José Rodrigo Rodriguez

A batalha mortal do grande Kant contra o grande Hegel

In Poemas para mim mesmo on 23/01/2011 at 15:58

“Todos querem alguma coisa de nós…”,
explica-me a amiga diante de meu olhar atônito,
frase certeira em meio a montanhas de papéis e
textos de cartas sem selo, “Eu certamente não estaria
com você se você não fosse bonita, meu namorado
me disse assim mesmo”, o que você não sabe, o que
eu não sei, “Tudo na vida é apenas uma troca”
evidentemente, esse foi o tom, assim, como se fosse
absolutamente óbvio, como seu eu fosse absolutamente
ingênuo, eu também, absolutamente óbvio, por isso a
surpresa não veio do que foi dito, ver a mim mesmo decifrado
ainda que em parte, esse lugar comum repetido tantas vezes,
de fato, uma obviedade, frase redundante como se percebia
pelo tom de desdém com que você me disse, a necessidade
de fazer lembrar coisas tão ditas e reditas e era preciso fazer
isso mesmo, naquele momento em especial, eu agradeço, eu
precisava ouvir enquanto contava minhas bênçãos, pois essa
é a característica central de qualquer relação humana neste
século deste país desta cidade galáxia, mesmo a relação com
Deus e com o Diabo, os santos, os orixás e deidades as mais diversas,
créditos e débitos, e vejam bem, as autoridades não me deixam mentir,
pois até mesmo o grande Kant conferiu forma contratual ao casamento,
é verdade que sob os protestos do grande Hegel que asseverou sobre a
família que ela entraria apenas em parte no direito, a outra parte restando
portanto inapelavelmente fora, mas seja como for, uma posição praticamente
vencida na história das práticas sociais, assim, entre os grandes pensadores,
o amor também foi concebido sob a forma de um raciocínio de equivalentes,
sempre foi assim e sempre será, o meu entusiasmo pela sua sabedoria, a minha
juventude pela sua profundidade, o seu sexo perverso pela minha inocência,
a minha candura pela sua violência, a sua cidade pela minha constelação de
mapas expansiva nos guias de viagem imaginários, o seu sangue fresco pelo
meu sorvete de caramelo, uma troca, depois de outra troca e de outra troca,
tudo na vida é uma troca e tudo, cada uma, para sempre ecoando para que
possamos decidir afinal, se o saldo é positivo ou negativo, se estamos no vermelho
ou no azul, se você acertou o passo certo na direção correta conforme adrede
combinado, uma coluna de prós e outra coluna de contras, razões para parar e
razões para continuar este relacionamento comercial-afetivo-sexual, por isso tudo,
tudo precisa ser dito, é preciso fazer muitas e muitas discussões sobre o relacionamento
para que as duas partes do contrato tenham clareza dos limites, do desenrolar e do
conteúdo da relação para que possam vir a renegociar os seus termos, vem daí essa
obcessão pela palavra como se ela fosse, seria capaz de revelar tudo e pôr tudo às
claras, é por esta razão que tudo precisa ser dito, todos os detalhes, a franqueza deve ser
completa, absoluta, implacável, para que não haja prejudicados no fim das contas, e
mesmo sabendo claramente de tudo isso, não pense que eu seja assim tão ingênuo,
daí nasceu minha surpresa diante da sua frase tão clara e tão verdadeira, dita de forma
certeira sobre a pilha de cartas que eu não vou mais enviar, a certeza de que talvez eu
ainda insista em sonhar com um amor em que a troca se torne absolutamente impossível
e, assim, o que eu vier a dar ou vier eventualmente a receber, no final das contas, pouco
se me dá, por isso mesmo acho que concordo é com o grande Hegel e peço que você leia
esse texto comigo, a parte sobre a família de seus Princípios da Filosofia do Direito, talvez
alguma coisa possa mudar com esta tentativa de reflexão conjunta, para usar o termo
clássico, deste processo de esclarecimento, mas afinal, de que adiantaria? O amor não é
mesmo,
completamente
cego?
Não devemos
afinal,
desconfiar da
palavra?

Para Carolina Cutrupi

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  1. Amei o texto. Sem palavras para explicar!
    Beijos.

  2. Obrigado!

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