José Rodrigo Rodriguez

O Cosmonauta

In Poemas para mim mesmo on 18/06/2010 at 14:34


Enquanto eu me dava o luxo de flutuar sobre o planeta,
lembrei da pele seca esticada sobre o crânio do meu avô
e minha avó, de tão poucos dentes; enquanto eu fazia
das minhas manobras estratosféricas, lembrei do tio
intoxicado por mercúrio em seu pijama de aposentado
incapaz precoce; lá dentro do meu foguete não lembrei
direito se em algum deles faltava algum membro ou algum
dedo, mas lembrei das muitas caixas de ovos as cinco horas
da manhã em uma Vila Gulherme fria a caminho da feira que
ficava embaixo do viaduto no Cambuci e de meu pai varrendo a loja
e entregando tecidos por toda a cidade e de minha mãe tingindo sacos
de batata para fazer calcinha e dividindo uma pêra em quatro pedaços
com seus irmãos; em minhas acoplagens espaciais, muitas vezes,
é preciso um trabalho suplementar e um esforço inaudito
para que eu simplesmente não decida aterrissar
em razão da culpa.

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