José Rodrigo Rodriguez

Archive for junho \26\UTC 2010|Monthly archive page

Álea

In Poemas para mim mesmo on 26/06/2010 at 2:09

“Se ele ainda estivesse vivo
o que seria hoje de mim?”,
perguntou sobre seu pai
meu pai morto, ambos,
há muito desnecessários.

Diante das duas mortes
hoje eu espero pelo sono,
o livro aberto nesta página
álea e os dias que virão
se ele ainda estivesse vivo,

os dias que talvez virão
palavra, página, álea.

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Receita para fabricar uma tirana ou um tirano

In Aforismas e fragmentos on 23/06/2010 at 1:53

“Os meus problemas são nossos, os seus problemas são seus”.

* * *

“Agradeça-me muito, muito, muito porque tentei fazer o que deveria, mas não consegui”.

* * *

“O importante é aparecer bem na foto”.

* * *

“Não quero saber de problemas, mas de soluções”.

* * *

“O que deu certo é resultado do trabalho de equipe, o que deu errado é culpa sua”.

* * *

“Vou te contar todos os meus problemas, mas não quero ouvir nada negativo hoje porque estou muito deprimido(a)”.

* * *

“Todos os meus problemas são graves e complexos, todos os seus problemas são de fácil solução. Basta um pouco mais de bom senso e esforço.”

* * *

“Eu trabalho e me esforço muito mais do que qualquer um que eu conheça”.

* * *

“Minha liberdade começa, mas nunca termina”.

* * *

“Amo todas as pessoas que sempre me ouvem, dizem que estou certo(a) e fazem tudo o que eu quero”.

* * *

“Eu sou muito sincero(a) e muito verdadeiro(a) por isso digo tudo o que eu penso; ou as pessoas me amam ou as pessoas me odeiam: não há meio termo”.

Fato

In Poemas para mim mesmo on 21/06/2010 at 1:14

O corpo será mais eficaz com o tempo:
neste lugar em que se articulam
voz, conceito e pensamento,
ecos devolvem sobre a pele,
algumas tantas miragens.

Um discurso, um gesto, um beijo,
o que for mais rápido.

Alguns conteúdos, algumas mensagens,
tantas imagens e margens de barcos,
tantas idéias e sentimentos: o corpo
será sempre mais eficaz com o tempo,
e quando ainda não houver mais tempo,
este corpo, que eu ofereço magro,
para encher de novo este poço
que orienta o curso reto
dessas iníquas mulheres secas.

Um gesto ou qualquer outro sinal
de amor, uma queixa, este sonho
prostrado atrás da última gaveta,
meu pau, atravessado em sua boca,
um corpo, mais eficaz que o fato.

A missão da arte

In Aforismas e fragmentos on 18/06/2010 at 20:31

para Alexandre Dal Farra

É dever de todo artista cuspir na cara de seu público.

O Cosmonauta

In Poemas para mim mesmo on 18/06/2010 at 14:34


Enquanto eu me dava o luxo de flutuar sobre o planeta,
lembrei da pele seca esticada sobre o crânio do meu avô
e minha avó, de tão poucos dentes; enquanto eu fazia
das minhas manobras estratosféricas, lembrei do tio
intoxicado por mercúrio em seu pijama de aposentado
incapaz precoce; lá dentro do meu foguete não lembrei
direito se em algum deles faltava algum membro ou algum
dedo, mas lembrei das muitas caixas de ovos as cinco horas
da manhã em uma Vila Gulherme fria a caminho da feira que
ficava embaixo do viaduto no Cambuci e de meu pai varrendo a loja
e entregando tecidos por toda a cidade e de minha mãe tingindo sacos
de batata para fazer calcinha e dividindo uma pêra em quatro pedaços
com seus irmãos; em minhas acoplagens espaciais, muitas vezes,
é preciso um trabalho suplementar e um esforço inaudito
para que eu simplesmente não decida aterrissar
em razão da culpa.

Nojo

In Poemas para mim mesmo on 18/06/2010 at 11:48

Parece estranho que eu não saiba
depois de quase de trinta anos
deste escrutínio mais que diário
desta palavra obstinada
de que mais nada vão escapa
o que é preciso ainda fazer
para juntar na mesma toada
quaisquer dois versos co-necessários.

As operações mais simples
como abrir uma lata ou pregar
um botão, tudo mantive sobre
o escrutínio de um olhar mais que
cerrado, numa constante atenção
feroz e mesmo em dias de devaneio,
tudo foi sempre mencionado: cumpri
com o dever de transformar em palavra,
o que existe e o que não existe, até mesmo
as coisas menos percussíveis
como os hiatos.

E mesmo assim hoje eu estou aqui,
entre silêncios descomunais, espremido,
olhando para fora de mim, de um lugar
que conheço muito pouco, ainda menos do que
deveria; esta minha casa, em que sempre
perco as chaves logo ao entrar, em que
nunca me lembro onde estão os cheques,
os carnês, as cuecas, os abridores, as garrafas
de vodka, as canetas; e mesmo assim eu estou
aqui, olhando e olhando para todos os lados,
sem uma réstia de cimento ou tijolos para
construir uma ponte que juntasse estes dois
continentes: dois versos simples, que qualquer um
poeta iniciante não teria medo de ligar graciosamente:
algum dia eu já não tive assim tanto medo, eu já me
arrisquei bem mais, eu já cometi bem mais crimes,
eu já tive bem menos nojo
de mim mesmo.