José Rodrigo Rodriguez

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Franz Leopold Neumann (1900–1954)

In Direito e Teoria Critica on 31/03/2010 at 22:48

Escrevi esta pequena biografia de Franz Neumann para a tradução brasileira de The Rule of Law que sairá em breve pela Ed. Quartier Latin, com meu prefácio. A idéia era escrever um texto neutro e objetivo. Ao ler o resultado final, vi meus traços por todos os lados. Daí resolver publicá-lo aqui.

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Franz Leopold Neumann (23 de Maio de 1900 – 2 de Setembro de, 1954), ao lado de Otto Kirchheimer, Jürgen Habermas e Klaus Günther, é um jurista ligado à Teoria Crítica da sociedade. Mais conhecido por seu livro sobre o Nazismo, Behemoth, referência central para o estudo do tema, tem sido redescoberto como teórico do direito e recebido atenção de autores contemporâneos como Stanley Paulson, Ulrich K. Preus, Axel Honneth, Claus Öffe e William E. Scheuermann.

Franz Neumann foi advogado trabalhista e militante de esquerda no começo do século XX na Alemanha. Ainda estudante, apoiou a frustrada Revolução de 1918 e filiou-se ao Partido Social-Democrata (SPD). Estudou direito em Breslau e Frankfurt e escreveu um Doutorado em 1923, ainda inédito, com o título: Introdução Jusfilosófica a um Tratado sobre a Relação entre Estado e Pena (Rechtsphilophische Einleitung zu einer Abhandlung über das Verhältnis Von Staat und Stafe). Foi assistente de Hugo Sinzheimer, pioneiro do Direito do Trabalho alemão, e deu aulas na escola para sindicatos afiliada à Universidade de Frankfurt. De 1928 a 1933 dividiu escritório com Ernest Fraenkel, advogado e jurista especializado em Direito do Trabalho, autor de um estudo importante sobre o nazismo O Estado Dual. Entre 1932 e 1933 foi advogado do SPD.

Durante todo este período, escreveu textos sobre direito do trabalho e direito econômico reunidos em coletâneas publicadas em alemão, italiano e inglês. Ainda em 1933, nas semanas seguintes à ascensão dos nazistas ao poder, diante de sua prisão iminente, foi obrigado a fugir da Alemanha.

Fixa-se em Londres em razão de sua ligação com o socialista fabiano e Professor da London School of Economics, Harold Laski que havia feito publicar um de seus artigos sobre questões trabalhistas. Em 1936 escreve The Rule of Law,  seu segundo doutorado que só viria a ser publicado na década de 80. Foi orientado por Laski e influenciado por Karl Mannheim, também professor da LSE e ex-professor de sociologia de Frankfurt. Neste mesmo ano Neumann inicia sua colaboração com o Instituto de Pesquisas Sociais, estabelecido no exílio. Trabalha como administrador, consultor jurídico e pesquisador da instituição, mas sua relação com o Instituto é atribulada. Neumann discordava da interpretação do Nazismo defendida por Friedrich Pollock e Max Horkheimer, que gira em torno do conceito de “capitalismo de estado”. A divergência está registrada em Behemoth e resultou em sua marginalização e posterior exclusão do Instituto; mesmo destino que mereceram Walter Benjamin e Hebert Marcuse. Todos eles ousaram discordar da linha teórica conduzida com mão de ferro pelo diretor Max Horkheimer.

A publicação de Behemoth em 1942, escrito no contexto do Instituto de Pesquisas Sociais, deu grande projeção a Neumann. O livro foi elogiado por C. Wright Mills, um dos grandes sociólogos dos EUA, autor do estudo seminal The Power Elite e marcou sua aproximação da Universidade de Colúmbia, instituição à qual o Instituto estava afiliado, e do Governo dos EUA. Neumann tornou-se Professor de Ciência Política em Colúmbia em 1948, mas antes disso, a partir de 1943, trabalhou como consultor do Departamento de Assuntos Econômicos da OSS (Office of Strategic Services) e, a seguir, Chefe da Seção da Europa Central do Setor de Análise da mesma instituição, ao lado de diversos outros jovens professores. Esta posição permitiu a Neumann acolher outros intelectuais renegados pelo Instituto, dispensados por Max Horkheimer, como Herbert Marcuse e Otto Kirchheimer.

A atividade de Neumann neste posto foi estudada em detalhes por Michael Salter (Nazi War Crimes, US Intelligence and Selective Prosecution at Nuremberg: Controversies Regarding the Role of the Office of Strategic Services, Routledge-Cavendish, 2007). Suas tarefas incluíam a identificação de nazistas com o fim de responsabilizá-los futuramente por crimes de guerra e fornecer informações que pudessem enfraquecer o regime nazista. Em 1944, Neumann tomou parte na elaboração de um plano para a desnazificação da Alemanha. Suas posições foram vencidas em razão da Guerra Fria. Em nome do combate ao comunismo, para evitar seu avanço sobre a Europa, os EUA tomaram atitudes no mínimo discutíveis em relação a vários participantes do regime nazista. Michael Sandel mostra em detalhes, a partir do exame de memorandos e registros burocráticos variados, como Neumann defendeu um processo de desnazificação mais profundo e radical do que aquele que de fato ocorreu.

Neste período, Neumann tomou parte na preparação das acusações que seriam levadas adiante nos Tribunais de Guerra de Nuremberg. Chefiado por Robert H. Jackson, ajudou a elaborar análises dos 22 acusados e de várias organizações nazistas, em especial no que dizia respeito às perseguições religiosas. Também revisou o esboço da acusação a Hermann Göring. A despeito de sua participação neste processo, sua posição pessoal era a de que os criminosos nazistas deveriam ser julgados em cortes alemãs com fundamento na Constituição de Weimar, nunca revogada durante o nazismo, por considerar que este seria um passo importante para a desnazificação da Alemanha.

Em 1948 Neumann tornou-se Professor em Colúmbia e participou da criação da Universidade Livre de Berlim. Até sua morte, escreveu textos importantes sobre os conceitos de ditadura, liberdade e poder; além de um estudo sobre as raízes psicanalíticas da democracia e da ditadura “Angústia e Política”, revisitado por Axel Honneth em artigo recente. Deixou inacabado um estudo sobre a ditadura que seria escrito em parceria com Herbert Marcuse. Todos os textos deste período foram reunidos por Marcuse no livro Estado Democrático, Estado Autoritário. Sua atividade de Professor em Columbia incluiu a orientação da tese The Dilemma of Democratic Socialism: Eduard Bernstein’s Challenge to Marx (Buccaneer Books, 1983) escrita por Peter Gay, futuro especialista em Freud; também a orientação inicial, interrompida por sua morte, da tese The Destruction of European Jews, de Raul Hilberg (1926-2007), estudo central sobre o holocausto que contribuiu para definir os problemas deste campo.

Franz Leopold Neumann morreu em um acidente de carro em Visp na Suíça aos 54 anos de idade.

Bibliografia

Textos de Franz Neumann

FRAENKEL, Ernst, KAHN-FREUND, Otto; KORSCH, Karl; NEUMANN, Franz; SINZHEIMER, Hugo. Laboratorio Weimar: conflitti e diritto del lavoto nella Germania prenazista. Roma: Edizione Lavoro, 1982.
NEUMANN, Franz. Il Diritto del Lavoro fra Democracia e Dittadura. Bologna: Il Mulino, 1983.
KIRCHHEIMER, Otto, NEUMANN, Franz. Social democracy and the rule of law. Ed. Keith Tribe. London: Allen & Unwin, 1987
NEUMANN, Franz, The rule of law. Political theory and the legal system in modern society. Leamington: Berg, 1986.
NEUMANN, Franz. Behemoth: the structure and practice of national socialism 1933-1944 (1942). New York: Harper Torchbooks, 1966.
NEUMANN, Franz. The democratic and the authoritarian State: essays in political and legal theory. Ed. Herbert Marcuse. Illinois: Free Press, 1957.
RAMM, Thilo (org). Arbeitsrecht un Politik. Quellentexte 1918-1933. Berlin: Neuwid, 1966.
SCHEUERMANN, William E. The Rule of Law Under Siege: Selected Essays of Franz L. Neumann and Otto Kirchheimer, Berkeley: University of California Press, 1996.

Sobre Franz Neumann (monografias, artigos e capítulos)

COTTERRELL, Roger. Law’s community. Legal theory in sociological perspective. Oxford: Clarendon Press, 1995.
HONNETH, Axel. “Anxiety and politics”: The strengths and weaknesses of Franz Neumann’s diagnosis of a social pathology. Constellations, v. 10, June 2003.
INTELMANN, Peter. Franz Neumann. Chancen und Dilemma des politischen Reformismus. Baden-Baden: Nomos Verlagsgesellschaft, 1996.
ISER, Matthias; STRECKER, David (Org.). Kritische Theorie der Politik. Franz L. Neumann – eine Bilanz. Baden-Baden: Nomos Verlagsgesellschaft, 2002.
KELLY, Duncan. The state of the political: conceptions of politics and the state in the thought of Max Weber, Carl Schmitt and Franz Neumann. New York: Oxford, 2003.
OFFE, Claus. The problem of social power in Franz L. Neumann’s Thought. Constellations, v. 10, n. 2, 2003.
PAULSON, Stanley L. Neumanns Kelsen. In: ISER, Matthias & STRECKER, David (Org.). Kritische Theorie der Politik. Franz L. Neumann – eine Bilanz. Baden-Baden: Nomos Verlagsgesellschaft, 2002.
PERELS, Joachim (Ed.). Recht, Demokratie und Kapitalismus. Aktualität und Probleme der Theorie Franz L. Neumanns. Bade-Baden: Nomos Verlagsgesellschaft, 1984.
PREUβ, Ulrich K. Formales und materials Recht in Franz Neumanns Rechtstheorie. ISER, Matthias; STRECKER, David (Org.). Kritische Theorie der Politik. Franz L. Neumann – eine Bilanz. Baden-Baden: Nomos Verlagsgesellschaft, 2002.
RODRIGUEZ, José Rodrigo. Franz Neumann, o direito e a teoria crítica. Lua Nova: Revista de Cultura e Política, São Paulo: CEDEC, v. 61, 2004.
RODRIGUEZ, José Rodrigo. Franz Neumann: o direito liberal para além de si mesmo. In: Curso Livre de Teoria Crítica, Campinas: Papirus, 2008.
RODRIGUEZ, José Rodrigo. Fuga do Direito: um estudo sobre o direito contemporâneo a partir de Franz Neumann, São Paulo: Saraiva, 2009.
SCHEUERMAN, William E. Between norm and exception: the Frankfurt school and the rule of law, Cambridge: MIT Press, 1997.
SÖLLNER, Alfons. Neumnann zur Einführung. Hannover: Soak Verlag, 1982.
THORNHILL, Chris. Political theory in modern Germany – an introduction. Oxford: Polity, 2000.
SÖLLNER, Alfons. Neumnann zur Einführung. Hannover: Soak Verlag, 1982.
THORNHILL, Chris. Political theory in modern Germany – an introduction. Oxford:

Natalie, a trapalhona

In Poemas para mim mesmo on 31/03/2010 at 14:50

(poema infantil)

Para Natalie Illanes Nogueira

Fui tomar meu toddinho quente, pus o leite dentro da lata,
abri a porta do freezer pensando que tinha uma privada
a calcinha estava apertada: vesti de trás para a frente,
mordi um pedaço de rapadura e quebrei três dentes.

Fui fazer uma chuquinha e arranquei todos os cabelos,
vesti a pulseira de elástico: enrolou num chumaço de pelo,
fui abrir a porta para a mãe, mas dei com a testa na quina,
quis brincar com um cachorro bravo: corri até a outra esquina.

As pontas do fecho do brinco sangraram atrás da orelha,
vesti uma calça folgada, tropecei e quebrei a bandeja
com um monte de caqui em cima: sujei toda nossa sala,
quebrei o pé e o cotovelo, mas ganhei uma linda bengala!

Ajudando a fazer a janta, queimei a barriga no forno,
a omelete ficou muito boa, cheiinha de casca de ovo,
a mãe foi assar um bolo, eu quis dar uma ajudinha
ela beijou minha testa e disse: “Não prefere ficar sentadinha?

Os malditos óculos de Drummond

In Aforismas e fragmentos on 29/03/2010 at 19:11


Eu não aguento mais ouvir falar do quinto, sexto, sétimo, oitavo… furto dos malditos óculos da estátua de Drummond na praia da Copacabana no Rio de Janeiro. Trata-se de uma boa idéia que não deu certo: o lugar em que foi instalada, um banquinho à beira-mar, provou-se inadequado para o monumento, que permanece sendo destruído mês sim, mês não.

Não aguento mais ouvir tanta filosofia sobre o fato: vandalismo, falta de educação do brasileiro, roubo do metal para venda e consumo de droga, desrespeito às figuras nacionais e à coisa pública, falta de amor ao grande poeta: provavelmente tudo isso é verdade ao mesmo tempo.

Mas o fato é que a estátua está exposta, todo o tempo, completamente vulnerável. Está sempre à mão: pode-se sentar ao lado dela, em seu colo, abraçar, tocar, cutucar. Claro, essa é a graça do negócio: colocar o poeta no lugar em que ele gostava de sentar e reintegrá-lo à paisagem, mesmo que em bronze. Uma espécie de anti-monumento: idéia boa que não deu certo.

É impossível vigiar a figura 24hs por dia. Impossível. Por mais que os moradores se preocupem com a estátua, por mais que todos zelem por sua integridade, a ocasião faz o ladrão e, do jeito que o poeta foi representado, qualquer um, sem muito esforço, pode ter acesso aos óculos sozinho e sem nenhuma vigilância.  A solução seria vigiá-la o tempo todo, mas acho que nem na Suiça isso daria certo.

Os roubos vão continuar, ponto final. Esse asunto ainda será pauta de muitas e muitas reportagens repetidas, muitas e muitas páginas de jornal, muitos e muitos minutos de telejornais. Haja paciência. Peço apenas, se possível, parar com tanta filosofia, tanto papo furado, sempre sobre o mesmo fato. O problema é simples e não dá margem à reflexões profundas sobre o Brasil. É mera questão de falta de noção, tanto de quem fez a estátua quanto daqueles que continuam a roubar seus óculos.

É tudo sobre nós: “Os Famosos e os Duendes da Morte”, filme e livro

In Aforismas e fragmentos on 24/03/2010 at 0:58


Os Famosos e os Duendes da Morte, livro de Ismael Caneppele e filme de Esmir Filho. Acabo de vir da estréia e do lançamento, simultâneos, Editora Iluminuras, Warner Filmes. É difícil falar dos dois, filme e livro, Esmir e Ismael. Na dedicatório de meu exemplar, Ismael foi preciso “É tudo sobre nós”, escreveu ele: vida e obra expressamente misturadas. Misturadas dentro e fora das páginas/cenas, dentro e fora das histórias. Como sem artifício (supostamente…): a mesma urgência do rap, do rock, do surrealismo, da literatura marginal contemporânea; a mesma urgência por ser real, autêntico e desfazer as fronteiras arte e vida.

O filme se entrega a tal ponto a esta urgência que, em certos momentos, arrisco dizer, quase se recusa a narrar. É como se o diretor se esforçasse para desaparecer, eliminar seu ponto de vista e deixar falar a coisa em si, sem artifícios, em cenas construídas de forma quase brutal, com um material aparentemente sem lapidação, recolhido em suas viagens ao interior do Rio Grande do Sul e no livro de Ismael. Para mim, a sequência que representa melhor esta faceta do filme é o diálogo ente o menino e seus avós, de um naturalismo comovente, que me fez pensar em algumas sequências de Pasolini. As frases soltas, quase desconjuntadas, sem tensão dramática, sem lapidação literária, em tom de documentário, e por isso mesmo, extremamente interessantes. Anti-arte.

Mas se às vezes o diretor finge que não está, em outras, está presente de forma radical, especialmente nas sequências oníricas em que o filme remete aos pensamentos do garoto em sua navegação constante pela internet, em suas fantasias com Bob Dylan e com os fantasmas que povoam sua cidade, monótona e desolada. Nesses momentos, o filme é todo artifício, mexe nas cores, crias formas impossíveis, tons irreais, faz girar um gira-gira dentro de um emaranhado de galhos, remetendo a uma existência paralela que serve de contraponto ao naturalismo de que falei há pouco. Nada acontece na realidade e tudo na imaginação. Por isso o diretor precisa intervir.

Mas os dois são reais e esse é o truque. O narrador está nos dois lugares, trabalhando de maneiras diferentes. “É tudo sobre nós”, me explicou Ismael, na dedicatória de seu livro. Fosse outra pessoa, eu teria pudores em revelar este texto, quase privado, na folha de rosto de meu exemplar. Mas no caso dos dois, faz todo o sentido: “É tudo sobre nós”, realidade e imaginação, natureza e artifício: a arte trata de nossos problemas e só faz sentido quando bate fundo e fala do que realmente importa. Realismo radical, imaginário ou real. O problema desse caminho, sempre, é tudo soar como um diário adolescente, repetitivo e sem graça: os mesmos clichês, as mesmas frases feitas, as mesmas fórmulas esvaziadas pelo uso.

Mas Ismael e Esmir são melhores do que isso: sem deixar de lado essa urgência de serem autênticos, com a urgência de um diário adolescente sim, eles tentam criar um novo vocabulário. Uma nova sensibilidade, que não feche a arte em si mesma, que a escancare para a vida sem que ela perca sua especificidade. É um caminho difícil, é um fio de navalha, há muito a ganhar e a perder neste movimento, pois arte e vida, sem fronteiras, implodem uma na outra, indeterminadas, indeferenciadas e indiferentes: a beleza está em manter a tensão…

Seja como for, em ambos, livro e filme (em Ismael e em Esmir), pode-se sentir a urgência da expressão, a vontade profunda de dizer alguma coisa, de dar conta de uma série de questões, de encontrar a melhor maneira dar forma ao que está em seus corações e mentes. Isso é muito evidente. Os dois têm muita força. É tudo sobre dizer, sobre encontrar a forma e nada sobre ser um artista “descolado”. A ânsia de expressão em ambos é agressiva, brutal, não se esconde um minuto, explode por todos os lados, o que dá ao filme e ao livro uma urgência que chega a incomodar. E nos deixa sentados na ponta da cadeira, esperando o próximo movimento…

Aguardo ansiosamente as cenas dos próximos capitulos destes dois autores ousados.

Oráculo

In Poemas para mim mesmo on 22/03/2010 at 12:37

Representação da pitonisa do Oráculo de Delfos feita por um oleiro ateniense, Circa 440 a.C

A nuvem e a nuvem,
um intervalo
entre as palavras e as coisas,
um intervalo
entre as legiões de dizeres,
um intervalo
em que o pensar se cala.

Problemas simples,
como um ideal homem real,
problemas simples,
coisas fisicamente metafísicas
problemas simples,
em que o pensar se cala,
entre som e sentido.

Eu preciso te convencer
de que não há mistério,
eu preciso te convencer
de que nada nunca se cala,
eu preciso te convencer,
a usar a voz renitente,
sempre que impossível.

Nuvem sem intervalo,
palavra-coisa em seu colo,
palavras-coisas em muitas
vozes que se desencontram
nas legiões vocais desconexas
para que o pensar se inaugure,
se mova, se curve, se instale.

O tradutor idiossincrático

In Aforismas e fragmentos on 20/03/2010 at 2:12

Poesia: Tradução e Versão de Abgar Renault (Ed. Record) é um livro deliciosamente desconexo. As traduções reunidas nele incluem uma série de poetas negros norte-americanos, poemas ingleses sobre a guerra, Tagore, poemas de língua inglesa os mais variados, Rilke, Borges, entre outros, muitos deles completamente marginais aos cânones, agrupados sem ordenação clara, sem hierarquia e sem as informações básicas sobre vida e obra. Grandes poemas de poetas menores ao lado de grandes poemas de poetas maiores, o livro inspira uma leitura irreverente.

Abgar Renault (1901-1995) foi poeta, professor, tradutor, deputado estadual por Minas Gerais, secretário de educação do mesmo estado e ministro da educação, tendo seguido a via da burocracia estatal como tantos outros escritores brasileiros. Entre as diversas posições que ocupou, foi representante do Brasil junto à UNESCO e membro da Academia Brasileira de Letras. Participante do modernismo mineiro, sua obra poética é composta de Sonetos Antigos (1968), A Lápide sob a Lua (1968), A Outra Face da Lua (1983) e Obra Poética (1990).

O efeito anárquico que o livro provoca pode ser, de fato, resultado de uma falha editorial das mais evidentes. Indícios a favor desta possibilidade não faltam. Para começar, o livro é feio demais. Peço perdão ao capista e à editora Record; gosto é gosto, (talvez) não se discuta, mas o poeta merecia um tratamento mais esmerado. O mesmo se pode dizer (talvez) sobre o destino de suas traduções que parecem agrupadas ao acaso, sem contextualização ou ordem; jogadas sobre as páginas como as varetas coloridas daquele jogo da infância.

Seja como for, o resultado está aí, nas livrarias e sebos, desde 1994: um conjunto idiossincrático de textos justapostos, um mais interessante do que o outro, cujos autores, excetos os mais famosos (basta dar um Google) vão se descortinando diante de nossos olhos espantados. Não é o caso de enumerá-los todos aqui, pois isto levaria muito tempo e estragaria as surpresas. Num volume de quase 300 páginas, a maior parte deles está presente apenas com um poema, sempre muito bem escolhido, aliás. Por isso deixo ao leitor paciente o trabalho de procurar biografias e obras.

Pois este não é um livro para os interessados em adquirir conhecimentos sistemáticos sobre a poesia de qualquer país ou se informar sobre os autores atualmente em vigor no cânon deste ou daquele canto do mundo. Não se trata de uma antologia. Se eu fosse obrigado a defini-lo, diria, sem hesitar, que se trata de uma de anti-antologia. O livro não traça com clareza as rotas a serem seguidas por seus leitores: foi feito para ser navegado.

Convida a recortes, escolhas, mudanças bruscas na direção do singrar. E pede um leitor autônomo, despido da ânsia de ler apenas “o que realmente interessa”, ter contato apenas com o crème de la crème para ser capaz de citar “os clássicos” durantes jantares chiques e reuniões de intelectuais finos. O livro de Renault, tenha sido ele planejado ou não, é simplesmente uma seleção de belas traduções de belos poemas, pouco importa, na verdade, seu autor, se grande ou pequeno, se cristão ou japonês, se mouro ou pedicuro.

Ler o livro faz pensar na bagunça da poesia atual, com efeito, na bagunça da literatura e da arte contemporânea, em que a diferença entre alta e baixa cultura está em cheque e em que não sabemos mais, com aquela reconfortante antecedência, pavimentada por resenhistas e críticos, qual é o caminho cultural que devemos seguir. “Caminhante não há caminho, se faz caminho ao andar” disse outro poeta. Bagunça pode ser outro nome para autonomia?

Ler o livro também faz pensar que um cânone feito de bons poemas seria certamente bem diferente daquele composto por pessoas – os “gênios” – com o qual estamos mais acostumados. No pódio deste novo cânone, um poeta pequeno pode receber a medalha de campeão ao lado de Shakespeare, mesmo que seja representado por um único poema. Mantidas ou não as mesmas condições de temperatura e pressão (pois cânones são volúveis e variáveis historicamente), a delícia de ler poesia é perceber fenômenos como este.

Pois não seria o caso, absolutamente, de trocar todo o Shakespeare por um único grande poema. A obra monumental e o poema isolado, ambos, fazem a delícia de qualquer leitor delicado; fazem a delícia de qualquer literatura. Pois o livro de Renault, para resumir, é isso mesmo, uma delícia. Um dos únicos livros que leio faz mais de dez anos.

A menina que engoliu o sapo

In Poemas para mim mesmo on 17/03/2010 at 0:12

(poema infantil)

A menina com dor de barriga,
fez pum,
não saiu cocô,
fez pum,
a barriga inchou,
fez pum,
não adiantou.

Será que ela engoliu um sapo?
O sapo e o seu chapéu?
O chapéu junto com o sapato?
O sapato com o carretel?
Da pipa que caiu no mato?
O mato junto com o pastel?
O pastel babado de gato?
O gato melado de mel?
O mel com cabelo grudado?
Na barriga com o sarapatel?

A menina com dor de barriga.
fez pum,
a barriga inchou,
fez pum,
o zíper abriu,
fez pum,
não adiantou.

Cospe já esse sapo babado de gato,
melado de mel! Com pastel misturado
no mato molhado dentro do sapato
grudado no rabo do sarapatel!
Cospe já o sapato pregado no gato
num resto de mato grudado de mel!
Com cabelo molhado pregado no sapo
no rabo da pipa dentro do pastel!

A menina com dor de barriga,
fez pum,
não adiantou,
fez pum e fez pum e fez pum,
e depois mais pum, pum, pum,
até que cansou.

Depois ela tossiu,
tossiu e cuspiu
cuspiu e tossiu
e adiantou!

Um cuspe verdeduro,
um cuspe verdeescuro,
verdegundo, verderanhento,
verderanheta, verdecabeludo,
verdegatudo, verdesapento,
verdemeloso, verdesapatado,
verdechapelado, verdemato,
nojento!

“Mas que fome!”, disse a menina
toda aliviada desse apuro todo:
“Já está na hora de comer de novo?”

Para M. V.

O que você pedir eu faço

In Poemas para mim mesmo on 15/03/2010 at 16:49

 

Tantos anos a me transformar em pedra em flor em água em seixo
em cor em um veículo automotor nesta gaveta esta caneta em lima
alguma forma que, em tantos anos, alguma forma que se transmute
em feno em sépia em ave em cal em paisagem e nesta rua em noite
em chave em sono em espaldar nesta sentença e na doença em som,
alguma forma que, em tantos anos, alguma forma que se estabilize,
pois foi isso mesmo o que eu mesmo disse: o que você quiser eu faço.

O que você quiser eu faço em pão em pedra em extensão em ladrilho
em pesticida em cano em balaustrada em véu em espingarda em sino
em travesseiro em sulco em estiagem em suco em caçarola em seio
em cruz em lábaro em fel em hidrante em barco em suicida em tronco
em passarela em palma em hidrogênio em monte em cavidade em tom
em caridade em prestação em dinheiro em especiaria em palavra em calma
o que você quiser eu faço, o que quiser eu mesmo faço, onde quer que eu
me encontre.

DIREITO E TEORIA CRÍTICA – Curso aberto do Núcleo Direito e Democracia-CEBRAP

In Direito e Teoria Critica on 12/03/2010 at 16:19

 

Jürgen Habermas
Franz Neumann
Klaus Günther

 

 

 

 

 

 

A partir do dia 25/03, todas as quintas-feiras das 19H às 22H30, começará a ser ministrado pelo NDD nas dependências do CEBRAP (Rua Morgado de Mateus, 615)  o curso DIREITO E TEORIA CRÍTICA, que terá duração de dois semestres.

No primeiro semestre serão apresentados os fundamentos teóricos do campo crítico, especialmente no que diz respeito ao direito e à política. No segundo, serão discutidos alguns problemas de pesquisa pertinentes ao campo.

Veja abaixo o programa resumido do primeiro semestre.

As aulas serão ministradas por membros do NDD, dentre os quais, Marcos Nobre, Ricardo Terra, José Rodrigo Rodriguez, Marta Machado, Rurion Soares Melo, Felipe Gonçalves Silva, Flávia P. Püschel, Fernando Costa Mattos e Fernando Rugitsky.

Será exigido trabalho final para aprovação.

Preço: R$ 120,00 por mês. Em caso de insuficiência de recursos para pagamento, será considerada a concessão de bolsas.

Inscreva-se pelo email selecaondd@gmail.com.

Em sua mensagem: a) faça um resumo de sua formação; b) faça um resumo de sua experiência profissional e pessoal (tudo o que julgar pertinente); c) explique qual seu interesse no curso; d) caso não possa pagar a mensalidade, por favor, explicite seus motivos.

PROGRAMA

Quintas-feiras, 19H – 22H30

I. Introdução

25/03
Aula 1
– Apresentação do curso
– Teoria tradicional e teoria crítica

II. Teoria Crítica e Direito: o déficit democrático.

08/04
Aula 2. Friedrich Pollock X Franz Neumann: um debate decisivo (I): Pressupostos teóricos: Karl Marx

15/04
Aula 3. Friedrich Pollock X Franz Neumann: um debate decisivo (II): O lugar da política e do direito

22/04
Aula 4. Dialética do Esclarecimento: o fechamento das perspectivas

29/04
Aula 5. O Agir Comunicativo: Direito, política e emancipação

III. Estado de Direito e Esfera Pública: textos fundamentais

06/05
Aula 6. Franz Neumann: O direito liberal para além de si mesmo

13/05
Aula 7. Otto Kirchheimer: Crítica do direito e do direito penal

20/05
Aula 8. Jurgen Habermas: Direito e integração social

27/05
Aula 9. Jurgen Habermas: Sociedade civil e esfera pública

10/06
Aula 10. Jurgen Habermas: Princípios do estado constitucional

17/06
Aula 11. Jurgen Habermas: Indeterminação do direito e adjudicação

24/06
Aula 12. Klaus Günther: Responsabilidade, responsabilização e crítica do direito

Só morre quem presta

In Aforismas e fragmentos on 12/03/2010 at 12:00

Desenho de FabioRex em homenagem a morte do cartunista Glauco