José Rodrigo Rodriguez

Meu país, 2009

In Poemas para mim mesmo on 12/07/2010 at 1:32

Eu pergunto pelas horas
só o silêncio responde,
os amigos dos filhos dos amigos
correm em volta da ampulheta e espetam
mini-salsichas com palitos ao molho,
comem chocolate com colheres compridas
sem relógio, sem fronteiras,
sem canteiros, sem remédio.

Com relógios de plástico,
só o silêncio responde,
eu pergunto pelo tempo no silêncio que se instala
cada dia mais um pouco, estes filhos dos amigos
dos amigos que já fôra, mais as tantas suas vozes
agora, no lugar de tudo, no lugar de tanta coisa,
é tudo sobre o que se fala, algumas mortes também,
é tudo o que frutifica, não há mais ilusão alguma
nas linhas de telefone e nos sofás encravados
nas salas de espera.

Cada dia mais um pouco:
eu pergunto pelo tempo
sem resposta,
eu pergunto pela noite
que se curva,
haste,
se comprime, se eleva e subtrai,
aguda como o avesso de um espinho
cravado na garganta desta voz
já sem remédio.

Voz molhada com o molho
de mostarda
de que tudo já mudou,
mini-salsichas com cebola
e o que mais nos alimenta:
tudo aquilo que, agora,
não importa mais em mim,
e o que eu nunca mais direi,
e o que eu nunca mais serei
nestas salas barulhentas,
canções e horas de plástico
de um silêncio que se instala
aqui, na sua presença:

Para sempre
meu país,
eu digo,
adeus.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: