José Rodrigo Rodriguez

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Uma externa: Fim de feira (Poema de Natal)

In Poemas para mim mesmo on 25/12/2010 at 22:21

O que fica no fim da feira
um grande saco cor de cinza
bananas amassadas, alface
cebolas roxas, rúcula, aipim
restos de nada, coisa pública.

Há várias formas de ser vítima
há cenas propícias como esta
ou um barraco pendurado no
barranco ao lado da rodovia
casa de barro, terra, sujeira.

Há cenas propícias, todos os
presentes ausentes em carne
e osso, o diretor dessa imagem
todos de olhos baços a lágrima
em que todos sempre sofrem.

A eles sempre se pergunta
coisas da fome, a dor é sempre
a mesma, não adianta falar
nada porque ninguém irá ouvir
se porventura um homem uma

mulher, menino ou menina
fugirem do figurino de
objeto de denúncia social
e trucidarem o câmera o
repórter a socos e pauladas

felizes.

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O louco

In Poemas para mim mesmo on 25/12/2010 at 18:03

Chamar quem não está
“Pai”
em todos os sentidos
o Sol cruza seus braços
alguma coisa
não vai nascer.

Não ouço vozes
“Pai”
não era assim
ele era pequeno
quando me concebeu
alguma coisa já dizia
maçãs e peras frescas
uma colheita
“Pai”
Deus também se esquece
de contar sua bênçãos.

Chamar quem não está
em todos os sentidos
quem passa anda e vem
em selvas de fumaça
o Sol cruza seus braços
atalhos invertidos
tempo de sal e de seca
tempo de vento e de espera.

Lorca

In Poemas para mim mesmo on 23/12/2010 at 23:54

Nunca serei Lorca e desse ocorrido
nasce de novo o meu poema
um cristal doce lapidado a frio
na língua rasgada de alfazema.

Bebo do sangue que se derrama
do céu da boca até a garganta
tempo cerrado num galho seco
palma vermelha com que se banha.

Ouço sua voz falando em mim
como um avô desconhecido
como uma ave que caçada
como um turbilhão invertido.

Sorver cuspir notas tão secas
respirando verso com cuidado
chore por mim quando eu fracasse
fogo de canário, sangue de nardo.

Estocolmo (poema de Natal)

In Poemas para mim mesmo on 23/12/2010 at 12:12

Meu tio
lixo tóxico,
de pijama
lixo tóxico,
40 anos
lixo tóxico,
no portão
lixo tóxico,
pernas bambas
lixo tóxico,
olhos baixos
lixo tóxico

ensinando a
jogar taco as
lembranças
de goleiro
na genviva
nua sem fazer
nenhum drama:
o silêncio do
torturado
síndrome de
Estocolmo
pois sem o
seu trabalho
um homem
não tem
honra.

Na hora
da janta
do almoço
do Natal
de pijama
mesma
roupa
dentro e fora
da garagem
vazia a
paisagem
vista

do portão.

Nunca
mastigando
ódio
nunca
um soco
nunca
triste ou
alegre
talvez ele
nunca
tenha
estado

ali

meu tio
ano sempre
velho de
insalubridade
grave e
aposentadoria
compulsória
pelo INSS
mastigando
o doce
sem
fazer

drama

em fazer

sombra

quindim

pavê

pudim

cocada

fios

de

ovos

camafeu

de

nozes

brigadeiro

cajuzinho

meu

tio

às

vezes

cus

pin

do

san

gue.

Ela e eu

In Poemas para mim mesmo on 22/12/2010 at 0:21

Imagens banais
uma cena
teatro de nós dois.

O mesmo restaurante
não se cansa
nunca de mudar.

Sede de fogo
terra, mar e ar: Vai
abrace

o mundo
astros
farol.

E se você quiser
aqui
o que sempre fica

e eu
plantado
fundo

granito:
é o que eu posso
fazer

meu medo
é todo
seu.

Oxum

In Poemas para mim mesmo on 21/12/2010 at 23:14

Para Uirá Azevedo

Fazer a paga
viagem
luz negra
sêmem
corpo santo.

Porto da Barra
preto
é quem nasce
nesta casa não
entra.

Dentro e fora
olho de turista
vento de popa
subtração
um canto.

Oxum Maria José
Porto da Barra
horizonte
lâmina fria
meu país.

Duas cruzes
vela vermelha
carretel
espinho
casca grossa

pedra.

Um calo que não se apaga
pé sobre pé ladeira acima
pé sobre pé na cova abaixo
preto é quem paga e fica

pedra ainda.

TV

In Poemas para mim mesmo on 21/12/2010 at 1:19

Uma cortina, porta, um botão
um horizonte também se abre
mudar as casas de lugar um
milímetro, dois
um dia mais:
é tarde.

O desfecho
sempre
um
risco
na
mais
tenra
idade:

casca
grossa
lágrima
fuzil
diadema
cor
coragem.

Ajudei a entrevistar o Laerte

In Aforismas e fragmentos on 17/12/2010 at 2:53

Foi para o site da Revista TRIP, junto com a professora Heloisa Buarque de Almeida sob o comando do repórter Diogo Rodriguez.

O Laerte é genial e a sua decisão de expor publicamente sua nova forma de viver seu gênero está causando um grande impacto, ao menos em certos grupos sociais.

Ele atrapalha bastante as categorias estabelecidas para definir o que seja “masculino” e “feminino”.

Aprendi muito ouvindo ele falar.

Considerando-se que o nome de meu livro de poemas é “Meus Seios”, o assunto realmente me interessava. Foram duas horas muito sérias e divertidas, que se transformaram nesse belo texto:

http://revistatrip.uol.com.br/so-no-site/entrevistas/paradoxo-de-salto-alto.html

Fiquei ainda mais fã dessa linda Senhora.

Diabo

In Poemas para mim mesmo on 12/12/2010 at 15:28

Pois quando um texto se lê
quando uma idéia se pensa
o que acontece no corpo
quando uma idéia dança?

Quando uma idéia se lança
nem bem sacode a cabeça
no céu aberto do planeta
que toda idéia encerra.

Pedra que procura terra
pássaro vivo de ar
peixe doce sal do mar
idéia que me navega.

Texto mesmo que se lê
cavalo da mesma guerra
idade que me carrega
diabo que não se cansa

quando uma idéia dança.

Para Marta Machado

Frankenstein

In Poemas para mim mesmo on 10/12/2010 at 18:19

A escrita do sonho transformou minha cidade
em uma flor cínica
a medida incerta de toda rosa
mão precisa semeando híbridos.

Água cor carbono
laranja fúcsia e carmim
os enxertos de pele no rosto
uma cauda de gato no rato
uma cena de sangue na casa
do padre transando com a freira
o que mais não se mede
o que ainda se apaga
o que não se defende
o que sempre emudece
a escrita do sonho
desperta demais.