José Rodrigo Rodriguez

Hamburgo (e Berlim) aos pedaços (XIV): Ver o mundo da perspectiva de um pato hamburguês

In Aforismas e fragmentos, Berlim aos pedaços on 01/02/2010 at 6:55

O lago Alster em Hamburgo congelou este ano. É a primeira vez que isso acontece desde 1997, lá se vão mais de dez anos.

Não sei se este fato realiza alguma previsão de sensitivos e sentivas alemãs. O que diria, sobre isso, a nossa querida mãe Dinah, se tivesse nascido nessas terras de Beckett?

 “Este ano, alguém famoso morrerá, a CDU continuará no poder, Jürgen Habermas lançará um livro de mais de 400 páginas e o lago Alster irá congelar…”

Seja como for, estive sobre ele este sábado, caminhando, deslizando e quase caindo, juntamente com uma pequena multidão saracoteante, sobre litros e mais litros de água gelada.

Confesso que um certo medo tomou conta de mim. Nada grave, mas devo confessar.

Havia crianças zanzando no local, alegres e escorregadias como minhocas brancas e serelepes, velhos e velhas de mãos dadas, adultos e adultas, casais de namorados, enfim, o congelamento do lago virou atração turística, com direito a camelôs vendendo vinho quente e comidinhas variadas.

Mas o clima de alegria não evitou que eu tivesse pensamentos relativamente sombrios: 

“P… que me p… Se essa p… quebrar estamos todos f…”, pensei enfaticamente, mas com serenidade, num laivo de cuidado e preocupação com meus semelhantes.

“A Prefeitura não liberou oficialmente que a população andasse sobre o lago. Mas também não proibiu!”, informou minha amiga Renata, um segundo antes de pisarmos sobre o Alster, na intenção clara de me acalmar. 

“Veja só o resultado dessa conduta dúbia dos poderes públicos!”, pensei.  “Como assim não liberou? E esse povo está todo aqui? Depois a gente fica pensando que alemão é sério!”

A presença da cruz vermelha nas margens não serviu para aumentar minha serenidade.

“A camada de gelo está com 14 centímetros”, continuou Renata, fornecendo detalhes que, naquela altura do campeonato, me interessavam muito pouco. “Eles estão medindo a camada de três em três dias.”

“Espero que tenham medido hoje! Ontem fez um solzinho e deve ter derretido um pouco….” pensei comigo mesmo, caminhando, caminhando em direção ao meio do lago…

“14 cms, 14 cms, 14 cms me separam de milhões de litros da água congelante…”

“Acho que minha régua da segunda série tinha 15 centímetros”, lembro sem querer.  Material obrigatório: régua acrílica de 15 cms, pequenininha, para caber no meu estojinho, folhas de almaço, papel crepom, giz de cera…

“Não seria melhor esperar até que se forme uma camada de gelo mais grossinha? Uns 500 metros, 1 quilômetro, só para não ter nenhum problema?”, perguntei a meus amigos.

“Não tem perigo! Vamos lá… Se a camada chegar a 20 centímetros, a Prefeitura vai liberar para a cidade fazer uma festa em cima do lago. Mas 14 já é bastante…”, terminou seu informe Renata, já no meio do lago, escorregando abusadamente, de um lado para o outro, com seu fiel companheiro Andreas, os dois, sob minha vigilância serena e zelosa.

Um menino de patins passou zunindo por nós e deu um salto no vazio, caindo sob o gelo logo adiante.

“Precisa pular em cima dessa m… desse jeito,  c…”, pensei, ainda serenamente, caminhando a passos cautelosos lago Alster adentro.

“O mais interessante no fato de o lago ter congelado, meu querido Zé, é que agora podemos ver o mundo da perspectiva de um pato!”, concluiu Renata, em um tom filosófico e enigmático, como sói ocorrer neste país, pátria da filosofia mais hermética. Mesmo eu, PhD no assunto, ainda não consegui decifrar afirmações tão densas. 

O pato sou eu? O pato éramos todos nós? Pensamentos profundos, densos, pesados, sobre milhões e milhões de litros de água congelante…

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