José Rodrigo Rodriguez

Archive for junho \30\UTC 2011|Monthly archive page

Poesia (Macho e Fêmea)

In Poemas para mim mesmo on 30/06/2011 at 17:19

em Paul Celan é o esforço imenso que a palavra faz
para sair do vazio, apurando os ouvidos,
ouvindo o gemido baixo de tudo aquilo que está
praticamente morto

em Lorca é o silêncio do turbilhão
quando cessa de jorrar, escorrer
pelo rosto e pela língua,
a vida após o coito,
que é a vida
com cheiro de carne crua

em Wallace Stevens é o abraço de urso
que o verso dá no sentido, ele,
que se insinua, mas depois muda a
direção,
como um taxista cego pela avenida da
cidade central de toda a minha vida,
como um avô que contasse uma história
para dormir, mas de repente te atacas
se com as unhas e com os dentes que pudes
se, e com passos de gato

como em Mário Faustino que é
linguagem inaugural, como Deus,
cuja escolha sempre foi o negativo,
o duro, o surdo, o denso,
o grito sob o gelo

como em Pasolini quando se achava que
tudo andava bem,
antes do espinho cravado no rosto,
voando como sêmem explode,
nascido no dia anterior

quando a minha sede era ainda maior
e o poema não era mais necessário

mas hoje ele é

e o mundo que ele recorta
também entra no verso
para me devolver
a vida vestida de noiva,
macho e fêmea,
o pão e o vinho servidos
nessa urgência de um beijo
de um toque, de um esgar,
ainda no meu tempo.

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Lembrança da Peruada (mas que poderia passar por um dignóstico do capitalismo contemporâneo panfletário, simplista e de senso comum)

In Poemas para mim mesmo on 30/06/2011 at 14:09

Minima moralia,
máxima canalha.

A música implica a carne

In Poemas para mim mesmo on 30/06/2011 at 13:29

A música implica a carne,
como faz o poema:
quem vibra e toca
a sala com os presentes,
por dentro, por fora

nota que penetra,
verso que explode,
ele vindo de dentro,
enquanto ela entra
com sua ponta,
no silêncio que ele quebra,
no silêncio que ela engole
no silêncio que ele fala

e o poema respira carne
na dimensão natural,
e faz a carne soprar,
como a música também faria
se ela brotasse do fígado

como corpo difrata alma
quando ele a suga sem medo
do monstro parte da letra,
aquele que nunca se diz

porque alguma coisa vai falar
e pode não ser o som
que se espera desse sino,
o sino pode gritar
usando voz de gente.

Começando a Revolução com o Pé Esquerdo (ou “Na Prática a Teoria é Outra”)

In Poemas para mim mesmo on 29/06/2011 at 3:13

“All we need is love! Morte aos insensíveis!”

Fazer a História

In Poemas para mim mesmo on 29/06/2011 at 1:37

Eu me afasto, mas
é o século chamando,
é uma era que começa
passando, zunindo,
zanzando, é superlegal
quando a História escolhe
nos pegar de calça curta
e há quem saiba sempre
onde ela é que ela
passa, quando é que
ela vem, ainda hoje,
História das Bestas,
História das Idéias,
História Universal
Sem Sal, História
Superlegal da
América Seten
trional, pois sem
História tem gente
que não fica, sem
História é povo que
não se aceita, passan
do, zunindo, é superlegal
quando a História vem
em formato de trem,
o trem da História,
de meia em meia
hora, comendo Doritos:
espero o próximo
momento histórico,
espero o próximo e
é superlegal
fazer a Hisória,
comendo Doritos:
História dos
Confeitos,
História do
Cheetos.

O fetichismo da mercadoria vai acabar, seu Valdemar!

In Poemas para mim mesmo on 29/06/2011 at 0:33

As flores plantadas no fuzil, pois
em troca de dinheiro ela nunca,
em troca do salário ele não
no tempo que se equivale:
o tempo já não circula
cravado nos pés e pernas,
no couro de cada cabeça,
um minuto, um cento,
as nove metades, a eterna
primeira hora de vinte
e três centímetros
nas bordas da pele
elástica, parada no
limite.

O segundo passado
na extensão da nota,
o segundo esticado
por baixo da terra,
este tempo que atra
palha a conta que se
faz nos dedos, idade
que não se compara
pois só assim será
possível qualquer
conversa: a trans
posição deste hiato.

Heterogêneo tempo
plural, nunca aos
pedaços, a parte
nua que se com
para uma por
vez, um por
segundo,
um ato,
um ato,
depois
d’outro
ato.

Eu também não faço pôsteres

In Poemas para mim mesmo on 28/06/2011 at 0:45

A primeira coisa que se vê
é o sangue espirrando
parado no ar,
os estilhaços muito
bem na foto deste
arremedo feito
para virar pôster,
porque não há
conseqüências e
não há perigo
e tudo fica impune,
o perfil recortado
na sombra de um
Sol coreografado
que quase não queima,
nada se arrisca,
tudo se conforma
se mostra
se empacota
se vende:
se rende

mas Ângelo Venosa está sempre disposto a atravessar um espinho
na garganta e a cravar uma unha na retina e a rasgar a carne
da palavra com os dentes e a fazer um sulco na parede branca
onde escorre a seiva de alguma coisa viva na parte estéril
do cimento, alguma coisa
brotando ali, uma beleza
adequada para a luz
tragada no concreto,
para a luz que o bran
com me devolve e
que te procura
como faca
para cortar até o osso,
que te procura
como seta
para furar até o olho,
esta luz branca
que te busca
lá no canto da sala
como o cão que não
vai deixar ninguém
sem sangrar com den
tes de silvo e gume

mas eu também não faço pôsteres
eu também mastigo vidro
eu também engasgo e pasmo,
vomito e cuspo,
vermelho e cravo

pois é melhor vender o cu
do que facilitar a arte

eu não sou uma pessoa
agradável.

Tarefas da semana

In Poemas para mim mesmo on 27/06/2011 at 1:40

Comprar lâmpadas.
Afinar a cítara.
Benzer a samambaia.
Ler a Crítica da Razão Pura.
Castrar o gato.

Um bilhetinho para Descartes

In Poemas para mim mesmo on 27/06/2011 at 1:22

Dividir a língua
em dois
para falar
consigo mesmo
como se fosse um
estrangeiro,
na mesma língua e
na mesma idéia de
país, dois idiomas
que traduzissem um
e outro, a mesma
linha do tempo,
sem dar um salto,
sem precisar da
memória para
dizer o que
se pensa, em
especial,
o que se
ama e se
move sem
reflexão,
nessa lín
gua par
tida, seu
lote no
condomí
nio lá
dentro
da alma:

“Eu penso,
eu sou”

Da substância

In Poemas para mim mesmo on 27/06/2011 at 0:54

O caule seco,
mas o deserto,
fábrica de cal,
arde por dentro.

Faz Sol, mas
é o de menos:
entrega ácida.

Às vezes coincidem
o tempo, o desejo,
mas não se deve
confiar.

O tempo é a calha invertida
que seca a terra e espalha
fagulhas pela sala de estar.

E não se deve confiar:
na substância.

Fábrica de vidro
pétala que sobra
o caule seco
a vida cobra.