José Rodrigo Rodriguez

“Dois”, o livro pornográfico de Érico Nogueira

In Aforismas e fragmentos on 14/11/2010 at 13:44

Gosto de ler os livros de Érico, inclusive seu novo “Dois” (clique aqui e compre), como a tentativa de dar uma solução à crítica que Bruno Tolentino fez aos concretistas. Polêmica agressiva e equivocada em muitos aspectos, possui um cerne de verdade.

A tão comentada crise do verso, anunciada por Mallarmé, pode ter e teve outro desfecho em poetas como Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade. A “crise do verso” também é transformação e, portanto, não se trata de abandoná-lo, mas sim de reinventá-lo para o mundo atual.

Bruno estava certo. A poesia mundial é cada vez mais variada e plural e o verso continua a expressar algumas coisas, mas outras não, como qualquer artifício figurativo inventado pelo homem.

Tudo muito bom, tudo muito bem, mas o problema é que esta afirmação correta de Bruno, muitas vezes, deu origem a exageros desnecessários.

De um lado, os concretistas achavam que o “dernier cri” seria destruir o verso e fazer poemas visuais, ou “verbicovisuais” os quais, muitas vezes, não eram melhores do que anúncios publicitários de má qualidade.

De outro, toda uma geração de poetas voltou a fazer versos rebuscados e exibicionistas em que a forma é mais importante do que o conteúdo. Este “neo-parnasianismo” no mau sentido da palavra (porque Olavo Bilac por exemplo, é um grande poeta) é, como a poesia visual publicitária, uma praga que assola nosso meio intelectual.

Érico, como eu mesmo, estamos na turma dos que preferiram tentar reinventar o verso. Seu novo livro já é, entre tudo o que li nos últimos dez anos, a tentativa mais refletida, elaborada e emocionante de realizar esta tarefa.

Pois antes de tudo, este é um livro emocionante. Nada cerebral: rasgado e incontido. Um poema dramático, muito próximo de um monólogo teatral cujo assunto é a fé católica, o incômodo de ser carne.

Deve ser lido de capa a capa, como uma peça de teatro, para que possa ser bem compreendido.

O livro se anuncia como baseado em um “método antiquado” e é repleto de alusões, citações e técnicas poéticas elaboradas. O prefácio e a orelha informam o leitor a respeito disso e dão nome a alguns bois.

Ao ler, esqueçam. E deixem este aparato crítico para depois.

Pouco importa os detalhes da mecânica de um automóvel se ele tem um bom desempenho na pista: isto é conversa para críticos e especialistas. A erudição explícita pode afastar os leitores de um texto cujo mérito não é ser “técnico”, mas sim de encontrar excelentes soluções para expressar questões de grande importância.

A técnica está lá, mas nem se percebe.

Corpo e alma, devassidão e pecado, carne e espírito, Roma e Grécia: “Dois” é uma reflexão sobre a condição humana, dilacerada entre o que ela tem de mais terrena, para Érico, sexual, e o impulso para o sublime, para Érico, a salvação em Deus.

Este é um livro pornográfico. Fiquei de pau duro algumas vezes ao ler sua primeira parte, que se chama “Dois”. Mas é preciso tomar um certo cuidado: durante a leitura, tive que desviar o rosto algumas vezes para não levar um pinto ou respingos de porra na cara.

A imagem do estupro, daquilo que se entrega com esforço, da ereção, de coisas que surgem em riste, perpassam o livro todo e de forma ambígua.

Ou seja, para completar, um pouco de viadagem.

Afinal, entregar-se à carne, aos impulsos mais fáceis, evidentemente, significa sexo, penetração. Mas também a salvação, ao negar a natureza carnal do homem, ressoa o mesmo ato, a violação da natureza humana, sob a forma de estupro.

Em suma, salva ou danada, a humanidade está, literalmente, fodida.

A parte final do livro, “Deu branco” e o “Coda” olham esta condição com ironia. Versos menos barrocos e mais modernos, mas que nunca elevam o sexo ou rebaixam a salvação. Reafirmam a dualidade, mas de um ponto de vista externo.

Ainda bem que Érico consegue nos fazer rir dessas coisas, porque o começo do livro é quase irrespirável e por isso tão bem realizado. Não vou inventariar todas as imagens belíssimas e as metáforas comoventes para não estragar a leitura.

Uma delas me agrada especialmente. Depois de comparar o homem a um boi no pasto movido apenas por seus instintos, imbecilizado e automático, no poema seguinte Érico aponta para uma solução que se coloque entre a luxúria e o celibato.

Um “fogo sensato” que é azul como água, que aclara e compõe no mesmo ato.

O que a imagem tem de genial, também tem de desvairada e utópica: um fogo que queima e compõe, destrói e também regenera, só no Harry Potter.

Todas as soluções para o conflito são assim, duais e impossíveis ou, na parte final, irônicas e menos atormentadas.

Um pouco menos atormentado apenas.

“Deu branco” se passa entre aeroportos e viagens, reais ou imaginárias, entre lugares específicos: Roma, Atenas e Nápoles, a Salvador italiana. O tema é a “Grécia de presépio” da poesia alemã.

A poesia enfim.

Se na primeira parte o herói é o pecador tarado em busca de salvação em Deus, aqui o drama é do poeta em busca de seu verso, de sua forma de expressão mais adequada.

Escrever já requer afastamento: é a experiência trabalhada e não a experiência imediata.

Por isso mesmo, esta parte é mais engraçada e irônica, mas sem propor uma solução para o dilaceramento. Não se vê aqui, como eu já disse, uma elevação do sexo ou o rebaixamento de Deus, apenas a reflexão sobre sua solução na arte.

Em relação à primeira parte,  “Deu branco” também é dual. É mais a expressão de um breve intervalo entre estados de alma extremados do que uma via que pudesse unir na imanência da vida o carnal e o sublime.

O “Coda” que fecha o livro não será síntese, mas uma canção, cujo verso final é “o poeta é um fingidor”.

Recomeça o poema, portanto, o dilaceramento…

A redenção está fora, em algum lugar externo ao humano, que se arrasta entre lama, sêmem e sangue e às vezes consegue rir disso. E cantar.

“Dois” também poderia ser um libreto de ópera para duas vozes, que seriam interpretadas por um tenor e seu duplo, uma soprano, ambos com figurino trocado.

A soprano vestida de homem, o barítono vestido de mulher.

Executariam “Deu branco” em dueto e o “Coda” final seria cantado por um baixo andrógino e magérrimo vestido de preto, com uma roupa coladinha no corpo.

Sei que Érico vai adorar ser comparado a um libretista e odiar minha sugestão de encenação modernosa para seu poema, supostamente arcaizante.

Mas faço isso por uma boa razão: acho seu poema contemporâneo até a medula.

É o “dernier cri” e eu nem falei de sua importância para pensar o fenômeno religioso, que voltou com força à cena política mundial.

Ao ler livros assim, fico com mais orgulho e mais vontade de ler e fazer poesia.

Quem sabe consigo, do meu jeito,  ser assim, tão bom?

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  1. Adoraria ver essa execução do jeitinho que v. descreveu! Grande abraço. E.

  2. Vontade de comer “Dois”

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