José Rodrigo Rodriguez

O crime é a cocaína da socialização (fragmento)

In Aforismas e fragmentos on 29/12/2010 at 15:06

Não é fácil tolerar a diferença, reconhecê-la, imputar-lhe dignidade própria. Como evitar que se forme; como modificar a estrutura de uma existência racista, homofóbica, xenófoba, fascista? Será preciso ouvir com atenção os agressores; prestar atenção em seu sofrimento e em suas justificativas. Também desconfiar de todos aqueles se afirmam acima deste problema, essa gente “descolada”, completamente livre de preconceitos. Judith Butler acaba de recusar um prêmio da cidade de Berlim como forma de criticar os movimentos sociais queer e brancos que têm ignorado a questão turca. O trabalho de diferença é difícil, lento e precisa ser constante. E ele começa evitando-se a formação de guetos e aristocracias em qualquer esfera da existência.

Sabemos quase nada sobre o processo existencial de negociar valores; seus mecanismos, seus custos fisiológicos, suas barreiras simbólicas. Chamá-lo de “re-significação” ou “agir comunicativo” é um começo, mas muito abstrato. A criminalização é um obstáculo para esta pesquisa, que pode aperfeiçoar o trabalho da diferença. Estigmatizar os culpados deixa os “cidadãos de bem” felizes. Pois eles podem apontar em alguém tudo aquilo que são ou seriam capazes de fazer, deixando intacto e oculto o desejo de discriminar. Os criminosos são sempre “eles”, os outros. Condena-se um para absolver o todo quando é no todo que está o problema. A criminalização é sempre um sacrifício ritual: o direito penal deve ser extinto.

Os “cidadãos de bem” não merecem a pacificação interna e a prepotência que sua carga simbólica é capaz de produzir. O crime é a cocaína da socialização. E os inocentes os verdadeiros inimigos quando assumem um papel puramente acusatório. Toda forma de “ira santa” é suspeita. Na verdade, o verdadeiro inimigo é a naturalização da gramática que interpreta o mundo por meio de crimes e de penas. Há formas não-sacrificiais para demarcar as fronteiras entre o lícito e o ilícito que não separam “culpados” e “inocentes” como se fossem espécies animais distintas.

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  1. opa! de resto, a própria idéia de manter um inimigo – ainda que seja não personificado, uma “gramática” – parece ser um termo pouco apto, já que se trata de identificar o problema em uma certa forma (cultural e simbólica) de sociabilidade, em um certo universo de significados, em uma certa linguagem e suas operações… gostei da imagem do crime como cocaína da socialização! zé, vamos nos falar mais esse ano! grande 2011 pra você! bjão,

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