José Rodrigo Rodriguez

Archive for janeiro \31\UTC 2011|Monthly archive page

O que eu realmente sou (ou “O sono da razão produz monstros”)

In Poemas para mim mesmo on 31/01/2011 at 12:21

Meus dois amigos me adoram,
um deles fala de mim:
“Um escritor renomado,
um pianista cego,
um astronauta de triciclo
voando graciosamente
sobre a Lua cheia
de metáforas”
e esse mesmo é quem diz
(quase todos os dias)
como é realmente incrível
andar sempre comigo.

Mas quando a noite cai em Dezembro
e doem fundo as minhas faltas
na parte mais tenra do osso,
e quando o tempo fica à espreita
imóvel para dar o bote
com seus dentes de crepúsculo,
quem está comigo é o outro
(quase todos os meus dias)
ele, que nunca diz nada
quase nunca, quase nada
por saber exatamente
o que eu realmente sou.

Cuida de mim?

In Poemas para mim mesmo on 31/01/2011 at 2:56

Você me conta os seus feitos
e eles são mesmo incríveis,
perto deles
os doze trabalhos de Hércules
ficam parecendo dois ou três:
tirar piolhos de um chiuaua,
limpar a gaiola de um coelho,
comer dez chicletes de uma vez:
uma brincadeira de criança,
baba de moça, moleza,
tranqüilo.

Mas alguns homens reais
desfilam entre seus mitos
e estranham os seres voadores:
não acreditam nas flores de sete metros
elevando-se sobre as cabeças
cansadas de tanto pensar.

Eles notam o lixo que se acumula
diante da porta
e aos pés da cama,
trazem óleo, sal e vinagre
e compram lâmpadas.

Seu homem de verdade
fecha o livro no momento exato
e ajuda a descascar as cebolas
que faltavam para o jantar,
fecha a porta para os estrangeiros
e seus sexos de dez metros:
apetite insaciável
e prazeres exóticos.

Seu homem de verdade
sorri ao ver seu gozo
olhando do avesso da página
onde aguarda calmamente
que membros descomunais
terminem de penetrá-la
e voltem de onde vieram
serenos
cercados de luz etérea.

Seu homem de verdade
limpa o sêmem ainda quente
e a coloca para dormir.

Esse homem real
que você não vê:
será preciso alguns anos
e talvez alguma sorte,
talvez ele agüente esperar,
pois o amor sempre vence
no final: “Cuida de mim?”

Habermas pode conversar com os animais? (fragmento)

In Aforismas e fragmentos on 30/01/2011 at 11:23

Tio Boonmee de Apichatpong Weerasethakul é um filme político. Incorpora na mesma narrativa pensamento mágico e tecnologia, medicina ocidental e fantasmas, telefones celulares e animais falantes, rock tailandês e carma. Pensadores como Jürgen Habermas têm procurado delimitar um espaço para a religião na esfera pública que fica reduzida a um papel secundário, posta lado a lado às inúmeras vozes sociais. Apichtapong fala de um mundo em que a democracia, para sobreviver, precisará delimitar um espaço para a deliberação no tecido denso do pensamento mágico hegemônico.

Será preciso refazer a divisão de tarefas que se estabeleceu durante o iluminismo entre razão e religião. A questão está novamente em aberto e não parece razoável fazer renascerem Voltaire e Diderot para lidar com o problema. Arrancar o véu do rosto de meninas não é a solução. É preciso dar conta do mundo complexo de que fala Apichatpong, que mora nos campos e florestas onde o filme se passa, mas também nas cidades do oriente e ocidente, onde fantasmas, homens e animais caminham lado a lado.

Tio Boonmee fala do avesso da questão enfrentada por Habermas, a qual provavelmente nós, ocidentais, não vamos conseguir resolver sozinhos. Será preciso confiar em um Habermas budista que saiba conversar com os animais. E pense poeticamente como a narrativa onírica do filme, cuja beleza pode-se comparar aos melhores momentos de Tarkovsky. Também a capacidade de manipular o tempo, esticando os minutos com movimentos da câmera e com uma luz delirante que faz com que os animais, as pedras, a água e as plantas (e sua racionalidade específica) deixem a condição de coadjuvantes.

Lento, não-narrativo, não-linear e absolutamente eletrizante. O melhor filme que vi neste começo do século XX.

Tio Boonmee

In Poemas para mim mesmo on 30/01/2011 at 0:43

O que eu pergunto para o vento
pergunto por pura ignorância
pois quando o vento me sopra
os meus cabelos se agitam
também o sangue por dentro.

Um entra e sai dentro de mim
no vento que sempre me leva
a marca funda entre os lábios
por onde a alma penetra
por onde saem as palavras
que alimentam os mortos.

Nas árvores e nas casas
motores elétricos de
inquietas ventoinhas,
os chips fervendo nos
computadores e
sobre o tecido da
pele impermeável e
sobre o tecido do
cérebro por de trás
dos seus olhos azuis
que observam a tudo e
a todos e já não esperam
ninguém.

O que aconteceria com a minha vida
se eu resolvesse contar os anos
de um ponto partido de cada rajada
da face virada a cada brisa?

O tempo dos calendários
sopraria assim do mesmo jeito?

Agora o vento terá um nome
a ele se chamará
de Pedro.

Para Apichatpong Weerasethakul

Meus Seios (fragmento)

In Aforismas e fragmentos on 27/01/2011 at 16:44

Meus Seios é o nome do livro de poemas que escrevi. Como um travesti de teatro, procuro estar no lugar das mulheres para entender seu mundo.

Mas esse não é o único assunto que me interessa. Às vezes sou um índio imaginário, um operário imaginário, um egípcio imaginário, um chapeiro imaginário, um executivo, uma pedra, um tamanduá, um pirulito, um refresco de tamarindo.

Minha poesia nasce da encenação deste gesto impossível: sair de mim mesmo para encarnar outra coisa, animal, vegetal ou mineral. Falta-me o talento para ser ator, mas utilizo o princípio da atividade em minha lírica teatral de múltiplas personalidades.

Porque há sempre milhares de seres gritando e se debatendo dentro da minha cabeça. E de tempos em tempos, alguns deles precisam sair. Para que o crânio não estoure e eu acredite que entendi um pouco melhor o que é esse mundo.

Não vamos crucificar (ainda) a Ministra da Cultura!

In Rock-poesia-politica on 26/01/2011 at 17:38

“Creative Commons” é uma licença padrão criada por Lawrence Lessig de Harvard (que é apenas um moderado na discussão da internet, não tem nada de radical, não chega a relativizar o problema da autoria, esta sim, a questão chave desse debate todo) como sugestão para os autores que publicam na internet.

A sacada foi criar algo simples que facilitasse a comunicação entre o autor e o público. Simples assim. Agora, adotá-la (ou não) não é, de jeito algum, sinônimo de apoiar (ou não) a livre circulação da informação na internet. Uma coisa não decorre da outra em absoluto.

Claro que Lessig faz propaganda de si mesmo desta forma e gostaria que sua licença se tornasse sinônimo de “liberdade na net”. Por isso mesmo, com certeza, adotá-la significa apoiar um projeto de Harvard (que, aliás, não “pegou” na internet inteira).

É perfeitamente possível conseguir o mesmo efeito desta licença com a legislação nacional, como afirmou a Ministra Ana de Holanda. Acho excessivo, apenas com base neste fato, crucificá-la e dizer que ela defende o ECAD e posições conservadoras. É preciso mais dados para dizer isso.

Eu, particularmente, gostei da medida. Acho a licença CC conservadora porque reafirma e naturaliza o direito do autor individual que publica o conteúdo na internet, justamente um ambiente que relativiza a autoria e a visão individualista do “autor” daquilo que foi publicado. O CC é uma forma de povoar um ambiente do século XXI com uma gramática jurídica do século XIX. O problema central que devemos discutir é esse.

Claro, espero que esta decisão não aponte para a adoção de uma visão restritiva da circulação de informação na internet. Se isso se comprovar, apoiarei a crucificação da Ministra, que está ocorrendo um pouco cedo demais em minha opinião.

A moda como opressão de classe (fragmento)

In Aforismas e fragmentos on 25/01/2011 at 23:17

A elegância, a sofisticação é um dos mais poderosos marcadores de classe. Neste caso, a exclusão do outro ocorre ao primeiro olhar, na primeira frase, diante de qualquer “deslize” que leve a crer que determinada pessoa “não é de nossa educação”. O segredo deste marcador é a plasticidade, a capacidade de fazer alianças entre as diversas classes sociais, sem abrir mão do poder de julgar o outro.

Houve um tempo em que a elegância era medida apenas pelo preço, pela qualidade e pela exclusividade dos produtos utilizados pelos indivíduos. Depois de tanto sangue derramado nas lutas sociais sem que fosse diminuída a quantidade de pobres e miseráveis no mundo, não é de bom tom ostentar demais. Elegante é ser discreto. Por isso mesmo, hoje em dia, bem utilizada, ou seja, de acordo com as regras do opressor, uma camisa de porteiro comprada em uma loja de uniformes profissionais pode ser considerada altamente elegante.

É o “bom senso”, o “senso estético” que garante a sofisticação do visual. Mas um “bom senso” devidamente naturalizado e transformado em propriedade privada de um grupo restrito de pessoas, instaladas nos meios de comunicação de massa e em pontos estratégicos da esfera pública.

Será preciso legitimar o “look porteiro de prédio” em algum editorial de moda, em alguma “it girl” ou em um garotão modernex para que ele se torne sinônimo de elegância. A moda só faz sentido quando não existe autonomia para se definir o que é elegante e o que não é. O movimento de ir buscar “a moda que vem das ruas”, repetido de tempos em tempos pelos profissionais desse campo, dão a nítida impressão de que o acesso à elegância é democrático e plural.

No limite, ao deixar de lado roupas e acessórios e falar apenas de “atitudes” – o que permite dizer que uma pessoa “simples” é “elegante” apenas porque sabe “viver bem”, é “feliz” e “tem dignidade” – os detentores de poder simbólico reafirmam sua posição de juízes e buscam a cumplicidade das classes baixas para o exercício de seu poder de classificar, julgar e excluir. E, evidentemente, de determinar o consumo.

Sócrates (poema para São Paulo)

In Poemas para mim mesmo on 25/01/2011 at 13:35

Não festejamos o aniversário de placas tectônicas
de falhas geológicas, de tufões ou labirintos,
discurso sempre pronto, todo reto e coerente,
mas a filosofia é sempre ameaça de morte.

Não festejamos o ódio ou a confusão de Afrodite,
as mammas racistas com suas negras apodrecidas,
os índios escravizados e as índias prostituídas,
mas a filosofia é sempre ameaça de morte.

O que escapa da palavra cega luz
São Paulo sem controle,
sem comemorações.

De cada pessoa,
amo o medo
e suas dúvidas
da minha cidade,
a força corrosiva.

A batalha mortal do grande Kant contra o grande Hegel

In Poemas para mim mesmo on 23/01/2011 at 15:58

“Todos querem alguma coisa de nós…”,
explica-me a amiga diante de meu olhar atônito,
frase certeira em meio a montanhas de papéis e
textos de cartas sem selo, “Eu certamente não estaria
com você se você não fosse bonita, meu namorado
me disse assim mesmo”, o que você não sabe, o que
eu não sei, “Tudo na vida é apenas uma troca”
evidentemente, esse foi o tom, assim, como se fosse
absolutamente óbvio, como seu eu fosse absolutamente
ingênuo, eu também, absolutamente óbvio, por isso a
surpresa não veio do que foi dito, ver a mim mesmo decifrado
ainda que em parte, esse lugar comum repetido tantas vezes,
de fato, uma obviedade, frase redundante como se percebia
pelo tom de desdém com que você me disse, a necessidade
de fazer lembrar coisas tão ditas e reditas e era preciso fazer
isso mesmo, naquele momento em especial, eu agradeço, eu
precisava ouvir enquanto contava minhas bênçãos, pois essa
é a característica central de qualquer relação humana neste
século deste país desta cidade galáxia, mesmo a relação com
Deus e com o Diabo, os santos, os orixás e deidades as mais diversas,
créditos e débitos, e vejam bem, as autoridades não me deixam mentir,
pois até mesmo o grande Kant conferiu forma contratual ao casamento,
é verdade que sob os protestos do grande Hegel que asseverou sobre a
família que ela entraria apenas em parte no direito, a outra parte restando
portanto inapelavelmente fora, mas seja como for, uma posição praticamente
vencida na história das práticas sociais, assim, entre os grandes pensadores,
o amor também foi concebido sob a forma de um raciocínio de equivalentes,
sempre foi assim e sempre será, o meu entusiasmo pela sua sabedoria, a minha
juventude pela sua profundidade, o seu sexo perverso pela minha inocência,
a minha candura pela sua violência, a sua cidade pela minha constelação de
mapas expansiva nos guias de viagem imaginários, o seu sangue fresco pelo
meu sorvete de caramelo, uma troca, depois de outra troca e de outra troca,
tudo na vida é uma troca e tudo, cada uma, para sempre ecoando para que
possamos decidir afinal, se o saldo é positivo ou negativo, se estamos no vermelho
ou no azul, se você acertou o passo certo na direção correta conforme adrede
combinado, uma coluna de prós e outra coluna de contras, razões para parar e
razões para continuar este relacionamento comercial-afetivo-sexual, por isso tudo,
tudo precisa ser dito, é preciso fazer muitas e muitas discussões sobre o relacionamento
para que as duas partes do contrato tenham clareza dos limites, do desenrolar e do
conteúdo da relação para que possam vir a renegociar os seus termos, vem daí essa
obcessão pela palavra como se ela fosse, seria capaz de revelar tudo e pôr tudo às
claras, é por esta razão que tudo precisa ser dito, todos os detalhes, a franqueza deve ser
completa, absoluta, implacável, para que não haja prejudicados no fim das contas, e
mesmo sabendo claramente de tudo isso, não pense que eu seja assim tão ingênuo,
daí nasceu minha surpresa diante da sua frase tão clara e tão verdadeira, dita de forma
certeira sobre a pilha de cartas que eu não vou mais enviar, a certeza de que talvez eu
ainda insista em sonhar com um amor em que a troca se torne absolutamente impossível
e, assim, o que eu vier a dar ou vier eventualmente a receber, no final das contas, pouco
se me dá, por isso mesmo acho que concordo é com o grande Hegel e peço que você leia
esse texto comigo, a parte sobre a família de seus Princípios da Filosofia do Direito, talvez
alguma coisa possa mudar com esta tentativa de reflexão conjunta, para usar o termo
clássico, deste processo de esclarecimento, mas afinal, de que adiantaria? O amor não é
mesmo,
completamente
cego?
Não devemos
afinal,
desconfiar da
palavra?

Para Carolina Cutrupi

Overlock Hotel

In Poemas para mim mesmo on 23/01/2011 at 15:12

São e salvo
entre aqueles
que te amaram
até agora.

para Carlos E. Batalha