José Rodrigo Rodriguez

A favor do verso livre!

In Aforismas e fragmentos on 23/08/2010 at 22:59

Um anti-manifesto ao avesso sem muita convicção

O perigo do verso livre é a perda de tensão e o perigo das formas fixas é o mesmo. Um poema ruim em verso livre soa como uma cronicazinha de segunda categoria – boa parte de poesia de hoje – cheia de observações engraçadinhas (ou levemente elevadas) sobre o mistério do mundo ou sobre um sentimento fófis, trágico ou social qualquer.

Frases de agenda são geniais, gosto muito.

Desde que fiquem nas agendas.

Um poema ruim em forma fixa se parece com um show de malabarismo enquanto o semáforo não abre. Primeiro com três pinos, depois com quatro pinos, depois com cinco pinos e com seis e com sete! Sete pinos em fogo sem uma das mãos, sete pinos em fogo sem as duas mãos!

Divertido, bom para esvaziar a cabeça. Proeza física sem nenhuma conseqüência. Vazia e oca como qualquer distração. Sou grato a todos os que me entretém. Mas sou mais grato aos artistas por vocação.

Que me desafiam de verdade.

Sem firulas.

Em suma, verso livre X forma fixa: uma falsa questão. No sentido da palavra, verso livre não existe, ele se faz necessário para dizer certas coisas. Como acontece com as formas fixas que se apresentam quando necessárias para fazer nascer bons poemas.

Todo poema deve ser lido individualmente. Estilo, formas fixas, tradição: tudo está em jogo no momento da expressão. Não há qualquer garantia.

A missão do poema é destruir a poesia.

O poema acontece na linguagem como a morte e o gozo acontecem no corpo. E como o tempo em Agostinho, eu sei reconhecê-lo quando ele aparece. Mas não me peçam para defini-lo.

A estabilização das formas vem depois do evento.

É resultado e não causa.

Os poetas devem tomar cuidado para não se viciarem em sua própria habilidade. Como os jogadores de futebol, devem aprender a chutar com as duas pernas. Devem aprender novos lances para aumentar suas chances de marcar gols nas mais diferentes situações.

É claro que a variação constante é impossível. Somos apenas seres humanos e cristalizamos certos comportamentos, gestos, hábitos. Alguns, Biro-Biro. Outros, Ronalducho (“Vai Curintcha!”).

Os hábitos em parte nos definem: poetas também têm o seu temperamento. Mas não se deve transformar temperamento em norma estética. Cada um faz o que pode e como pode, boa poesia ou má poesia.

Em verso livre ou não.

(…)

As formas fixas, supostamente mais exigentes, têm a vantagem de afastar os analfabetos. Mas a desvantagem de atrair esnobes e virtuosos exibidos. O verso livre, aparentemente simples, tem a vantagem de afastar os eruditos sem talento. Mas periga transformar qualquer engraçadinho em poeta.

Uma questão real talvez seja a facilidade de comunicação da poesia com as pessoas, com o público que se quer atingir. Talvez a forma fixa ou o verso livre tenham algum impacto sobre isso: falar mais simples, usar um tom mais elevado…

Mesmo aqui, acho a questão pouco relevante.

Há diversos públicos possíveis para a poesia, há gostos variados, há muita coisa a se dizer. Em verso livre ou em formas fixas, em verso ou prosa, em prosa ou verso. Basta saber dizer e inventar direito.

O verso livre surgiu para expandir as possibilidades expressivas: uma conquista de que não se deve abrir mão. Um poeta não pode dar-se ao luxo de abrir mão de nenhum recurso expressivo. Seu compromisso único é fazer bons poemas.

Pouco importa os meios.

Ou seja, apenas eles importam.

No limite de cada um

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  1. Só o poeta enxerga o óbvio.

  2. Obrigado pelos comentários!

  3. Adorei a imagem do malabarista no semáforo. Ficou linda!

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