José Rodrigo Rodriguez

Berlim (e Hamburgo) aos pedaços (XVIII): Homero ausente

In Aforismas e fragmentos, Berlim aos pedaços on 07/02/2010 at 11:32

Fui visitar Homero aqui em Berlim, no Neues Museum, que guarda restos de Tróia e papiros com um trecho da Ilíada, mas especificamente dos livros 21-23, certamente não saído das mãos do poeta. Os objetos de Tróia são resultado das escavações feitas por Heinrich Schliemann, arqueólogo alemão do final do século XIX, cujo objetivo era atestar a existência da cidade sobre a qual Homero escreveu. A coleção, de dezenas de milhares de objetos, está em parte na Rússia e foi parcialmente destruída, conseqüências da Segunda Guerra.

Fui visitar Homero como quem visita um colega ilustre, talentoso, mas sem tanta reverência. Já não sinto tanta emoção diante de seus textos e de sua idéia. Digo “sua idéia” porque ainda não há certeza se existiram Homero ou Tróia: há teorias e hipóteses, mas nenhuma comprovação definitiva. Tanto a cidade quanto o poeta podem ter sido uma invenção de parte da humanidade em busca de uma ilusão de fundamento.

Por isso senti uma sensação mais prosaica e menos grandiosa. Homero para mim perdeu parte da aura que já teve, especialmente durante minha adolescência. Não estou mais diante “do” fundamento de minha arte e de minha civilização, “da” obra fundamental e definitiva, mas de um de seus momentos mais importantes. Um episódio central, entre outros.

A Grécia, em grande parte, é uma invenção do romantismo alemão, invenção esta que não serviu a objetivos lá muito nobres.

No meio desse caminho de séculos, muitos textos foram recuperados, muitos objetos foram resgatados, muitos estudos importantes foram feitos. Mas também muita coisa ruim aconteceu em razão dessa idéia que pensa as civilizações isoladas, muito bem demarcadas, com referências culturais claras e linhas de força evidentes, despidas de choques culturais, sem mestiçagem, sem mistura, sem algum grau de bagunça epistemológica.

Mesmo para compreender a Grécia e Homero, esta visão não funciona mais. O gênio grego, se existe, é resultado de muita mistura, de influências mútuas entre diversas civilizações do período, a começar pelo Egito, cheio de negros e amado por dez entre dez artistas gregos. A obra de Homero, não se sabe individual ou coletiva, também é resultado dessa mistura, que vem sendo recuperada por aqueles estudiosos que resolveram mudar de foco.

Fui visitar Homero, ainda, porque sei que este processo de revisão não irá torná-lo mais ou menos importante. Ele (s) não tem culpa de nada. Quem (ou o que) colocou a Ilíada e a Odisséia de pé fez, sem dúvida, um excelente trabalho. É lindo. Fui visitar Homero sem tanta reverência, mas ele (ou eles) ainda merece muita. Fui prestar meus respeitos ao(s) poeta(s) que, acreditava eu, estaria me esperando atrás das portas monumentais do Neues Museum. Mas, infelizmente, ele não estava presente.

O pedaço de uma lira, cerâmica que segurava as cordas do instrumento; um vaso com duas alças, supostamente citado na Odisséia III, 43; papiros com trechos da Ilíada e mais centenas de fragmentos de uma suposta Tróia, vindos de um sítio arqueológico que, estudos mais recentes, descobriram ter sido destruído e reconstruído mais de 50 vezes.

Como alguém pode olhar para esses milhões de pedaços e enxergar uma cidade, uma pessoa, um todo? Não teria sido tudo aquilo, especialmente em épocas sem medição de carbono, sem tantos recursos tecnológicos para compreender as escavações, a mera imputação de categorias e idéias nascidas do desejo de ver uma totalidade onde ela nunca existiu?

O que é São Paulo, a minha cidade, o que é Berlim, o que é Hamburgo? Estas cidades tão complexas, que só podemos captar aos pedaçõs? E quem sou eu? Estaríamos nós hoje melhor aparelhados para responder estas perguntas, tão prosaicas, do que arqueólogos e literatos, ansiosos por encontrar o fundamento de sua civilização, ou cientistas sociais em busca de explicações totalizantes?

Quando o amor acaba e alguém nos diz, ressentida ou ressentido, “eu não estou te reconhecendo mais”, será que algum dia ela ou ele já chegou a nos conhecer? Ou é o desejo de ser capaz de fazê-lo, sustentado por anos, contra todas as evidências, o elemento que vai juntando os fatos mais disparatados, vai agrupando fragmentos e pedaços para atribuir um sentido ao todo, até a que o amor desapareça e tudo se despedace?

E nesse sentido, não seria a invenção de Homero e de Tróia, resultado do amor à humanidade? Subtraído seu caráter excludente, matizada pela diversidade de culturas que, hoje, reconhecemos e defendemos; alimentada dos choques culturais e dos cruzamentos que, hoje, estão sendo descobertos, não precisaríamos ainda deste impulso de unir e compreender, de reunir e agrupar, para que a humanidade não se fragmente e se veja como um arquipélago de estranhos?

Seguir o caminho oposto ao do iluminismo, apostar na fragmentação mais completa, não levaria a um resultado autoritário, mas por outra via? Milhões de estranhos que não se conversam, cada um, um idiota, sentado em sua própria ilha, sem um espaço comum para sentar e deliberar. Autocentrados e autopoiéticos, sem amor à humanidade e sem aquilo que esse amor, por si mesmo, tem sido capaz de inventar. 

Por isso fui prestar meus respeitos a Homero, porque ainda acredito na necessidade do universalismo. E o que mais me emocionou na visita, o que mais me comoveu por trás daquelas portas imensas do Neues Museum foi, exatamente a ausência do poeta. Ele não estava lá e isso me fez sentir, de novo, uma emoção adolescente.

Ele não estava lá e sim, aqueles restos singelos, prosaicos e até sem graça que só fizeram ressaltar o gesto que os colocou e os mantém num todo relativamente coerente. O que me fez vibrar foi pensar na força da imaginação dos homens que sustentaram esta idéia, muitos anos antes do nazismo; e na força do amor de todos aqueles que, hoje, sustentam a esperança de construir um espaço de interação cosmopolita entre os seres humanos.

Pois este gesto precisa ser incessantemente repetido pelos que vieram depois. A humanidade, todos sabemos, especialmente depois de visitar a Alemanha e estudar sua história, está sempre em risco. O universalismo, todos sabemos, especialmente depois de tudo que ocorreu depois do 11 de Setembro, pode se perder facilmente.

E eu não estou preparado para viver num mundo sem estas duas idéias.

Para o querido amigo, Érico Nogueira, ausente, saudades.

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  1. Eu, procurando por filmes/livros que retratem mais a história de Hamburgo/Berlim tive a sorte de encontrar seu blog..li todos os tópicos de Berlim aos pedaços e adorei seus comentários. Sou de São Paulo e estou indo para Hamburgo no dia 20/02. Farei um treinamento pela empresa que trabalho. Vou ter pouco tempo para turismo pois voltarei depois de uma semana. Se tiver algum material turistico de Hamburgo e Berlim, adoraria receber, pois quero conhecer o maximo mas em pouco tempo! Estou a procura também de alguem que poderia ser meu guia em Berlim (pretendo ficar 1 sabado nesta cidade). Se conseguir me indicar alguma agencia/pessoa que tenha essa disponibilidade.
    Obrigada por ter esse blog!!continuarei acompanhando

  2. Meu querido amigo,

    Quantas vezes temos falado de você, lembrado de você, e dito: “O Zé faz tanta falta!”. Li este texto, me comovi — e então vi a dedicatória, e a comoção dobrou. Chegamos à Itália 11/02. Será que nos vemos? Beijo grande. E.

  3. Sou mais o Homer.

  4. Eu prefiro o papiro.

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