José Rodrigo Rodriguez

Fernando Pessoa e o conformismo (fragmento)

In Aforismas e fragmentos on 06/02/2011 at 17:02

A decisão de Fernando Pessoa de criar heterônomos ao invés de assinar todos os poemas com seu nome torna sua obra menos interessante para pensar o sentido de nossos dias. Sua escolha hoje soaria covarde e conformista.

Quantos personagens seriam necessários para lidar com a existência de um homem ou de uma mulher comuns em uma grande cidade contemporânea? Em sua época, a novidade do fenômeno talvez tenha levado a esta solução defensiva que visava explicitá-lo. Hoje em dia não é preciso denunciar mais nada. Os personagens são criados cinicamente, quase sem hesitação.

Fragmentar-se é uma solução cômoda que dilui a responsabilidade e a autonomia dos vários “eus” em conflito. Resistir à opressão é tentar manter todas essas faces sob o mesmo nome e sem fraquejar, suportando a tensão até o limite.

Sem permitir-se dizer, ou suportar que se diga, que a culpa pela falta de caráter é do excesso de trabalho e que a culpa pelo excesso de trabalho é o amor pela mulher e pelos filhos. Segurança em troca de afeto em troca de penúria moral.

Só assim será possível pensar um horizonte de alívio sem criar compensações poéticas para a ameaça de cisão que assombra o eu. Porque tal ameaça é uma das faces do capitalismo não devemos legitimá-la de nenhuma forma.

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