José Rodrigo Rodriguez

Consulta

In Poemas para mim mesmo on 03/02/2011 at 1:48

pousados anos na planície
um labirinto de vozes espreita
um crepúsculo
de risos, canções, pedras
terra, capim
os olhos
fixos nos pés
e corpo como esquecido

sus
penso

em
guarda

desfiando sua camisa com unhas
de ferro.

anos perfilados sobre o fio de luz
uma névoa densa de eucalipto e vento
(a velocidade da paisagem que escapa)
janelas abertas, atrás de salas
repletas
rindo, cantando, falando, alto,
a palavra desvia os olhos
num esgar partido.

o outono afaga cães caídos
vigiando nossa obra póstuma
e você
sem hesitação
me pergunta
sem mais
pelas idades
todas
e indaga o que foi feito do eleito
pergunta pela carne
sem o sopro
alimento na busca
da oração de minha vida exata:
“Pai nosso, chocado no estrume de cavalo,
nascido dum ovo de prata,
rogai por nós, pecadores…”

pergunta e pergunta pela Virgem.

escuto o que posso
com calma
escuto
com a calma que posso,
pergunta pela palavra engolida
e minha gagueira inconsútil
responde com monossílabos
vermelhos
e algumas frases feitas
com que vou enfeitando
a fila interminável dos dias
que me acusam:

“Você é um morto!”

minha florzinha de cuspe abre as pétalas
para entender a réstia de Sol
espalha seu asco sobre a Palavra
e repousa por um momento
plácida
como tuas flores de um triz
agarrando o cimento aborto
a elevar-se acima da guia.

você pergunta sobre a morte
e Deus
sobre
a palavra, sempre a palavra, sempre
construindo os anos que ameaçam ataque,
desviando os olhos do horizonte vazio,
esquivando-se dos assaltos da vida
incansável.

que posso dizer?
a amplidão destes espaços vazios
também me apavora, o poder
de dizer o futuro, aleijão,
essa voz como muleta
não a canção das harmonias celestes,
mas essa voz de dores banais,
problemas banais, queixas
banais, velocidade
que a cada passo destrói o moto-perpétuo, esta
mulher
que sugará meu pênis eternamente
esquecida do cansaço, da peste, da desgraça,
mastigando, engolindo meu pênis
sem olhar a janela aberta que espalha as perdas
pela sala, irremediável, nítidas
ferindo os olhos como agulhas quentes.

a idéia deste gesto
agora, esta mão
que se levanta
(olha!)
e toca
teu ombro tenso
esta mão
viva
(olha!)
esta mão aberta
que afaga o irmão caído
a palavra
(olha!)
que acompanha a mão
e aquece a memória

este parto
da mão estendida
(olha!)
é que alimenta
minha vida
seiva e cuspe
Deus de estrume
a palavra triste
mas que ainda é fala
pois talvez viver
não seja impune,
mas viver
e não fugir por campos abertos de puro
delírio

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