José Rodrigo Rodriguez

Uma vasta coleção de silêncios

In Poemas para mim mesmo on 19/02/2011 at 20:57

Eu venho acumulando ao longo dos anos
uma vasta coleção de silêncios
feita de dor, saliva e deriva
nos espaços entre os dentes,
brancos de página e hiatos,
entre linhas de cor branca,
bege, amarelo e baunilha.

Mas a palavra quando fica presa
onça faminta quando toca,
mas a palavra quando fica cega
faca represa quando corta,
mas a palavra quando fica fria
brasa dormida quando molha
mas a palavra quando fica surda
na boca murcha quando morta.

Os destroços de um trans
atlântico, ferro torcido com
borracha, marcas de tiro e de
chiclete, postes molhados, mijo
e bosta, tampas abertas de bueiro,
copos grudentos de cerveja, mesas
cobertas de fuligem, camas vermelhas
de segredo.

E a palavra quando fica suja
pernas abertas quando toca,
e a palavra quando fica magra
boca calada quando cobra,
e a palavra quando fica seca
rio tramado quando corda,
e a palavra quando fica bela
raiva sentida quando morta.

Eu venho acumulando ao longo dos anos
uma vasta coleção de silêncios
feita de dor, saliva e deriva
feita de mar, de sangue e cortiça
feita de medo.

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