José Rodrigo Rodriguez

São Paulo aos pedaços (I): Rei Momo

In Aforismas e fragmentos on 26/02/2010 at 18:01

“Esta é a Rê, que é prima da Cá, amiga do Bi e filha do Cezinha, dono da Editora…”. “Este é o Tito, primo da Sil, amigo do Beto, da familia…” A despeito da impessoalidade, da magnitude, da massificação pela qual São Paulo passou desde a década de 50, frases como essas ainda podem ser ouvidas em ambientes sociais muito selecionados.

Sérgio Buarque de Hollanda, provavelmente, sorri feliz em seu túmulo.

Sua defesa do “funcionário patrimonial” em Raízes do Brasil, contra impessoalidade capitalista, pregava que a cordialidade, o tratamento familiar entre as pessoas, segundo ele, característico da sociedade brasileira, deveria ser preservado.

Parte da originalidade do Brasil estava ameaçada, segundo Sérgio, pela modernização em bases ocidentais.

Para quem olha esse balé de apelidos e referências familiares de fora, com todo respeito ao seu Sérgio, ele soa como a defesa de privilégios de classe, não soa? Se tudo se limitasse à esfera íntima, tudo bem. Mas essas relações implicam em acesso a empregos, contatos, convites, salários, contratos, dinheiro.

Por exemplo, se o Cezinha tiver que contratar um editor, quem ele vai tender a escolher, a Rê, a Cá, o Bi ou um estranho, com a mesma capacidade e formação?

A luta contra a aristocracia é uma tarefa cotidiana e árdua, pois a formação de grupos também é a formação de identidades, relações afetivas, relações de interesse. Viver isolado é impossível, formar grupos prejudica o livre acesso à riqueza social: o que fazer?

Dar acesso a todos a um ensino público de qualidade, criar cotas, combater toda forma de privilégio, enfim… Toda a artilharia jurídica ainda é pouca.

Porque, de novo, com o perdão do seu Sérgio, o estado de direito e a modernização ocidentais têm aspectos muito positivos. Um dos principais é conferir certa impessoalidade no acesso à riqueza social.

Por isso eu sempre me irrito um pouco quando maus alunos, hoje profissionais de sucesso, se gabam disso e dizem que não precisaram da escola para darem certo na vida.

Muito provavelmente, isso só aconteceu porque eles faziam parte dos círculos sociais certos, tinham empresas na família, tinham acesso a determinadas relações e ambientes…

A depender de onde se nasce, geograficamente, em São Paulo e em muitas outras cidades do mundo, seu futuro está garantido.

E o resto, que se dane.

Uma última observação: a única coisa de que gosto na aristocracia é o Rei Momo.

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  1. Meu caro,
    não acredito que o Sérgio Buarque acreditasse realmente que a cordialidade devesse ser preservada.
    Bem, ao menos nunca li o Raízes do Brasil assim (é verdade que li o livro há uns 10 anos, ainda no colegial – mas de vez em quando dou uma espiada novamente). Aliás, no último capítulo do livro, no ponto sobre perspectivas, ele faz um elogio das classes médias urbanas. Ele achava que aquele fenômeno de urbanização nascente e do surgimento de uma nova classe burocrática e de profissionais liberais poderia “racionalizar” o brasil. Refere-se até a alguns grupos políticos emergentes, que surgiram nesse rastro. Se lembrarmos bem, o PSB (partido socialista brasileiro surgido no contexto da redemocratização de 1945, que não é exatamente o atual) contou com a filiação de vários intelectuais “urbanizados”. Dentre eles o próprio Buraque de Holanda, o Antônio CAndido e o Zé lins do Rego. Acho até que o Mário de Andrade e o Manuel Bandeira tb estiveram envolvidos nas primeiras movimentações para fundação do partido.
    Curioso. Eu estou escrevendo um texto para um blog exatamente sobre as relações entre o diagnóstico contido nesse ponto do livro e o governo do PT.
    O Buarque de Holanda tb foi fundador do PT. Talvez continuasse acreditando no mesmo fenomeno, na mesma tese.
    Quando o PT ganhou as eleições, eu achava que podia fazer sentido o fenômeno descrito por ele ali. O mensalão (como a ponta do iceberg) meio que desmentiu o diagnóstico. O “patrimonialismo” continuou sendo a regra. E não apenas como arma de luta por hegemonia. Senão como prática disseminada, mesmo.
    O meu ponto, porém, é outro. Acho que, hoje, a categoria “patrimonialismo” é algo que só tem valor retórico, um desses esoterismos da sociologia clássica (a crítica do jessé souza a essa “sociologia brasileira” é em parte acertada. Em parte porque ele acredita, por outro lado, que não há corrupção endêmica no brasil, o que me parece um grande erro). Analiticamente, tal conceito fala muito pouco.
    A teoria social parece já estar largamente convencida (pelo menos nos paradigmas mais dominantes) que as causas da nossa corrupção sistêmica não estão no catolicismo cordial do mundo “ibérico”. Você há de convir que isso é de um essencialismo muito trivial. Com efeito, essa interpretação extremamente culturalista do pensamento weberiano perdeu o poder de convencimento já há mais de uma década. O que resta são só os fãs do Da Matta.
    Diria que, seja para habermasianos, seja para luhmanianos, seja mesmo para comunitaristas mais culturalistas, as causas são o fenômeno da exclusão ou da desigualdade (eu prefiro o termo exclusão, com suas implicações conceituais mais abrangentes).
    Pra mim, não é uma questão de “classe” pura e simples. É a questão da existência de um certo tipo de sub-gente: de uma sub-cidadania. Essa é, aliás, a grande contribuição do Neves para o pensamento social brasileiro. Esse é o ponto que o Luhmann tirou dele, e que ameaça uma das bases da teoria dos sistemas como umas semântica da sociedade mundial: o primado da diferenciação funcional.
    Para o que nos interessa, os acontecimentos dos últimos anos são bastante interessantes.
    Ironicamente, e embora por caminhos bastante distintos e tortuosos, acho que a escolha partidária do Sérgio Buarque, no fim de sua vida, foi acertada no que se refere a uma ruptura com o patrimonialismo. Quero dizer: talvez o governo do PT tenha dado uma grande contribuição para o fim do cordialismo patrimonialista. Não como choque culturalista de uma nova classe média urbana, livre do iberismo católico.
    A contribuição reside, exatamente, no combate à exclusão, ao fenômeno da sub-cidadania.
    Se olharmos bem, o governo do PT, se vai realmente se mostrar como um governo que deu certo, não vai fazê-lo graças a motivos weberianos, como pensava o Burque de Holanda. Se há de haver algum sucesso aí, isso se deverá a motivos muito mais marxistas (uma luta por inclusão, que é o que restou da luta de classes).
    No final, meu caro, talvez o velho Karl fosse mesmo mais esperto que o velho Max.

    Abraço,
    pablo.

  2. Discordo a sua interpretação do livro: acho que ele é mais ambíguo, na linha do que diz Silviano Santiago em “As Raízes Labirinto a Amérca Latina”. Há o elogio da racionalização, mas há tb a crítica a Dewey e ao manifesto da Nova Escola. O “funcinário patrimonial” tenta conciliar as duas coisas.

    Segundo ponto: vc e eu vivemos entre a elite e sabemos que estes mecanismos estão ativos no nivel micro-sociológico. Não acho que eles dêem conta de explicar “tudo” como parece ser sua pretensão e não a minha. Minha São Paulo é aos pedaços.

    Esses mecanismos de exclusão em razão da formação, das relações, do modo de se coportar, do tom de voz, escondem preconceitos de classe, de etnia, de genero aqui, n Eropae nos EUA. Vale para todos. É um elemento de formação das elites.

    Por exemplo, fui testemunha de uma avaliação docente em que se disse que certa(o) professor(a) tinha um comportamento “inadequado”. Com um pouco de perspicácia se percebia que a questão era a homossexualidade do fulano misturada com uma questão de classe.

    Ela(e) não era um “gay discreto”, como “deveria ser” para os habitantes daquele ambiente. Da boca para fora, todos são a favor do direitos dos gays, mas quem contrataria, numa universidade, uma “bicha louca”?

    Para captar essa minúcia, é peciso mais do que categorias tão abstratas como inclusão X exclusão. Baixe um pouco do seu sobrevôo!

    E continuemos a debater!

    Abraço!

  3. Outro dia, li num lugar na internet, tipo Diplomacy for Dummies, que o Brasil:

    a) tem mulheres que se jogam aos pés de homens estrangeiros
    b) que os brasileiros dão mais importância à origem das pessoas do que a um self made man, e que aqui entre nós família é tudo.

    Enfim, o fato é, a afirmação b, na cidade de São Paulo, procede.
    Já vi concurso público ser definido porque o candidato estudou no Santa Cruz. E não foi um.
    Ou seja, seu texto enfoca daquelas coisas que que todos sabemos, mas que ninguém quer dizer. Já estava mais do que na hora de alguém ser jacobino, mesmo, nos círculos paulistanos.

    E já está mais do que na hora de lerem os textos do Adorno em The Authoritharian Personality,nos círculos paulistanos.

    Eu prefiro sempre lutar pela maior ampliação do acesso ao tudo que faz parte dos “privilégios” de elite, que na verdade são direitos de todos nós. Não é possível uma cidade do tamanho de SP ser tão provinciana!

  4. Ah! Ia esquecendo: li também que o Rei Momo desse ano do Carnaval de Salvador foi o Pepeu Gomes!!!!!!!!!!!!!

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