rodriguez

Archive for julho \29\UTC 2011|Monthly archive page

Kamikase do amor (roquenroll para banda inexistente)

In Letras para artistas inexistentes on 29/07/2011 at 11:23

Bastou chegar a pizza
Paixão pelo entregador
Sem medo do horror
Kamikase do amor
Kamikase do amor

Foi comprar meia e calcinha
Caiu pelo vendedor
Sem medo da dor
Kamikase do amor
Kamikade do amor

Nem bem cinco minutos
Começou o enxoval
Nem bem cinco minutos
Eu te amo Juvenal.

Falou oi está casando
Novo ou velho de andador
Kamikase do amor
Kamikase do amor

Sem medo da vida
Sem medo do horror
Kamikase do amor
Kamikase do amor

Falando com telemarketing
Encontrou o maridão
Vida toda emoção
Kamikase do amor
Kamikase do amor.

Casamento sexta-feira
Divórcio no sabadão
Vida toda coração
Kamikase do amor
Kamikase do amor.

Sem medo da vida
Sem medo do horror
Kamikase do amor
Kamikase do amor

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Caderno de esboços do aluno de artes decorativas

In Poemas para mim mesmo on 29/07/2011 at 4:16

Eu deveria ter sido um pintor
de flores, cavalos e frutas,
um artista que as tias
soubessem reconhecer,
um talento que os primos
soubessem apreciar
e na parede da sala
de todas as casas quitadas,
espalhar imagens de um conforto
que ninguém conhecerá de fato,
pois mesmo as flores de plástico pintadas
de uma tela decorativa qualquer,
têm cheiro de medo e pânico,
exatamente pelo que elas negam:
o dom amargo de alegrar e elevar
a apenas alguns centímetros do chão
para que a queda não seja fatal,
para que a vida, um pouco assim,
uma fagulha, um fogo fátuo,
tão quase pouco, tão quase nada,
flores de medo, cavalos cegos,
maçã no escuro.

Narinas plásticas

In Poemas para mim mesmo on 29/07/2011 at 3:54

Já é sabido
uma viagem nem sempre é uma promessa
de aprendizado e experiências incríveis
é preciso dourar a pílula e alguns cálices a mais,
é preciso aumentar um pouco e mentir outro tanto,
quem sabe riscar os braços com uma faca afiada,
quem sabe tirar fotos com estranhos de aspecto
convincentemente exótico em sua crueza autêntica,
quem sabe recolher tíquetes jogados na calçada.

Já é sabido
às vezes se está simplesmente fugindo,
às vezes se está simplesmente sozinho,
sangrando, roendo os próprios dentes,
não me procure, não ligue, não se importe,
uma viagem nem sempre é uma promessa
de dias melhores, um sorriso e saudades,
na ida ou na volta.

Palco suspenso,
abrem-se as cortinas,
câmera, dança,
ânimo, álea,
lânguida, luzes,
é meu dever
sorrir no escuro:
narinas plásticas.

Intervenções afetivas sobre textos alheios (ou “espalhando o AMOR / spreading the LOVE”) 4

In Poemas para mim mesmo on 25/07/2011 at 20:20

A sua [de Walter Benjamin] solidariedade com o Instituto, com a qual ninguém pode se alegrar mais do que eu, levou-o a pagar ao marxismo tributos que fazem jus ao Sr. e ao marxismo. Fazem ao marxismo, porque a mediação através do processo social global passa a poder ser formulada de diversas maneiras e, assim, torna-se possível confrontar os aspectos arcaicos de nossa existência em seu próprio terreno tendo como horizonte sua integração a uma visão ampliada da emancipação humana, ou seja, abrindo espaço para modelos críticos capazes chegar a lugares aos quais a construção teórica só poderá chegar no momento em que a sociedade se encontrar completamente emancipada.  Eu mesmo tenho desenvolvido minha atividade crítica, diga-se, utilizando estratégias textuais compatíveis com a sua visão da Teoria Crítica da Sociedade.  Assim, tais tributos fazem jus ao Sr. em sua substância peculiar, na medida em que o Sr. fecundou, portanto, seus mais argutos e frutíferos pensamentos com as categorias materialistas (que não coincidem de forma alguma com as marxistas). Reitero minha profunda admiração pelo seu trabalho e informo que irei recomendar a publicação de seu texto e sugerir ao Instituto a concessão imediata de uma bolsa para que o Sr. possa completá-lo o mais rápido possível.

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“A sua [de Walter Benjamin] solidariedade com o Instituto, com a qual ninguém pode se alegrar mais do que eu, levou-o a pagar ao marxismo tributos que não fazem jus nem ao Sr. nem ao marxismo. Não o fazem ao marxismo, porque a mediação através do processo social global é deixada de lado e à enumeração material é atribuído supersticiosamente um poder de iluminação que nunca foi propriedade da referência pragmática, mas somente da construção teórica. Não ao Sr. em sua substância peculiar, na medida em que o Sr. se proibiu os seus mais argutos e frutíferos pensamentos por um tipo de censura prévia segundo categorias materialistas (que não coincidem de forma alguma com as marxistas)”.

 Carta de Adorno a Benjamin, Novembro de 1938.

Intervenções afetivas sobre textos alheios (ou “espalhando o AMOR / spreading the LOVE”) 3

In Poemas para mim mesmo on 24/07/2011 at 22:26

…visto que, conhecendo a Deus, lhe renderam todas as homenagens… além disso… tornaram-se sublimes… receberam a glória do Deus incorruptível em suas imagens mais belas que em nada lembravam pássaros, quadrúpedes, répteis… e por este motivo, Deus os entregou a paixões insidiosas: as suas mulheres mudaram o uso physiken (natural, usual comum) em outro uso que é para physin (não natural, fora do comum, inusitado) para a delícia dos corpos na troca de papéis na tensão dos prazeres extremos. Do mesmo modo, também os homens, deixando o uso physiken da mulher, abrasaram-se em desejos nobres praticando uns com os outros atos tão delicados, experimentando em si mesmos prazeres devidos ao seu elevado desregramento.

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“…visto que, conhecendo a Deus, não lhe renderam nem a glória… pelo contrário… tornaram-se estultos… trocaram a glória do Deus incorruptível por imagens que representam o Deus corruptível, pássaros, quadrúpedes, répteis… por este motivo, Deus os entregou a paixões infames: as suas mulheres mudaram o uso physiken (natural, usual comum) em outro uso que é para physin (não natural, fora do comum, inusitado). Do mesmo modo também os homens, deixando o uso physiken da mulher, abrasaram-se em desejos, praticando uns com os outros o que é indecoroso e recebendo em si mesmos a paga que era devida ao seu desregramento”

São Paulo, Carta aos Romanos, 1:18-32

Intervenções afetivas sobre textos alheios (ou “espalhando o AMOR / spreading the LOVE”) 2

In Poemas para mim mesmo on 24/07/2011 at 18:12

“Espanhas do Cambuci”

Não basta o sopro do tempo
Nas vendas quase desertas,
O lamento do século oculto
Nos pátios do Cambuci.

Trago-te um canto rugoso,
O chorinho consciente
Da palavra à outra página
Que fundaste sem temor.

O lamento redivivo
Sem conserto ou revisão:
Diverso do ritmo antigo,
Une a aridez ao fervor,

Recordando que soubeste
Confrontar-se neste bairro
Vinda no braço certeiro
Da guitarra silenciosa
Soar no lavapés de sonho

Memória de espanhóis
Postiços: da cor do mito
Criado como farsa humana
Em que sonho e realidade
Com os pais em contraponto.

Consolo-me da tua morte.
O que ela elucidou
Tua linguagem lembrada
Onde el duende é sabotado
Pelo fel da inteligência,
Onde a Espanha é criada
Em número, peso e medida
Quase tudo, quase nada.

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“Canto a García Lorca” de Murilo Mendes

Não basta o sopro do vento
Nas oliveiras desertas,
O lamento de água oculta
Nos pátios da Andaluzia.

Trago-te o canto poroso,
O lamento consciente
Da palavra à outra palavra
Que fundaste com rigor.

O lamento substantivo
Sem ponto de exclamação:
Diverso do rito antigo,
Une a aridez ao fervor,

Recordando que soubeste
Defrontar a morte seca
Vinda no gume certeiro
Da espada silenciosa
Fazendo irromper o jacto

De vermelho: cor do mito
Criado com a força humana
Em que sonho e realidade
Ajustam seu contraponto.

Consolo-me da tua morte.
Que ela nos elucidou
Tua linguagem corporal
Onde el duende é alimentado
Pelo sal da inteligência,
Onde Espanha é calculada
Em número, peso e medida.

Intervenções afetivas sobre textos alheios (ou “espalhando o AMOR / spreading the LOVE”) 1

In Poemas para mim mesmo on 24/07/2011 at 17:42

“Como seria possível falarmos em “uma idéia moderna de literatura”, quando o próprio repertório reunido [em meu livro] aponta para tantos matizes? Eu diria que, se vale a imagem, sendo diversos os matizes, a cor é uma só: a convergência está no fato de que, se para os antigos e neoclássicos os discursos escritos resultavam da aplicação de uma arte, entendida, a exemplo de tantos ofícios, como exercício de certa política ou habilidade possível de ensino e aprendizagem, para a modernidade a questão é bem outra. Constituem “literatura” apenas certa parcela dos recursos políticos – basicamente as ficções, de cunho lírico, narrativo ou dramático – resultante não da contínua reciclagem de materiais rejeitados ou de resíduos da interação social fracassada, mas da criatividade subjetiva e particular de cada coletividade, captada na forma individual da obra materializada, parcela por isso vocacionada muito mais para subversões ou rupturas na reiteração criativa da ordem tradicional, do que para constituir-se como literatura, ou seja, em texto escrito como que apartado de tudo.”

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“Como seria possível falarmos em “uma idéia moderna de literatura”, quando o próprio repertório reunido aponta para tantos matizes? Eu diria que, se vale a imagem, sendo diversos os matizes, a cor é uma só: a convergência está no fato de que, se para os antigos e neoclássicos os discursos escritos resultavam da aplicação de uma arte, entendida, a exemplo de tantos ofícios, como exercício de certa perícia ou habilidade possível de ensino e aprendizagem, para a modernidade a questão é bem outra. Constituem “literatura” apenas certa parcela dos discursos escritos – basicamente as ficções, de cunho lírico, narrativo ou dramático – resultante não da contínua reciclagem de materiais coletivos, mas da criatividade subjetiva e particular de cada indivíduo, parcela por isso vocacionada muito mais para subversões ou rupturas do que para a reiteração da ordem tradicional estabelecida.

(Roberto Acízelo de Souza em entrevista a Miguel Conde, O Globo, Caderno Prosa & Verso, p. 1, 23 de Julho de 2011)

Fragmento Dramático II (para Adriano Stuart)

In Poemas para mim mesmo on 24/07/2011 at 15:27

Vítima de um crime
ou paciente de câncer
eu agradeço pela febre
que não passa.

Mas às vezes não há mais desculpa
e é preciso viver…

Quero ver todos os assassinos à solta,
seus crimes hediondos em séries liberais
mil baldes de sangue e montanhas de piche.

Pois quanto mais liberdade melhor,
um tiro na testa,
um medo de monstro
e essa mudez necessária
que ninguém ousa recriminar
um lago tranqüilo
pulsando dentro de mim.

Mas às vezes é preciso viver
e é isso que mata.

Fragmento Dramático I (para Lilian Taublib)

In Poemas para mim mesmo on 24/07/2011 at 4:02

Como agradecimento pelo Crime Delicado

Não temos mais assunto
e as horas passando nuas
como as patas de um burro de carga
fazem o som do farol que se apaga
fazem o tempo do leite que se verte
no copo dentro da geladeira desligada
e as roupas passadas sobre a cama
e as meias enroladas na gaveta
e as tampas encaixadas nas panelas
só uma colher na pia suja.

O que você come quando me detesta?
O que você mastiga com essa boca manchada
de molho de sangue e de saliva seca?
O que você digere nessa barriga branca e flácida?
O que você espera quando eu durmo?

Mas agora fale de mim
é agora que eu quero saber
tudo aquilo que você pensa,
é agora que eu quero ver
depois da fumaça dissipada,
um dia doce, um revólver,
um fuzil,
uma tarde ordinária
que escureceu mais cedo:
a lua por misericórdia.

Porque antes tudo era mais fácil
as montanhas de palavras surpreendidas em ato
e quase sem pausa para respirar
e quase sem o descanso de uma brisa
e sopro de ciclone ou furação de aço.

Mas é agora que eu quero saber
o que fazer, o que esperar,
quando você finalmente me vê:
a parte esgarçada do vestido
na hora em que a palavra falta
no tempo em que eu não quero mais você,
mas quanto dura?
Mais quanto dure?

É agora que eu quero saber
o que você faz e o que você pensa,
o que devo temer, o que devo esperar,
como ficar e porque crer,
barco trêmulo,
navio fantasma,
a vela acesa.

Porque antes era tudo mais fácil,
mas ser capaz de me amar
cada vez mais isso,
cada vez mais tempo, cada vez mais falta,
cada vez mais sono, cada vez mais carne,
cada vez menos
olhar meu corpo com a pupila seca.

No pasto genérico

In Poemas para mim mesmo on 22/07/2011 at 12:39

Poema extraído de Foto Pintada por Gerhard Richter (Vaca, 1964)

que eu coma que eu beba que eu respire
que eu saiba andar que eu experimente
tantas emoções que eu trema de desejo
que eu aprenda sobre a cidade que eu
aprenda sobre os textos de filosofia
que eu espie pela janela que eu sinta
calor sob o sol a pino que eu cante
fora do tom que eu dance ao som
do seu gemido que eu acredite
em deus que eu tenha dinheiro
que eu sinta meus pulmões feridos
que meu sangue seja vermelho
que eu seja humano mas nem tanto
que eu possa de ignorar o medo
que eu espere pelo vento de chuva
que eu tire o pé do vão da porta
que eu fale com as plantas que eu
viva cansado e que nada me colha
como vaca como flor como frango
vagando ermo no pasto genérico
para fazer um buquê ou para pilha
de louça secando na pia ou para fazer
pão para fazer leite para fazer azeite
ou instrumento ou pincel de pelos.