José Rodrigo Rodriguez

Nojo

In Poemas para mim mesmo on 18/06/2010 at 11:48

Parece estranho que eu não saiba
depois de quase de trinta anos
deste escrutínio mais que diário
desta palavra obstinada
de que mais nada vão escapa
o que é preciso ainda fazer
para juntar na mesma toada
quaisquer dois versos co-necessários.

As operações mais simples
como abrir uma lata ou pregar
um botão, tudo mantive sobre
o escrutínio de um olhar mais que
cerrado, numa constante atenção
feroz e mesmo em dias de devaneio,
tudo foi sempre mencionado: cumpri
com o dever de transformar em palavra,
o que existe e o que não existe, até mesmo
as coisas menos percussíveis
como os hiatos.

E mesmo assim hoje eu estou aqui,
entre silêncios descomunais, espremido,
olhando para fora de mim, de um lugar
que conheço muito pouco, ainda menos do que
deveria; esta minha casa, em que sempre
perco as chaves logo ao entrar, em que
nunca me lembro onde estão os cheques,
os carnês, as cuecas, os abridores, as garrafas
de vodka, as canetas; e mesmo assim eu estou
aqui, olhando e olhando para todos os lados,
sem uma réstia de cimento ou tijolos para
construir uma ponte que juntasse estes dois
continentes: dois versos simples, que qualquer um
poeta iniciante não teria medo de ligar graciosamente:
algum dia eu já não tive assim tanto medo, eu já me
arrisquei bem mais, eu já cometi bem mais crimes,
eu já tive bem menos nojo
de mim mesmo.

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  1. V. tá escrevendo cada vez melhor! Abração e saudades. E.

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