José Rodrigo Rodriguez

Às vezes é preciso cavar um pouco mais fundo

In Poemas para mim mesmo on 19/01/2011 at 23:26

Neste momento,
em algum lugar do planeta
numa biblioteca pública
ou mesmo em casa
um garoto, uma garota
resolve ler de novo,
mas agora devagar,
um verso fácil ou difícil
escrito por um poeta cujo nome
não interessa a ninguém
esse verso qualquer, tão simplesmente
agora é o centro de seu mundo.

Esse garoto, essa garota
lendo ali mesmo em silêncio
ouve a medida em que o verso se estende
se encolhe e depois se aquieta,
a frase exata que quando e nunca
diria essa mesma coisa se
fosse simplesmente como
conversa relaxada e amena:
meu querido, minha querida,
eu posso até mesmo sentir agora
como você está dançando com ela.

Esse menino, essa menina,
cheiram o verso vibrando lá dentro
as duas notas que organizam
o que é o dentro e o que é fora
a página amarela de olhos e dedos,
também o peso do papel
e a sua candura
é algo mesmo que não interessa
a mais ninguém
nomes que ninguém sabe dizer
ouvidos porque se lê:
esse menino, essa menina
podem sentir hoje de novo
o cheiro ácido que é quando nasce
um leitor de poesia.

Esse menino, essa menina
irá virar as páginas dos livros
em busca de um som que
chega do nada
e se espalha partindo o ouvido de dentro
do tórax às orelhas no mesmo tom
porque a carne da palavra
vem sempre antes
porque a carne da palavra
costuma gemer quando se morde
quando se molha a boca e crava o dente
quando se cava um pouco mais fundo.

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