José Rodrigo Rodriguez

Berlim (e Hamburgo) aos pedaços (XXIII): Obrigado, Alec!

In Aforismas e fragmentos, Berlim aos pedaços on 13/02/2010 at 2:03

Alec Empire, ex-vocalista do Atari Teenage Riot (ATR), agora em carreira solo, no clube Tresor em Berlim, programação oficial da Berlinale. 

O Tresor é uma casa clássica, uma das primeiras a abrir por aqui na onda clubber nos anos 90. Um prédio meio destruído, vigas à mostra, pé direito alto, aparência de uma ruína da era industrial, com elementos tecnológicos (projeções de vídeo por todo o lugar) e uma qualidade de som impressionante.

Antes de Alec vários DJs e uma projeção, completa, de Blade Runner, sem diálogos, reinterpretado por  Zan Lyons, que criou uma nova “trilha sonora”, ao vivo, para o filme. Na verdade, uma nova obra, a justaposição do filme com a música de Lyons, um DJ de Techno Hard Core, cujo vocabulário musical, assim como o de Alec Empire, é muito difícil de ser descrito.

Música difícil de ouvir, muito pesada, muito agressiva. As imagens que me ocorrem são: dezenas de chapas de metal sendo esfregadas e rasgadas em intervalos curtos; dezenas ônibus e jamantas desgovernadas, derrapando e tentando brecar no mesmo segundo; centenas de sirenes de polícia acionadas quase simultâneamente.

Sempre sons claramente urbanos, incômodos, executados fora de tom e de forma obsessiva, enfim, a delícia de qualquer adorniano um pouquinho mais esperto.

Às vezes Alec fica mais calmo, faz coisas diferentes, não se resume a si mesmo. Mas o vocabulário musical descrito acima que o tornou conhecido e que eu aprendi a gostar, faz mais de 15 anos.

Alec começou sua apresentação as 3h30 e terminou quase 6h da manhã para uma platéia pequena. Pois mesmo aqui em Berlim, o que ele e Lyons fazem não agradam a muitas pessoas. Tomei coragem e fui conversar com o cara enquanto ele esperava para fazer seu set, andando de cá para lá no Tresor, sem beber uma gota de álcool.

Cara normal, espantou-se com um brasileiro ali, ainda mais fã do ATR e dele. Lembrou do show da banda no Brasil em 1997, reclamou de estar numa casa de techno e da falta de bons lugares para tocar em Berlim.

Sou muito fã do fulano, mas não tenho mais 20 anos. Foi engraçado conversar com ele sem sentir aquela emoção adolescente de estar diante de um ídolo. Minha sensação atual em relação aos artistas de que gosto é, cima de tudo, de gratidão.

Gratidão por darem forma a emoções que sinto, problemas que enfrento, inquietações que me incomodam. As músicas do ATR e de Alec Empire sempre me ajudaram a pensar o problema da violência da cidade onde vivo, São Paulo, e a tentar lidar com a minha própria violência.

A cidade que agride com seus sons e paisagens devastadas, os quais, paradoxalmente, começam a parecer acolhedores e atraentes. Também o desejo de eliminar os obstáculos à força, livrar-se violentamente de pessoas e problemas.

Estes desejos, que precisamos reprimir para viver em sociedade, são os mesmos que me fazem olhar para a ruína industrial que é o Tresor e sentir prazer estético, além de adorar ter os tímpanos quase estourados pelos ruídos do ATR e de Alec Empire: centenas de decibéis em alta velocidade.

Como uma luta de boxe ou uma tourada, ATR e Alec são estilizações da violência que alimentam o monstro para que ele não irrompa à superfície e destrua tudo. Uma forma de satisfazer, de maneira inofensiva, o desejo de matar e de destuir.

Provavelmente, se eu passar um mês ouvindo música doce, terminarei assassinando alguém!

Por isso não me espantei por Alec ser um fulano tranquilo e simpático, quase delicado, como Lyons; este, além disso, franzino e esquálido. Fez todo o sentido do mundo.

Mas neste ponto estou, certamentemte, forçando demais a interpretação. Seja como for, quero deixar claro: ouvir o cara ao vivo e ter tido a oportunidade de agradecer a ele pelas música que já fez me deixou, muito, mas muito alegre.

Repito aqui a primeira frase que disse a ele, na verdade, a primeira coisa que me veio a cabeça: meio ridícula, mas absolutamente correta:

“Obrigado, Alec, por todos estes anos de boa música!”

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