José Rodrigo Rodriguez

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As ruínas de Tróia

In Poemas para mim mesmo on 25/02/2011 at 12:12

Um olho, um olhar
língua de pano,
gesto esticado que
se contrai em cacos

minha Tróia de mil anos
arranha-céu, farol,
pirâmide, ponte sobre
o Atlântico, à altura
de sua lenda.

Mas quem
senão eu
pode de
fato ver?

Tróia de cacos equívocos,
amor cidade mente.

Leitor de espaços vazios

In Poemas para mim mesmo on 23/02/2011 at 18:54

Manter a dicção
clara
quando o pensamento
se esfuma
e o dia que ardia
em sóis
escurece ou
se inverte
em frio
pele de cobra
em quente
sangue de gato
em noite.

Pensar é coisa
que se faz
a qualquer luz
com lâmpada
lua ou chama
com som
morcego telepata
silêncio
mosca renitente
com tempo
corpo de saber
silêncio.

Pois eu nunca
escondo nada
nesta palavra
que se entende
na dicção
em claro escuro.

Leitor
de espaços vazios
eu sei de tudo.

Vivo ou morto

In Poemas para mim mesmo on 21/02/2011 at 3:03

Bastaria uma palavra
para o mundo desabar.

Mas não era exatamente
de uma palavra que se
tratava ou de um falar
e de um tratar o som de
um sem sentido que se
interpretaria.

Era mais como um sino
que marcava o fim do dia.

Lua e Sol,
semear e esperar a colheita,
a palavra que separa tudo e nada,
a palavra mais que dita,
a palavra sem som,
apenas corpo ou um fantasma
parado ali
pelo tempo que for preciso,
sem um intervalo
para falar com
os amigos.

Pois no limite
tudo sempre
se aguarda
ou vivo
ou morto:
mas eu procuro
o que poderia estar
no meio.

Numa fração de ser
sem sentido.

A estrangeira

In Poemas para mim mesmo on 21/02/2011 at 2:30

Na vida que a história conta
eu me lembro de você.

Nesta cidade, aqui,
neste recinto, aqui,
neste limite,
o que você se chama
me escapa,
e a vida conta.

Não foi por querer,
mas por medo,
é o que a história
conta.

E o que ficou,
o que se revela
o que é registro
o que se move,
o que se elabora
ou se envolve e
se diz e se diz e
se diz,
você
transborda.

Uma vasta coleção de silêncios

In Poemas para mim mesmo on 19/02/2011 at 20:57

Eu venho acumulando ao longo dos anos
uma vasta coleção de silêncios
feita de dor, saliva e deriva
nos espaços entre os dentes,
brancos de página e hiatos,
entre linhas de cor branca,
bege, amarelo e baunilha.

Mas a palavra quando fica presa
onça faminta quando toca,
mas a palavra quando fica cega
faca represa quando corta,
mas a palavra quando fica fria
brasa dormida quando molha
mas a palavra quando fica surda
na boca murcha quando morta.

Os destroços de um trans
atlântico, ferro torcido com
borracha, marcas de tiro e de
chiclete, postes molhados, mijo
e bosta, tampas abertas de bueiro,
copos grudentos de cerveja, mesas
cobertas de fuligem, camas vermelhas
de segredo.

E a palavra quando fica suja
pernas abertas quando toca,
e a palavra quando fica magra
boca calada quando cobra,
e a palavra quando fica seca
rio tramado quando corda,
e a palavra quando fica bela
raiva sentida quando morta.

Eu venho acumulando ao longo dos anos
uma vasta coleção de silêncios
feita de dor, saliva e deriva
feita de mar, de sangue e cortiça
feita de medo.

Chicago

In Traduções on 19/02/2011 at 9:29

de Sufjan Stevens
(tradução José R. Rodriguez)

Eu me apaixonei de novo
Tudo passa, tudo passa.
Dirigi até Chicago
Sei de tudo, sei de tudo.
Vendemos as roupas para o estado
Eu nem ligo, eu nem ligo.
Eu cometi muitos erros
Na minha cabeça, na minha cabeça.

Você veio para nos levar.
Tudo passa, tudo passa.
E para nos recriar.
Tudo cresce, tudo cresce.
Nós tínhamos certeza
Sei de tudo, sei de tudo.
Você teve que  encontrar
Tudo passa, tudo passa.

Eu dirigi até Nova Iorque
Numa van com meu amigo.
Dormimos em estacionamentos
Eu nem ligo, eu nem ligo.
Eu me apaixonei por um lugar
Na minha cabeça, na minha cabeça.
Eu cometi muitos erros
Na minha cabeça, Na minha cabeça.

Se eu estava chorando
Numa van com meu amigo
Era por liberdade
De mim mesmo e da terra.
Eu cometi muitos erros.

Original

Versão acústica

Ao vivo no rádio

Ao vivo

Cuidar

In Poemas para mim mesmo on 14/02/2011 at 21:30

Cuidar é ouvir mais do que falar
e desconfiar das palavras:
atrás deste arbusto me espera
uma flor ou um rato?

Os dias sem pleno controle
vigia de passos em falso,
criança tentando caminhar:
“Pode ser que não aprenda?”

Pode ser que não saiba?
Pode ser que não escute?
Pode ser que se assuste?
Pode ser que se renda?

As coisas mais óbvias…

Sem estar de pleno controle
da palavra que difrata
da idéia que diverge
do medo que ameça
do tempo que revela
do espaço que observa
do céu me que protege
do diabo que te carrega.

Cuidar é o tempo resta
mas que nunca se completa,
corrente rio processo
nesta hora que me escapa
uma flor, um dente,
uma pétala, um rato.

A vanguarda do desejo

In Poemas para mim mesmo on 14/02/2011 at 16:00

Na vanguarda do desejo
o amor é uma difração
que deve ser precisa:
a regra da liberdade
é sempre a mais rígida.

Na vanguarda do desejo
o amor é certo ou é errado
e assim pode ser julgado:
a regra da liberdade
é sempre a mais pública.

Na vanguarda do desejo
o amor sempre em forma
na hora da ordem unida:
a regra da liberdade
é sempre a mais pedra.

Ninguém mais se perde,
na vanguarda do desejo,
ninguém mais se desespera,
na vanguarda desse amar
sem alarme, sem surpresa,
sem mistério, sem apara,
sempre norma, sempre exemplo,
entre corpos sem pessoas.

A regra da liberdade
é sempre a mais negra,
a regra da liberdade
é sempre a mais fria.

Os homens são todos iguais

In Poemas para mim mesmo on 14/02/2011 at 11:00

Eu ponho uma flor no seu cabelo
você sorri.

Você me conta alguma coisa
em tempo.

Você espera eu terminar de
falar.

Quando você esquece a hora
eu lembro.

“Todos os homens são todos iguais”: é dito.

“Todos os homens são todos iguais”: sentença.

“Todos os homens são todos iguais”: sem tempo.

“Todos os homens são todos iguais”: silêncio.

Você me cospe alguma coisa
engulho.

Eu ponho uma flor no seu cabelo
com medo.

Não adianta mais falar:
silêncio.

Um tango

In Poemas para mim mesmo on 12/02/2011 at 11:30

O que se escreve quando
as palavras se agitam
sobre mim, em mim,
dentro e fora,
no estômago,
na testa,
sobre as mãos
e no fígado?

As palavras como as abelhas
em enxame, em assédio,
as palavras como os pássaros
revoada de tons e de notas:
o seu canto, o seu zumbido
às vezes um sonho
às vezes medo.

Escrever e sofrer
samba e tristeza
um blues
um tango
uma canção:
o que se expressa e o que se vive
a vida, a escrita,
o tempo, o amor,
tudo ao contrário?

Um escravo da poesia,
sofrendo só para escrever
nesta impostura
em três atos?

O que se escreve quando
as palavras se calam
não é melhor:
e este silêncio
pode até mesmo
me matar.

Como se respira,
sem duração ou
intervalo;
como se pensa,
sem espaço e
sem remédio,
na metade tensa
da canção
em transição
para o acorde final

(pausa)

é como escrevo.