José Rodrigo Rodriguez

Archive for julho \29\UTC 2010|Monthly archive page

Tão longe, tão perto

In Poemas para mim mesmo on 29/07/2010 at 10:40

Já não temos mais tanto tempo assim,
muito obrigado por ficar calado enquanto
eu comia cinco pedaços de bolo e discutia
com minha irmã mais nova, obrigado por
notar meu corte de cabelo, pelos ingressos
para a Adriana Calcanhoto, a blusa azul
escondida no fundo armário rendeu mais
de quarenta minutos de atraso, a comida
estava fria, a bebida quente, meu pai não
gosta mesmo de você, já não temos mais
tempo, não dá para aguardar mais ninguém,
não podemos esperar por mais nada: ilusão
ou surpresa, futuro ou pão, suspiro ou cidade.

Vá pegando o carro na garagem de baixo,
vá pagando as compras enquanto eu troco
a lata amassada, vá na frente que eu te alcanço
no parque, só preciso terminar de limpar estes
copos, vá buscar seu irmão no aeroporto que
eu fico aqui trabalhando, pode ir ao cinema
com o Francisco, eu não estou com vontade
de sair de casa, demora muito a maquiagem,
não estou a fim de cerveja e pinga, lá é tudo
muito feio e muito quente, compre pilhas no
caminho de volta: porque você resolveu ir
embora e me deixou aqui sozinha? Ainda
espero por você, está ficando muito tarde,
ainda espero por você, seu celular desligado,
ainda espero por você, sem você eu não me
entendo, tão longe, tão perto.

Nós dançamos

In Poemas para mim mesmo on 25/07/2010 at 18:34

There is no castration fear
In a chair you will be with me
We’ll dance

“We dance”, Pavement

“Nada é fácil”, disse a professora de dança,
ao homem de terno cinza sentado a seu lado.

Dividimos o passado com pessoas
que nunca conheceremos, como os dois,
ali, conversando sobre tantas coisas
comuns, mas pela primeira vez:
“Nada é mesmo fácil”.

Para dançar é preciso reaprender a andar,
descobrir novos movimentos no tronco e
nos quadris, é preciso reaprender a sentar,
a abrir e a fechar os braços, é preciso reaprender
a olhar e a caminhar, mesmo que seja casualmente,
quem dança, não pode tomar mais nada,
como se fosse o óbvio.

A atualidade da poesia lírica

In Aforismas e fragmentos on 21/07/2010 at 23:35

Não basta ser sujeito para ser indivíduo: a poesia lírica manterá sua atualidade enquanto houver quem resista às estruturas totalizantes que nos ameaçam.

Se o indivíduo não pode ser pensando fora da sociedade e livre de conceitos, como querem as ciências sociais e a filosofia contemporâneas, se ao falar o indivíduo já implica toda a cultura, toda a gramática que são a carne e o sangue do seu discurso; se a existência do indivíduo se deve a um processo de socialização e conformação psíquica que, de novo, traz de volta a sociedade e a cultura; enfim, se o indivíduo praticamente desaparece quando anda, quando pensa, quando fala e quando respira, onde afinal ele poderá estar? E quem ainda procura por este indivíduo desaparecido?

Nenhuma ditadura poderia suportar um poeta como Federico Garcia Lorca diz Theodor W. Adorno em “Lírica e Sociedade”. A poesia lírica fabrica as marcas de ruptura que se pretendem constitutivas de indivíduos implicados na experiência de ler a lírica. Eu poético e leitor, ambos envolvidos em uma mesma performance em que a experiência do texto procura explicitar a relação problemática entre indivíduo e ambiente. Pois a tarefa do eu poético na lírica é singularizar as palavras para deixar sua marca em cada um destes artefatos recolhidos da indeterminação cultural. A ambigüidade das palavras, que se resolve a cada uso, é o material da poesia e, por excelência, da poesia lírica.

A menos que ela pretenda fingir que nada está acontecendo, que vivemos em harmonia com a sociedade e com a natureza, que damos bom dia para flores na janela e saudamos o deus Sol a cada alvorecer, que somos capazes de aplacar uma fera terrível e abraçar nosso maior inimigo, como diria o rei Roberto, que não há discórdias religiosas profundas e preconceitos de toda espécie na forma do tecido social, toda lírica pretende ser dissonância. E a boa lírica o é, pois o sucesso da lírica está no choque com o inusitado de um indivíduo que, de alguma maneira, surge – e cada poema lírico é prova empírica desse como – diante de uma paisagem cinzenta e homogênea.

Pode não dar certo. Nem sempre o poema funciona. Se todas as crianças fossem realmente especiais, de onde surgiriam tantos adultos medíocres?

O sucesso da lírica está em despertar o desejo de manter-se na sua presença e promover a renúncia do desejo oceânico de unir-se ao indeterminado. Desejo que obriga a negar o indivíduo para acalmar a ebulição interna que ele causou. Para evitar as mudanças que, inevitavelmente estão implicadas no processo: ver-se como ele, sozinho e singular, obrigado a dar sentido para a própria solidão. Obrigado a assumir a responsabilidade pela própria vida que, também neste caso, é a morte pela negativa. E dar-se conta desta marca da modernidade ocidental: um mundo demagificado, cujo sentido não é imanente, mas se precisa pôr, construir socialmente.

Aqui a atualidade da lírica. Outros exemplos.

Doentes de paixão abandonam tudo em nome da vida que sonham poder ter, em nome da simbiose supostamente capaz de fazer sumir a responsabilidade de ser indivíduo. Por isso mesmo, eles também são capazes de destruir e matar se este ato mantiver distante qualquer ameaça à perfeição da irresponsabilidade projetada: desejo de matar a lírica e destruir suas bases sociais. Também encenações de falsa subjetividade, marcas de ruptura que remetem a grupos, tribos e comunidades mais ou menos legítimas, mais ou menos desprezíveis, formadas por religiosos, maçons, bebedores de certa marca de cerveja ou de refrigerante. Donos de certa marca de carro ou de vide-game: todos eles buscando reacender a chama do desejo oceânico que tal distinção parece promover ao uni-los ao grupo.

Também aqui o desejo de matar a lírica: alguns conversam apenas para reforçar seus preconceitos, para encontrar a confirmação de suas razões, mesmo que esdrúxulas, irracionais, disparatadas. Pessoas assim nunca compreenderão a lírica. Outros conversam para se surpreender; para entrar em contato com pensamentos novos e novos pontos de vista; para buscar o inusitado e o singular de um indivíduo e de suas idiossincrasias. Pessoas assim, com certeza, não podem evitar amar a lírica. Pois não desejam viver em harmonia com um universo pacificado a qualquer custo e nunca encontrarão, definitivamente, um sentido para o mundo e para si mesmas.

Porque o indivíduo também muda e se refaz.

A lírica é esta conversa que não deixa ninguém em paz.

Cadê Narinha? (letra para banda de axé inexistente)

In Letras para artistas inexistentes on 17/07/2010 at 22:58

Narinha entrou no cordão e sumiu!
Hoje Narinha é todo o carnaval!
Narinha foi pra avenida e saiu!

Cadê Narinha?
Ê!
Cadê Narinha
Á!
Cadê Narinha?
Oi!
(repete)

Narinha hoje é só de manhã!
Hoje Narinha é todo carnaval!
Narinha vibra esse seu talismã!

Cadê Narinha?
Ê!
Cadê Narinha
Á!
Cadê Narinha?
Oi!
(repete)

Todos vão procurar por Narinha!
Todos querem saber de Narinha!
É Narinha e o seu talismã!
Agora!
Ê!
Á!
Oi!

De novo!
Ê!
Á!
Oi!

Vírus de amor (letra para cantor romântico inexistente)

In Letras para artistas inexistentes on 17/07/2010 at 21:58


Seu cheiro faz sonhar e na pele alucina,
meu corpo se envaidece de suprir o seu desejo,
só quero me embrenhar no regaço do seu beijo,
só quero é viver essa paixão que contamina.

Você vem do meu lado se esfregando atrevida,
se achega como água pra matar a minha sede,
me toma como presa pra guardar na sua rede,
seu corpo de paixão e de maldade cristalina.

Doente desse vírus que é paixão,
essa dor,
só me fortalece!
Intenso, alucinado de amor,
esse beijo,
ninguém mais se esquece!

Você que já é parte do meu ser,
eu sonho de pensar em te querer,
e fico esperando pra te ver,
nessa dor, que só me enriquece!

Adicional insalubridade (punk rock para banda inexistente)

In Letras para artistas inexistentes on 17/07/2010 at 21:04

Eu cheiro gases tóxicos,
vinte por cento a mais
eu manipulo químicos,
vinte por cento a mais
fuligem nos pulmões,
vinte por cento a mais,
calor insuportável,
vinte por cento a mais.

(Refrão)
Dinheiro em troca da saúde,
reais em troca de um pulmão,
um fígado, à vista, manipulação,
meu corpo está em leilão!
Quem dá mais?

Preciso trabalhar,
vinte por cento a mais,
luvas de proteção,
vinte por cento a mais,
equipamento falho,
vinte por cento a mais,
sangrando a minha pele
vinte por cento a mais.

Não vão pagar mais nada,
vinte por cento a mais,
a culpa agora é minha,
vinte por cento a mais,
equipamento falho,
vinte por cento a mais,
sangrando meus ouvidos,
vinte por cento a mais.

Não posso suportar!
Quem dá mais?
Quem dá mais?
Quem dá mais?

(Refrão)
Dinheiro em troca da saúde,
reais em troca de um pulmão,
um fígado, à vista, manipulação,
meu corpo está em leilão!
Quem dá mais?
Quem dá mais?

A minha vida à vista,
preciso trabalhar,
salário é de fome,
equipamento falho:
Quem dá mais?
Quem dá mais?
Quem dá mais?

Ode a Esparta?

In Poemas para mim mesmo on 15/07/2010 at 16:27

Famílias olham torto o casal gay de mão dadas
no supermercado, famílias acham que algumas
coisas não são de bom tom, famílias matriculam
seus filhos em colégios tradicionais porque não
suportam mais novidades na educação das crian-
ças, famílias dizem que quando mais jovens eram
muito ingênuas, famílias encobrem estupros dos
pais, filhos e filhas, as mães de família dizem para
si mesmas que nada aconteceu, famílias gostam de
usar o bom senso para uma vida sem exageros, fa-
mílias não acham saudável que as crianças entrem
em contato com tanta violência na TV, famílias gos-
tariam que pedófilos fossem mortos ou recebessem
penas perpétuas, que maconheiros e traficantes ficas-
sem longe de seus filhos e filhas, famílias acham mui-
to estranho que casais gays adotem crianças, famílias
chamam empregadas domésticas de empregadinhas,
mas apenas no aconchego do lar, nunca em público,
famílias às vêzes se irritam com porteiros e faxinei-
ros nortistas, famílias acham que a polícia prende e
os juízes soltam, famílias às vezes se reúnem para
discutir sobre tudo isso e ridicularizar seus filhos
afeminados na frente de todos, famílias chamam
suas filhas, tias e primas de galinhas e vagabundas,
famílias brigam por centavos e deixam de visitar pa-
rentes nos hospitais e depois se acusam em público,
famílias gostam de morar em bairros cheios de famí-
lias e comer em restaurantes cheios de famílias, há
famílias boas e famílias más, certamente, pois ago-
ra os gays também querem casar e ter o direito le-
gal de constituir famílias, aos olhos da lei, exercitar
seu direito fundamental de assumir a nobre funcão
de reproduzir a sociedade ao constituir sua célula
mais fundamental, alma mater, base de tudo e de
todos: famílias.

Esquimós e tuaregues

In Poemas para mim mesmo on 14/07/2010 at 20:57

Como a neve para os esquimós,
o cimento teria mais de um milhão de nomes,
Inuit, Yupik e Yuit,
Avenida Joaquim Eugênio de Lima, Rua
da Móoca, Avenida Sapopemba, Rua Euclides
Pacheco, Estrada do Campo Limpo, Rua Augusto
Carlos Bauman, Rua Dr. Clementino,
Inuit, Yupik e Yuit.

O antropólogo Franz Boas
por volta de 1911, compenetrado,
tentava entender as diferenças cruciais entre os povos
mapeando variações lingüísticas as mais significativas:
não deu certo,
o inglês também tem mil nomes
para Snow, Sleet, Slush,
Avalanche, Blizzard, Ice,
Freeze, Frozen, Hail,
Snowball, Snowflake,
Snowstorm, Snowblind,
Snowfall, Snowman,
Snowdrift, Snowplow.

Mas há mais mistérios no mundo
à espera de pessoas como ele,
o antropólogo Franz Boas,
ou outro profissional do ramo que,
compenetrado,
decida se entregar à tarefa
de compreender bem a fundo
os nomes dos mitos
e a estrutura das línguas,
mais tudo que houver em comum
(os tantos nomes para o cimento)
entre chineses e bosquímanos,
tuaregues e bolivianos
mais tantos povos ocultos
por matas cerradas e montanhas,
por portões de madeira e aço.

O antropólogo Franz Boas,
ou mesmo um colega seu;
pode ser que ele tenha mais sucesso
com os esquimós que trabalham
por comida
em fábricas de óleo de baleia
na Lapa,
com os malaios que trabalham
por abrigo
em confecções clandestinas
no Bom Retiro,
com os maori que trabalham
por água
em minas de carvão perfuradas
sob as ruas movimentadas dos Jardins.

Por toda cidade de São Paulo,
por detrás de seus tapumes,
lugar de tantos mistérios
e cartas no fundo das gavetas,
tantos nomes de cimento
sepultados em covas
clandestinas.

Meu país, 2009

In Poemas para mim mesmo on 12/07/2010 at 1:32

Eu pergunto pelas horas
só o silêncio responde,
os amigos dos filhos dos amigos
correm em volta da ampulheta e espetam
mini-salsichas com palitos ao molho,
comem chocolate com colheres compridas
sem relógio, sem fronteiras,
sem canteiros, sem remédio.

Com relógios de plástico,
só o silêncio responde,
eu pergunto pelo tempo no silêncio que se instala
cada dia mais um pouco, estes filhos dos amigos
dos amigos que já fôra, mais as tantas suas vozes
agora, no lugar de tudo, no lugar de tanta coisa,
é tudo sobre o que se fala, algumas mortes também,
é tudo o que frutifica, não há mais ilusão alguma
nas linhas de telefone e nos sofás encravados
nas salas de espera.

Cada dia mais um pouco:
eu pergunto pelo tempo
sem resposta,
eu pergunto pela noite
que se curva,
haste,
se comprime, se eleva e subtrai,
aguda como o avesso de um espinho
cravado na garganta desta voz
já sem remédio.

Voz molhada com o molho
de mostarda
de que tudo já mudou,
mini-salsichas com cebola
e o que mais nos alimenta:
tudo aquilo que, agora,
não importa mais em mim,
e o que eu nunca mais direi,
e o que eu nunca mais serei
nestas salas barulhentas,
canções e horas de plástico
de um silêncio que se instala
aqui, na sua presença:

Para sempre
meu país,
eu digo,
adeus.

Moóca, 1977

In Poemas para mim mesmo on 04/07/2010 at 17:44

Foto Marc Ferrez: Rio Tamanduateí, 1890.

Às margens do Tamanduateí,
brincadeira e calmaria
enquanto a água subia,
em um quartinho apertado,
lá no alto da edícula:
enquanto a água subia,
tecidos, caixas e livros,
a água entrando na vila.

No quartinho lá brincando,
nos espaços que eu abria
enquanto a água subia,
palavras, linhas, agulhas,
móveis sobre plataformas
enquando a água subia,
minha avó lá me levando,
rindo, indo, rezando baixinho.

Minha avó então achava
que de lá eu nada via,
enquanto a água subia,
as comportas na entrada,
seu vestido cor laranja,
enquanto a água subia,
eu lendo compenetrado,
sem ninguém para conversar.

Enquanto a água subia,
entrava e tomava a vila,
enquanto a água subia,
o menino, lá quieto
só pensava em se afogar.