José Rodrigo Rodriguez

A moda como opressão de classe (fragmento)

In Aforismas e fragmentos on 25/01/2011 at 23:17

A elegância, a sofisticação é um dos mais poderosos marcadores de classe. Neste caso, a exclusão do outro ocorre ao primeiro olhar, na primeira frase, diante de qualquer “deslize” que leve a crer que determinada pessoa “não é de nossa educação”. O segredo deste marcador é a plasticidade, a capacidade de fazer alianças entre as diversas classes sociais, sem abrir mão do poder de julgar o outro.

Houve um tempo em que a elegância era medida apenas pelo preço, pela qualidade e pela exclusividade dos produtos utilizados pelos indivíduos. Depois de tanto sangue derramado nas lutas sociais sem que fosse diminuída a quantidade de pobres e miseráveis no mundo, não é de bom tom ostentar demais. Elegante é ser discreto. Por isso mesmo, hoje em dia, bem utilizada, ou seja, de acordo com as regras do opressor, uma camisa de porteiro comprada em uma loja de uniformes profissionais pode ser considerada altamente elegante.

É o “bom senso”, o “senso estético” que garante a sofisticação do visual. Mas um “bom senso” devidamente naturalizado e transformado em propriedade privada de um grupo restrito de pessoas, instaladas nos meios de comunicação de massa e em pontos estratégicos da esfera pública.

Será preciso legitimar o “look porteiro de prédio” em algum editorial de moda, em alguma “it girl” ou em um garotão modernex para que ele se torne sinônimo de elegância. A moda só faz sentido quando não existe autonomia para se definir o que é elegante e o que não é. O movimento de ir buscar “a moda que vem das ruas”, repetido de tempos em tempos pelos profissionais desse campo, dão a nítida impressão de que o acesso à elegância é democrático e plural.

No limite, ao deixar de lado roupas e acessórios e falar apenas de “atitudes” – o que permite dizer que uma pessoa “simples” é “elegante” apenas porque sabe “viver bem”, é “feliz” e “tem dignidade” – os detentores de poder simbólico reafirmam sua posição de juízes e buscam a cumplicidade das classes baixas para o exercício de seu poder de classificar, julgar e excluir. E, evidentemente, de determinar o consumo.

Anúncios
  1. genious

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: