José Rodrigo Rodriguez

Sexo socialista (fragmento)

In Aforismas e fragmentos on 06/01/2011 at 15:12

Na sociedade emancipada o sexo não será dominado pela fantasia da subordinação, dizem as feministas mais radicais. Instrumentalizar o corpo do outro para transformá-lo em um objeto manipulável e destituído de vontade é abrir espaço para sua violação.

A penetração, por natureza, diz Andrea Dworkin em Intercourse, estabelece uma hierarquia. Por isso mesmo, seria imune a qualquer reforma. Pode-se concluir assim, diriam alguns, que sexo seria sinônimo de violação, mas é melhor ir mais devagar. É fácil desqualificar Dworkin desta forma, transformando suas afirmações em slogans radicais infecundos. Quando na verdade, ela acertou em cheio.

Sexo não é sinônimo de penetração. Há outras formas de prazer sexual tão excitantes quanto o intercurso carnal. A penetração não é a “cereja do bolo”, não é objetivo único e final de toda e qualquer relação sexual. Não há razão para estabelecer uma hierarquia entre as diversas manifestações de prazer. A fantasia masculina com o sexo entre lésbicas demonstra bem o que Dworkin quer dizer.

Intercurso carnal não é sinônimo de estupro. A penetração pode ocorrer de formas variadas e em contextos diversos. Dworkin exagera quando se refere à “natureza” deste ato, que é tão simbólico e plástico como qualquer outro. Mas está certa ao apontar a naturalização da relação entre intercurso e violação, em especial no campo da pornografia.

Candida Royalle é uma reformista no campo da pornografia. Fundou em 1984 a primeira produtora de filmes para mulheres. Não fosse a prisão do dualismo de gênero, talvez fosse mais adequado dizer que seus filmes agradam pessoas cuja sensibilidade para o sexo não gira em torno da imagem da dominação. E que não acreditam que o intercurso carnal seja uma Bastilha a ser derrubada.

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  1. concordo que a fixacao pela penetracao é uma marca de um certo sexo baseado na idéia hierárquica de dominacao. Mas é difícil, no nosso “regime de verdades”, por assim dizer, ver um ponto sequer de contato entre língua e mundo, em que e a diferenca entre dominante e dominado nao seja decisiva. Nao se trata de um privilégio dos gêneros. Marcar o outro lado da diferenca, marcar o feminino e reprimir o falo que penetra, tampouco ajuda. A aporia do feminismo está exatamente em que nao consegue revogar a diferenca de que se alimenta. Essa diferenca é um parasita que se renova sempre que é combatida de forma essencialista, como se houvesse mesmo gêneros. Ademais, como ulisses preso ao mastro de seu barco, o dominante, o macho dessa relacao padece da mesma reificacao, gracas à forma daquela diferenca.
    Nesse ponto, o símbolo da penetracao nao é o problema, senao o jogo de relacoes que a reproduz. A vitória final das feministas nao depende portanto do feminismo; ela dificilmente depende do seu jogo de palavras; ela só pode estar na substituicao das redes relacionais que mantêm aquela diferenca. Engels nao era bobo; havia alguma coisa lá, onde ele viu nascer a nossa idéia de família. Certamente que a realidade nao é total. Ou seja, ela nao depende de uma só diferenca. Mas ela depende de um regime que se mantem razovavelmente estável, se nao o atingirmos em toda sua extensao.
    Assim que, embora haja valor na luta feminista, sua luta jamais se esgota nela mesma. Era só esse o meu ponto.

  2. Pablo, você está certo, mas eu discordo justamente da Dworkin nisso. Quando abre espaço para naturalizar o sentido da penetração e o gênero. O feminismo já não é assim tão essencialista. Há vários grupos e teorias. E o movimento queer para tornar as coisas ainda mais plurais!

    • Meu ponto vai além do essencialismo, caro zé. Acho que vc até concordaria comigo. Muitas vezes, luta feminista insiste em recortar setores, insistindo na indiferença entre os especialistas, no politeísmo de valores que pode estar na raiz do mal. Pra falar com habermas, embora o mundo da vida tenha diferenciado esferas de validade, o desafio da crise da modernidade (eita, olha o vocabulário da crise sempre por aí) é fazer dialogar em linguagem revolucionária (agir comunicativo?) o conservadorismo dos sistemas e o vanguardismo do mundo da vida (que pra ele é bem privado, o que até é meio careta).
      O que quero dizer é que a revolução não vem aos pedaços. O jogo de diferenças que sustenta o feminismo sustenta uma porrada de outras merdas. Sem abater as vigas, o andar dos machões não vem ao chão.
      Como li Luhmann, não diria que devemos levar abaixo a diferenciação funcional. Isso é besteira. Mas gosto da idéia de que a única e melhor Leistung da democracia é a consciência da contingência de tudo que há sobre a terra. Inclusive da própria democracia. Construir o socialismo é ampliar a democracia até o ponto em que a contingência (e a consciência que dela tempos) se multiplica em tal medida que se torna impossível (ou bem difícil) controlá-la de perto… Cada um faz o que quer, sem que que o mundo caia por causa disso. Aí, cai tb a camisa de força do machismo.

      O texto tá ótimo,
      abraço,
      p.

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