José Rodrigo Rodriguez

Archive for agosto \31\UTC 2010|Monthly archive page

A assassina

In Poemas para mim mesmo on 31/08/2010 at 4:42

O seu filho está morto
no fundo da privada,
meu amor esconde o rosto
quando me vê chegar
no alto da alameda.

Meias de seda novas
para conter seu asco
brilho nos lábios, doce,
pinto as unhas dos pés:
hoje eu matei seu filho

e seu sangue me alimenta.

Uma assassina de vestido
longo, não ouço mais aquelas
mesmas vozes, seu filho
acena antes de submergir
e me despeço dele com saudade

do que teria sido: elementar.

Eu matei seu filho, seu sangue
tinge o meu vestido longo,
eu matei seu filho, eu não
mereço que se diga nada,

eu matei seu filho, seu ódio
será para sempre eterno: eu
matei seu filho, venha dizer
adeus: vai ter que ser agora.

Corpo Santo

In Poemas para mim mesmo on 30/08/2010 at 16:33

Cheiro cabelos
e nem palavras,
dente na nuca,
sopro divino,
torpor salgado,
que não anima,
e subtrai a alma:
completamente.

Já era hora:
eu viro bicho
ou animal que só
avança e caça, pul
sa e não se navega,
só como se sabe e
sempre se reage so
bre: sobreviver.

Olho vidrado,
corpo reteso,
a sua carne em
minha boca, gos
to, nem alma re
pleta, sopro que
se lembra e faz
em parte lenta

mente: como um
arrepio, corre, e se
represa, ao som des
ta sentença posta
pela carne tensa,
deslizando a língua
glande de animal,
ora sem sangue e ar,

ora sem alma e cor
po, que nem se aquie
ta e que também só
corpo, que vaga e só
se pulsa, espera e rega
o ventre, morde seiva so
pro, alma como em carne
viva, a carne espessa so

bre a língua, que nem nunca
nunca, nunca se aquieta, en
tre a mata densa, extrai água
cheirosa, som meio das per
nas, separadas como fossem
poço ou rio ou fonte desta
mesma água, tácita quieta,
mostra nesta boca, sempre ela,

como fosse que vertente, tanta
mesma, sobre a boca gota nunca
nunca, nunca fica seca, nunca vai
lambendo lábios e rangendo den
tes, carne alma que se perde vaga
em nós dois, sem alma, em nós dois,
sem corpo, inverso, em corpo de anti

santo, tanto que se agita a veste
que se rasga inteira, quando apenas
sugo esta seiva como estivesse te
bebendo, como estivesse te comen
do, como o animal que penso e sou,
o animal que penso e sou, o animal
que penso e sou, o animal que morde
ainda a sua boca tensa.

São Paulo sem simplificação

In Poemas para mim mesmo on 29/08/2010 at 16:44

São Paulo sem simplificação
sonhos sem nenhum eleito em versão dublada de alguma
cena de paz ou mesmo grito em milhões de versões originais
da mesma culpa que o herói com altivez olha bem nos olhos
como se soubesse exatamente o que fazer com esta
São Paulo sem simplificação.

São Paulo sem ponto de fuga
nenhum monte ou mar ou floresta verdejante
nenhuma fresta ou rochedo ou oásis que não seja
guardado por fumaça de metralhadoras, todas as
balas seriais ou mira individual, sempre na cabeça
São Paulo sem ponto de fuga.

São Paulo sem etapas
inspirações simultâneas em todos os seus pólos
jornais de merda escrevendo sobre ruas que ninguém
conhece e o crítico de gastronomia dizendo como é
pitoresco ir até a Mooca ou ao Ipiranga, burguês de merda
São Paulo sem etapas.

São Paulo vai destruir
qualquer joalheria guardada por soldados do Mossad
matar meninos e meninas bonitas sonhando com Barcelona
decepar traficantes e manos das sarjetas com seus sonhos de ladrão
mastigar duzentos policiais e trabalhadores por dia apenas cumprindo seu dever
e tantos pai de família quanto se possa suportar e tantas mães de família
para encobrir os estupros de seus filhos e filhas dentro do seu lar
de dentes quebrados sobre o carpete de madeira e hímem rasgado
pelos mesmos dentes tarados complacentes, pais e mães, São Paulo
exige toda a lucidez
São Paulo
exige todo sangue frio
toda ilusão impossível
mantidos os olhos abertos
São Paulo
toda simplificação:

aborte-se o plano
que não se alimente
de todos estes mortos
e destes vivos e sua carne mineral
São Paulo,
burguês de merda e
pobre de merda e
qualquer maniqueísmo
ou discurso moralista:
que seja anátema,
vá morrer em sua casinha
branquinha na beira do laguinho
cercado por gente de bem,
vá envelhecer na praia paradisíaca
desta rede embalando seus sonhos,
a brisa leve roçando seus cabelos:
vá ser feliz,
mas cala essa boca
e suma daqui.

Até quando?

In Poemas para mim mesmo on 29/08/2010 at 3:48

Ponte imóvel,
Sol e mais
Sol,
sapatos
e cravos,
rebites
e pregos,
aço, aço,
a mesma matéria dos sonhos
de febre cristalina,
animal petrificado:
a ponte respira,
até quando?

Pés caminham pregos
cravos sem rebites,
animal sem unhas
corpo sem passado
sangue sem inverno
Sol da meia noite
sempre caminhando
ponte liberada
sempre caminhando
animal sem unhas
sempre caminhando
a mesma matéria
sempre caminhando.

Medula

In Poemas para mim mesmo on 29/08/2010 at 2:15

Fabricar o silêncio
dedetizar
o último grilo,
veneno de ratos
nas folhas das árvores,
arrancar os arbustos
e parar o vento
telefone, email
memória, cortar
as cordas vocais
e arrancar as pupilas:
tudo que eu fizer
será pouco,
nada pode calar o som
riscando por dentro
a parede dos ossos,
esta falta, manhã
da noite que se seguiu,
sua boca sugando a medula
e cuspindo gordura e mágoas.

Nada pode calar.

Paulo

In Poemas para mim mesmo on 25/08/2010 at 4:33

para Badiou e Zizek

Não consultei a carne ou o sangue
nem escrevi cartas de alerta,
fui a Damasco em busca de Paulo,
para entender a fé de Cristo.

Quem vai me aceitar como eu sou?
Quem sabe tocar meu silêncio
num banho de sangue de touro
boca sem língua que se explica

em cifras de vida e de morte?
Um toque sem julgamento
ante a presença deste corpo
liberdade para ser naufrágo,

que o Senhor esteja convosco.

A favor do verso livre!

In Aforismas e fragmentos on 23/08/2010 at 22:59

Um anti-manifesto ao avesso sem muita convicção

O perigo do verso livre é a perda de tensão e o perigo das formas fixas é o mesmo. Um poema ruim em verso livre soa como uma cronicazinha de segunda categoria – boa parte de poesia de hoje – cheia de observações engraçadinhas (ou levemente elevadas) sobre o mistério do mundo ou sobre um sentimento fófis, trágico ou social qualquer.

Frases de agenda são geniais, gosto muito.

Desde que fiquem nas agendas.

Um poema ruim em forma fixa se parece com um show de malabarismo enquanto o semáforo não abre. Primeiro com três pinos, depois com quatro pinos, depois com cinco pinos e com seis e com sete! Sete pinos em fogo sem uma das mãos, sete pinos em fogo sem as duas mãos!

Divertido, bom para esvaziar a cabeça. Proeza física sem nenhuma conseqüência. Vazia e oca como qualquer distração. Sou grato a todos os que me entretém. Mas sou mais grato aos artistas por vocação.

Que me desafiam de verdade.

Sem firulas.

Em suma, verso livre X forma fixa: uma falsa questão. No sentido da palavra, verso livre não existe, ele se faz necessário para dizer certas coisas. Como acontece com as formas fixas que se apresentam quando necessárias para fazer nascer bons poemas.

Todo poema deve ser lido individualmente. Estilo, formas fixas, tradição: tudo está em jogo no momento da expressão. Não há qualquer garantia.

A missão do poema é destruir a poesia.

O poema acontece na linguagem como a morte e o gozo acontecem no corpo. E como o tempo em Agostinho, eu sei reconhecê-lo quando ele aparece. Mas não me peçam para defini-lo.

A estabilização das formas vem depois do evento.

É resultado e não causa.

Os poetas devem tomar cuidado para não se viciarem em sua própria habilidade. Como os jogadores de futebol, devem aprender a chutar com as duas pernas. Devem aprender novos lances para aumentar suas chances de marcar gols nas mais diferentes situações.

É claro que a variação constante é impossível. Somos apenas seres humanos e cristalizamos certos comportamentos, gestos, hábitos. Alguns, Biro-Biro. Outros, Ronalducho (“Vai Curintcha!”).

Os hábitos em parte nos definem: poetas também têm o seu temperamento. Mas não se deve transformar temperamento em norma estética. Cada um faz o que pode e como pode, boa poesia ou má poesia.

Em verso livre ou não.

(…)

As formas fixas, supostamente mais exigentes, têm a vantagem de afastar os analfabetos. Mas a desvantagem de atrair esnobes e virtuosos exibidos. O verso livre, aparentemente simples, tem a vantagem de afastar os eruditos sem talento. Mas periga transformar qualquer engraçadinho em poeta.

Uma questão real talvez seja a facilidade de comunicação da poesia com as pessoas, com o público que se quer atingir. Talvez a forma fixa ou o verso livre tenham algum impacto sobre isso: falar mais simples, usar um tom mais elevado…

Mesmo aqui, acho a questão pouco relevante.

Há diversos públicos possíveis para a poesia, há gostos variados, há muita coisa a se dizer. Em verso livre ou em formas fixas, em verso ou prosa, em prosa ou verso. Basta saber dizer e inventar direito.

O verso livre surgiu para expandir as possibilidades expressivas: uma conquista de que não se deve abrir mão. Um poeta não pode dar-se ao luxo de abrir mão de nenhum recurso expressivo. Seu compromisso único é fazer bons poemas.

Pouco importa os meios.

Ou seja, apenas eles importam.

No limite de cada um

Olho do cão (Entender sem pensar II)

In Poemas para mim mesmo on 22/08/2010 at 21:02

Olho do cão
ao abrir a porta
olho do cão
máquina de amor.

Olho do cão
não precisa nada
olho do cão
não me dá sossego.

Olho do cão
suspiro automático
olho do cão
muito fixamente.

Olho do cão
eu sempre mereço
olho do cão
apenas sentir.

Olho do cão
quem de lá me olha
olho do cão
quem de lá me espelha.

Olho do cão
sentir sem pensar
olho do cão
amor infinito.

Olho do cão
mas se todos fossem
olho do cão
sem fazer demandas
olho do cão
fábrica de vidro.

para Thamy

Entender sem pensar I

In Poemas para mim mesmo on 22/08/2010 at 4:08

As vacas pastando com vontade de comer
doritos
as vacas conversando e pedindo
salgados
as vacas insolúveis atravessando o rio raso
mú!

Fica depois do pasto sem cerca
fica sem cerca do pasto sentado
durante a tropa compactando-se
pata com pata casco capim toco
espasmo baba depois sem toca
entronca batido no chão de relha.

Vaca que poeta mú debanda mú evita
rio mú depressa mú eu canto esperando
mú entender sem pensar mú entender sem
eu vago mú pastando mú sem pressa mú
sem pressa mú
sem pressa mú
sem pressa mú

Pattern

In Poemas para mim mesmo on 11/08/2010 at 3:23

Por toda parte
espaços que se dissipam
como esta voz a entoar uma
canção de bem querer: lulaby.

Concentração, contralto,
mar sem sono que se vai indo,
as mãos em concha aconchegando
Europa e Trópicos em azáfama: pattern.

Riscando o ar à faca
os caminhos do som cruzam
veias cheias de carne viva: faz
frio quando se esquece e se canta: unlikely.

Agora o silêncio merecido: must,
mas, alguma coisa sempre diz, mesmo
neste esvaziar de sentido, espaço nu de
figuras, zumbido ambíguo construído para
enganar toda palavra ou letra que se insinue:
calado por merecimento, tom sobre tom: unlikely.