José Rodrigo Rodriguez

A atualidade da poesia lírica

In Aforismas e fragmentos on 21/07/2010 at 23:35

Não basta ser sujeito para ser indivíduo: a poesia lírica manterá sua atualidade enquanto houver quem resista às estruturas totalizantes que nos ameaçam.

Se o indivíduo não pode ser pensando fora da sociedade e livre de conceitos, como querem as ciências sociais e a filosofia contemporâneas, se ao falar o indivíduo já implica toda a cultura, toda a gramática que são a carne e o sangue do seu discurso; se a existência do indivíduo se deve a um processo de socialização e conformação psíquica que, de novo, traz de volta a sociedade e a cultura; enfim, se o indivíduo praticamente desaparece quando anda, quando pensa, quando fala e quando respira, onde afinal ele poderá estar? E quem ainda procura por este indivíduo desaparecido?

Nenhuma ditadura poderia suportar um poeta como Federico Garcia Lorca diz Theodor W. Adorno em “Lírica e Sociedade”. A poesia lírica fabrica as marcas de ruptura que se pretendem constitutivas de indivíduos implicados na experiência de ler a lírica. Eu poético e leitor, ambos envolvidos em uma mesma performance em que a experiência do texto procura explicitar a relação problemática entre indivíduo e ambiente. Pois a tarefa do eu poético na lírica é singularizar as palavras para deixar sua marca em cada um destes artefatos recolhidos da indeterminação cultural. A ambigüidade das palavras, que se resolve a cada uso, é o material da poesia e, por excelência, da poesia lírica.

A menos que ela pretenda fingir que nada está acontecendo, que vivemos em harmonia com a sociedade e com a natureza, que damos bom dia para flores na janela e saudamos o deus Sol a cada alvorecer, que somos capazes de aplacar uma fera terrível e abraçar nosso maior inimigo, como diria o rei Roberto, que não há discórdias religiosas profundas e preconceitos de toda espécie na forma do tecido social, toda lírica pretende ser dissonância. E a boa lírica o é, pois o sucesso da lírica está no choque com o inusitado de um indivíduo que, de alguma maneira, surge – e cada poema lírico é prova empírica desse como – diante de uma paisagem cinzenta e homogênea.

Pode não dar certo. Nem sempre o poema funciona. Se todas as crianças fossem realmente especiais, de onde surgiriam tantos adultos medíocres?

O sucesso da lírica está em despertar o desejo de manter-se na sua presença e promover a renúncia do desejo oceânico de unir-se ao indeterminado. Desejo que obriga a negar o indivíduo para acalmar a ebulição interna que ele causou. Para evitar as mudanças que, inevitavelmente estão implicadas no processo: ver-se como ele, sozinho e singular, obrigado a dar sentido para a própria solidão. Obrigado a assumir a responsabilidade pela própria vida que, também neste caso, é a morte pela negativa. E dar-se conta desta marca da modernidade ocidental: um mundo demagificado, cujo sentido não é imanente, mas se precisa pôr, construir socialmente.

Aqui a atualidade da lírica. Outros exemplos.

Doentes de paixão abandonam tudo em nome da vida que sonham poder ter, em nome da simbiose supostamente capaz de fazer sumir a responsabilidade de ser indivíduo. Por isso mesmo, eles também são capazes de destruir e matar se este ato mantiver distante qualquer ameaça à perfeição da irresponsabilidade projetada: desejo de matar a lírica e destruir suas bases sociais. Também encenações de falsa subjetividade, marcas de ruptura que remetem a grupos, tribos e comunidades mais ou menos legítimas, mais ou menos desprezíveis, formadas por religiosos, maçons, bebedores de certa marca de cerveja ou de refrigerante. Donos de certa marca de carro ou de vide-game: todos eles buscando reacender a chama do desejo oceânico que tal distinção parece promover ao uni-los ao grupo.

Também aqui o desejo de matar a lírica: alguns conversam apenas para reforçar seus preconceitos, para encontrar a confirmação de suas razões, mesmo que esdrúxulas, irracionais, disparatadas. Pessoas assim nunca compreenderão a lírica. Outros conversam para se surpreender; para entrar em contato com pensamentos novos e novos pontos de vista; para buscar o inusitado e o singular de um indivíduo e de suas idiossincrasias. Pessoas assim, com certeza, não podem evitar amar a lírica. Pois não desejam viver em harmonia com um universo pacificado a qualquer custo e nunca encontrarão, definitivamente, um sentido para o mundo e para si mesmas.

Porque o indivíduo também muda e se refaz.

A lírica é esta conversa que não deixa ninguém em paz.

Anúncios
  1. Muito bom! Sei que v. já se ocupa demais de teoria. Mas é essa teoria, não a outra, que os leitores do POETA José Rodrigo queremos ler. (Embora a raiz de ambas, claro está, seja a mesma.) Abração. E.

  2. Obrigado! Aos poucos as coisas vão tomando forma…

  3. E que forma! Quando eu crescer quero ser igual a você. Levemente parecida pelo menos. Gostaria de saber a que filósofos contemporâneos você se refere no primeiro parágrafo. Obrigada 🙂

    • Obrigado pelo comentário! Quanto aos filósofos, pode ler Jürgen Habermas e Axel Honneth por exemplo.

  4. Obrigado pelo comentário! Quanto aos filósofos, pode ler Jürgen Habermas e Axel Honneth por exemplo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: