José Rodrigo Rodriguez

Archive for novembro \30\UTC 2010|Monthly archive page

Um Papa para a arte contemporânea (fragmento)

In Aforismas e fragmentos on 30/11/2010 at 1:29

A nostalgia da ordem acomete diversos escritores, críticos, políticos e filósofos. Há muitos homens e mulheres ansiosos por apontar o dedo para seus desafetos pessoais enquanto gritam: “Anátema!”. “Seus versos são muito bons, mas não acho que a poesia deva ir por aí”, disse-me uma brilhante crítica da nova geração. Em debate com Jürgen Habermas, o Papa Joseph Ratzinger afirmou que a religião é capaz de fornecer aos homens valores substantivos, essenciais para uma existência plena. Muitos esperam um Papa para a arte contemporânea, capaz de colocar fim à bagunça reinante.

É muito diferente “fornecer valores” e “fornecer procedimentos para um debate”. “Assim como não comemos para nos apropriarmos de um material totalmente novo, desconhecido – do mesmo modo não filosofamos para achar verdades totalmente novas, desconhecidas”, disse Novalis. A noção adorniana de “material” é aberta, fecunda e precisa o suficiente para indicar o alvo sem funcionar como mandamento para uma nova religião. O material é uma experiência social que se revela na obra, no caso, na crítica, sem espaço para sectarismos. É um problema histórico que precisa ser continuamente resolvido. O material é um ato.

Não existe material fora do ato de criação ou do ato crítico, ambos nascidos do mesmo ventre: o ventre de Pandora. É de arte toda obra capaz de sustentar longas conversas que não cheguem a conclusões definitivas. “Cada objeto (praticamente) deixa-se tomar como o objeto de uma ciência particular”, disse Novalis. Mas não há enigmas em Lulu Santos.

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Antes da palavra (fragmento)

In Aforismas e fragmentos on 26/11/2010 at 3:34

O rock é a sociologia sem reflexão. Todo rock progressivo foi um equívoco histórico, cujo legado deve ser combatido. Como em A Rosa Púrpura do Cairo, é impossível discernir a voz do vocalista do som de minha própria voz. Não há forma de arte mais pedestre. É impossível levantar do chão depois de escutar Right to Work do Chelsea. Uma cisão que se impõe e se desfaz. Olho para minhas mãos por um segundo sem saber se elas existem. Horizonte que se abre sem reflexão, figura sem linguagem.

O melhor rock é obra de ignorantes ou daqueles que conseguiram se despir da civilização. Como o selvagem de Jean-Jacques Rousseau, para quem não faz sentido perguntar sobre o bem ou sobre o mal. Antes da palavra, como Iggy Pop: nenhuma canção de rock jamais fará sucesso, pois ela vive desta ruptura. Toda canção de sucesso não pode ser classificada como uma canção de rock. O sucesso é a marca de Caim, sinal da perda de contundência. Pop rock, pipoca e sorvete.

O presente da poesia (fragmento)

In Aforismas e fragmentos on 26/11/2010 at 2:26

Apenas a obra de arte individual importa. Depois de Finegans Wake toda sujeição é voluntária. A coerção das formas perdeu sua base social mais sólida e migrou para o aparelho psíquico de cada artista. Adorno foi o primeiro a conceber uma estética feita de obras individuais que não avança em seus assuntos e trabalha com a idéia de saturação. Cada um de seus argumentos se volta contra si mesmo, cada uma de suas linhas se abre e se fecha diante do vazio. Adorno foi capaz de mimetizar o gesto da criação e esta é sua maior contribuição à crítica.

Ser artista é ser capaz de encenar este problema na forma da obra que será sempre dissonante. Ser artista é ser capaz de renegociar sem descanso a percepção do expectador a cada dia, a cada obra, a cada momento. Inventá-lo a cada momento. Pois a cada momento tudo está em jogo, tudo está em questão, tudo pode ser posto a perder. Por isso assistimos à proliferação das formas fáceis, das artes decorativas, da poesia estilizada, da erudição vazia. Nunca foi tão difícil, tão violento, tão solitário e tão desprezível ser um artista. E nunca foi tão preciso. Jean-Luc Goddard sabe disso. Socialisme é o modelo para toda poesia presente. O futuro da poesia não existe.

Todo literato é um morto-vivo (fragmento)

In Aforismas e fragmentos on 25/11/2010 at 21:12

O lugar da poesia é a esfera pública e não a literatura. A literatura é o espaço de reflexão sobre a criação literária, que acontece em outro lugar. Sempre que a poesia se aproxima demais da crítica ou da filosofia e se conforma com os limites impostos pela esfera estética de seu tempo ela perde força e se torna estéril. Saber seu limite é saber sacrificar-se, nos ensinou Hegel. Não há criação literária sem a quebra de alguma lei. Todo criador está condenado a agir como um criminoso. Esta é a verdade mais profunda da intuição de Kant: a grande obra põe, ela mesma, os critérios capazes de avaliá-la. Risca novas fronteiras para separar o estético do não-estético. Não acredito em poetas que leiam apenas poesia. Não acredito em poetas que não sejam políticos. Como Paul Valéry, cuja política é melancólica e de direita. Todo literato é um morto-vivo.

Irresponsável público (fragmento)

In Aforismas e fragmentos on 23/11/2010 at 21:05

para o querido Theodoro Wisegrundo

Uma boa parte dos consumidores de cultura prefere ver e ouvir obras e artistas legitimadas por alguma instância dotada de poder simbólico. Desta forma, podem eximir-se de exercitar seu senso crítico diante do “gênio” mainstream Paul Maccartney ou dos “gênios” alternativos Smashing Pumpkings.  Não gastam seu tempo com nada duvidoso, ainda que apenas levemente incômodo e fora do padrão.  Os consumidores não querem arriscar nada. Preferem voltar-se diretamente às “grandes obras”, aos “grandes escritores”, aos “grandes artistas” para economizar tempo de trabalho e queimar a própria carne em prol do sistema capitalista, tendo o consolo de saberem que são realmente “cultos” porque conhecem tudo “o que realmente importa conhecer”.

A cultura contemporânea vive a era da irresponsabilidade do público, cada vez mais passivo e subordinado, portanto, feliz e satisfeito. Não há mais underground ou mainstream, apenas diferentes instâncias de legitimação cultural que distribuem autorizações para gostar disto ou daquilo as quais também funcionam como sinais de distinção de classe. Valem prestígio e reconhecimento nesta sociedade de massas em que as aparências são cruciais para a competição no mercado diante da falta de tempo livre para conhecer e conviver com nossos semelhantes; diante das constantes trocas de emprego e mudanças de cidade ou país, em especial entre as classes altas.

A única alternativa é destruir a arte para que ela não se reduza a um papel ridículo. Por isso mesmo, hoje em dia, qualquer um deveria ser chamado de “artista”, pouco importando a qualidade, o poder de incomodar, de seu trabalho. Todo crítico, todo jornalista, todo editor, todo professor é, em potencial, um elemento do processo de reprodução deste estado de minoridade cultural. “Prefiro os que me criticam, porque me corrigem, aos que me elogiam, porque me corrompem”, disse Santo Agostinho.

O mapa

In Poemas para mim mesmo on 22/11/2010 at 0:42

Um lugar dentro da casa
no fundo de uma gaveta
atrás de algum armário
fechada em alguma caixa
no porão, no sótão, um baú
um bolso, um saco de pano
embrulhada em papel pardo
ou dentro de um envelope
colado com goma arábica
com certeza deve estar
a última mensagem do morto
verdade a ser encontrada
que eu não posso decifrar
olhando para cada ponto
e vasculhando cada linha
de tudo que está à vista.

E eu não posso desistir
lá dentro de cada armário
em cada muda de roupa
ou dentro de cada dente
na sola de cada bota
e dentro de toda parte
mesmo dentro da palavra
riscada de todo avesso
no canto de todo medo
e superfície sem fresta
na boca de cada réstia
lembrança de cada louça
embaixo de cada coisa
o vento da mesma pressa
o quanto ainda me resta
sem tempo de descansar.

A revolução

In Poemas para mim mesmo on 22/11/2010 at 0:11

A revolução é como uma ânsia
às vezes é como uma culpa
às vezes ela se faz de besta
e finge que não está nem aí
vestida com um terno risca de giz
comendo milho verde na porta do estádio
e vivendo como se fosse antes
ou como jamais teria sido
habitante do que aqui
ainda se espera.

Às vezes a revolução
tira o gosto de minha comida
a ração dos miseráveis
alguns minutos de ausência
a pausa no meio da frase
o passo que vem depois
do tempo que se imagina
mais tudo que não mereço
pois o que quer que eu faça
um hábito faz o monge.

A revolução é como uma culpa
espaço para ser o que é
a revolução é como uma ânsia
um nojo do próprio cheiro
a revolução é como uma pausa
que aparta som e sentido
passado do que não nasceu
a revolução ainda está em marcha.

Uma prece

In Poemas para mim mesmo on 21/11/2010 at 4:41

Depois de uma certa idade
não soa bem ter tantas dúvidas
um alicerce, nunca biruta
cimento dentro da viga mestra.

Depois de uma certa idade
não pega bem ter tanto medo
olhos fechados sem pára-quedas
olhos de lince cortando o vento.

Depois de uma certa idade
não faz sentido querer chorar
quem ouça nunca acreditaria
que tudo muda para nada mudar.

Nos bastidores da minha sanidade

In Poemas para mim mesmo on 21/11/2010 at 4:11

Nos bastidores da minha sanidade
se esconde um rato
eu organizo meu dia em três partes
em uma delas animal covarde.

Nos bastidores da minha sanidade
se move um corpo
eu organizo meu dia em três partes
em uma delas anjo torto.

Nos bastidores da minha sanidade
se entende pouco
eu organizo meu dia em três partes
em uma delas menino morto.

Trágico

In Poemas para mim mesmo on 21/11/2010 at 3:45

Escrevo sem projeto
como se respira
dentro e fora da linha
uma espécie de medo
uma parte de carne.

E o tempo se organiza
assim que eu me calo
o dia cortando por dentro
silêncio queimado de velas
eu mesmo de olhos vidrados.

Leia-me insepulto
leia-me velho
leia-me trágico.