José Rodrigo Rodriguez

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São Paulo aos pedaços (I): Rei Momo

In Aforismas e fragmentos on 26/02/2010 at 18:01

“Esta é a Rê, que é prima da Cá, amiga do Bi e filha do Cezinha, dono da Editora…”. “Este é o Tito, primo da Sil, amigo do Beto, da familia…” A despeito da impessoalidade, da magnitude, da massificação pela qual São Paulo passou desde a década de 50, frases como essas ainda podem ser ouvidas em ambientes sociais muito selecionados.

Sérgio Buarque de Hollanda, provavelmente, sorri feliz em seu túmulo.

Sua defesa do “funcionário patrimonial” em Raízes do Brasil, contra impessoalidade capitalista, pregava que a cordialidade, o tratamento familiar entre as pessoas, segundo ele, característico da sociedade brasileira, deveria ser preservado.

Parte da originalidade do Brasil estava ameaçada, segundo Sérgio, pela modernização em bases ocidentais.

Para quem olha esse balé de apelidos e referências familiares de fora, com todo respeito ao seu Sérgio, ele soa como a defesa de privilégios de classe, não soa? Se tudo se limitasse à esfera íntima, tudo bem. Mas essas relações implicam em acesso a empregos, contatos, convites, salários, contratos, dinheiro.

Por exemplo, se o Cezinha tiver que contratar um editor, quem ele vai tender a escolher, a Rê, a Cá, o Bi ou um estranho, com a mesma capacidade e formação?

A luta contra a aristocracia é uma tarefa cotidiana e árdua, pois a formação de grupos também é a formação de identidades, relações afetivas, relações de interesse. Viver isolado é impossível, formar grupos prejudica o livre acesso à riqueza social: o que fazer?

Dar acesso a todos a um ensino público de qualidade, criar cotas, combater toda forma de privilégio, enfim… Toda a artilharia jurídica ainda é pouca.

Porque, de novo, com o perdão do seu Sérgio, o estado de direito e a modernização ocidentais têm aspectos muito positivos. Um dos principais é conferir certa impessoalidade no acesso à riqueza social.

Por isso eu sempre me irrito um pouco quando maus alunos, hoje profissionais de sucesso, se gabam disso e dizem que não precisaram da escola para darem certo na vida.

Muito provavelmente, isso só aconteceu porque eles faziam parte dos círculos sociais certos, tinham empresas na família, tinham acesso a determinadas relações e ambientes…

A depender de onde se nasce, geograficamente, em São Paulo e em muitas outras cidades do mundo, seu futuro está garantido.

E o resto, que se dane.

Uma última observação: a única coisa de que gosto na aristocracia é o Rei Momo.

Eu te amo, ar condicionado

In Poemas para... on 23/02/2010 at 18:31

Tudo estava pelando, tudo indo tão mal,
minha sala parecia ficar no Senegal,
tudo grudando e melado, a cabeça pára,
minha sala parecia ficar no Saara.

Mas aquele bafão danado
você veio e refrescou,
e o calor desesperado,
você veio e acabou.

Adeus pizza no sovaco,
bigodinho de suor,
adeus costas ensopadas,
adeus poça no lençol.

Sem você até a cueca molha,
sem você tudo cheira mal,
sem você minha vista se embaralha,
sem você eu mergulho no lençol.

Sem você, suo até pra coçar a orelha,
sem você, minha privada é piscina,
sem você, fico cheio de brotoeja,
sem você eu não quero abraçar as mina.

Agora aqui urso polar anda até de capote,
vou vestir o esqui na neve para ir te dar um picote,
agora aqui na gaveta guardo gelo e picolé,
tomo chocolate quente no lugar do meu café.

Tudo estava difícil, ia tudo tão mal,
minha sala parecia ficar no Senegal,
tudo meio sujinho, tudo meio melecado,
até eu ligar, no talo, o meu ar-condicionado!

Berlim (e Hamburgo) aos pedaços (XXIII): Obrigado, Alec!

In Aforismas e fragmentos, Berlim aos pedaços on 13/02/2010 at 2:03

Alec Empire, ex-vocalista do Atari Teenage Riot (ATR), agora em carreira solo, no clube Tresor em Berlim, programação oficial da Berlinale. 

O Tresor é uma casa clássica, uma das primeiras a abrir por aqui na onda clubber nos anos 90. Um prédio meio destruído, vigas à mostra, pé direito alto, aparência de uma ruína da era industrial, com elementos tecnológicos (projeções de vídeo por todo o lugar) e uma qualidade de som impressionante.

Antes de Alec vários DJs e uma projeção, completa, de Blade Runner, sem diálogos, reinterpretado por  Zan Lyons, que criou uma nova “trilha sonora”, ao vivo, para o filme. Na verdade, uma nova obra, a justaposição do filme com a música de Lyons, um DJ de Techno Hard Core, cujo vocabulário musical, assim como o de Alec Empire, é muito difícil de ser descrito.

Música difícil de ouvir, muito pesada, muito agressiva. As imagens que me ocorrem são: dezenas de chapas de metal sendo esfregadas e rasgadas em intervalos curtos; dezenas ônibus e jamantas desgovernadas, derrapando e tentando brecar no mesmo segundo; centenas de sirenes de polícia acionadas quase simultâneamente.

Sempre sons claramente urbanos, incômodos, executados fora de tom e de forma obsessiva, enfim, a delícia de qualquer adorniano um pouquinho mais esperto.

Às vezes Alec fica mais calmo, faz coisas diferentes, não se resume a si mesmo. Mas o vocabulário musical descrito acima que o tornou conhecido e que eu aprendi a gostar, faz mais de 15 anos.

Alec começou sua apresentação as 3h30 e terminou quase 6h da manhã para uma platéia pequena. Pois mesmo aqui em Berlim, o que ele e Lyons fazem não agradam a muitas pessoas. Tomei coragem e fui conversar com o cara enquanto ele esperava para fazer seu set, andando de cá para lá no Tresor, sem beber uma gota de álcool.

Cara normal, espantou-se com um brasileiro ali, ainda mais fã do ATR e dele. Lembrou do show da banda no Brasil em 1997, reclamou de estar numa casa de techno e da falta de bons lugares para tocar em Berlim.

Sou muito fã do fulano, mas não tenho mais 20 anos. Foi engraçado conversar com ele sem sentir aquela emoção adolescente de estar diante de um ídolo. Minha sensação atual em relação aos artistas de que gosto é, cima de tudo, de gratidão.

Gratidão por darem forma a emoções que sinto, problemas que enfrento, inquietações que me incomodam. As músicas do ATR e de Alec Empire sempre me ajudaram a pensar o problema da violência da cidade onde vivo, São Paulo, e a tentar lidar com a minha própria violência.

A cidade que agride com seus sons e paisagens devastadas, os quais, paradoxalmente, começam a parecer acolhedores e atraentes. Também o desejo de eliminar os obstáculos à força, livrar-se violentamente de pessoas e problemas.

Estes desejos, que precisamos reprimir para viver em sociedade, são os mesmos que me fazem olhar para a ruína industrial que é o Tresor e sentir prazer estético, além de adorar ter os tímpanos quase estourados pelos ruídos do ATR e de Alec Empire: centenas de decibéis em alta velocidade.

Como uma luta de boxe ou uma tourada, ATR e Alec são estilizações da violência que alimentam o monstro para que ele não irrompa à superfície e destrua tudo. Uma forma de satisfazer, de maneira inofensiva, o desejo de matar e de destuir.

Provavelmente, se eu passar um mês ouvindo música doce, terminarei assassinando alguém!

Por isso não me espantei por Alec ser um fulano tranquilo e simpático, quase delicado, como Lyons; este, além disso, franzino e esquálido. Fez todo o sentido do mundo.

Mas neste ponto estou, certamentemte, forçando demais a interpretação. Seja como for, quero deixar claro: ouvir o cara ao vivo e ter tido a oportunidade de agradecer a ele pelas música que já fez me deixou, muito, mas muito alegre.

Repito aqui a primeira frase que disse a ele, na verdade, a primeira coisa que me veio a cabeça: meio ridícula, mas absolutamente correta:

“Obrigado, Alec, por todos estes anos de boa música!”

Berlim (e Hamburgo) aos pedaços (XXII): Sebastião

In Aforismas e fragmentos, Berlim aos pedaços, Poemas para mim mesmo on 11/02/2010 at 0:26

O cansaço que aparenta,
a luz que só vela,
a luz que se apaga,
a lua,
cabem dentro deste ostensório.

“Outros ainda virão!”,
disse meu pai, Sebastião
às portas do reformatório.

Sebastião é velho como um Cristo,
trocado,
sem cruz e sem manifesto,
sem reis e sem manjedoura.

“N’ Ele tudo se aparenta
e quem dorme
vela pelos vivos
que já não sentem mais sono
e se esquecem de deitar,
como aqueles que trabalham
e não podem pedir a seu corpo
que adie, mais ainda,
o seu compasso de espera.

A lua, o sol, as andorinhas,
também tantas hesitações
cabem todas neste ostensório,
cansaço que vela pelos vivos
sob essa luz de misericórdia
que nem sempre se aparenta.

Berlim (e Hamburgo) aos pedaços (XXII): Quanto homem lindo!

In Aforismas e fragmentos, Berlim aos pedaços on 10/02/2010 at 14:07

Ainda no capítulo das recomendações musicais turcas, Ali Özütemiz e Tatlises, favoritos do seu Metim. Dois homens bonitos, sem dúvida nenhuma. Um deles, vestido como se fosse participar do antigo programa do Bolinha e o outro, é o Bolinha redivivo. Cuspido e escarrado.

Qual deve ser a alegria de um homem que pode se vestir como esses dois e ainda ser considerado um astro da música?

Qual deve ser a sensação de poder ostentar um bigode como o de Tatlises, sem ser ridicularizado por ninguém, e ainda conquistar as mais belas mulheres?

Ou exibir a barriguinha e a careca de Ali Özütemiz e exalar um sex appeal irresistível, como na foto acima? Sonho de 9 entre 10 heterossexuais convictos. Se inveja matasse…

Uma informação divertida: Tatlises aparece, a cada tomada de câmera de seus clipes, a cada foto de seus discos, com uma roupa diferente, uma mais bonita do que a outra, numa performance meio Madonna. Aliás, ele também á ator.

Diante desse desempenho impressionante, eu me perguntei, intrigado: “Mas que negócio é esse? Será que ele vende o diabo dessas roupas?”

Pois é, vende mesmo. Encartado no CD, um catálogo com a coleção primavera-verão de sua griffe, “by Tatlises”.

Quanto homem lindo, meu Deus!

Berlim (e Hamburgo) aos pedaços (XXI): Na loja do seu Metin

In Aforismas e fragmentos, Berlim aos pedaços on 09/02/2010 at 23:22

Entrei na loja do seu Metin a Orient Musikhaus (Adalbertstr, 87) para olhar as guitarras turcas penduradas em todo o teto. Aberta até bem tarde, coisa estranha, pensei. Mas ao perceber a imensa quantidade de CDs nas prateleiras, deixei qualquer escrúpulo de lado e resolvi fazer um pequeno estrago no meu orçamento.

Seu Metin me olhou com desconfiança, mas ela durou pouco. Apenas o tempo dele perceber a qualidade do meu alemão e eu esclarecer que era brasileiro. Pedi que ele me mostrasse os discos de que gostava e, a partir daí, foram mais de duas horas de música turca e conversa numa língua misturada; inglês, alemão e turco.

Aberto até tarde porque ele mora ali, atrás da loja. Pode arriscar ficar aberto: está apenas perdendo seu sono, já que sua família não mora com ele. Seu Metin está há anos sozinho na Alemanha.

Tomei água na sua pequena cozinha depois que ele perguntou meu nome e me convidou para ir atrás do balcão para me mostrar alguns clipes no youtube. Na parede, ao lado do caixa, invisível para seus clientes, a foto de seus sete filhos, enfileirados, três no lombo de um carneiro, com sua esposa do lado, numa paisagem árida, provavelmente na Turquia.

Ele aqui trabalhando, ela cuidando dos filhos. “Linda família, Metin!” , eu disse a ele, que sorriu, satisfeito.

Pão folha sobre a mesa de fórmica, casa de homem, cozinha desarrumada, pouca comida.

Seu Metin tem uns cinquenta anos, bigodão preto, extremamente simpático, conhecia bastante música brasileira. Citou nomes variados e ficou ainda mais contente quando eu comecei a torcer a cara para os discos de POP que ele me mostrava.

Foi buscar os discos mais tradicionais e cantores atuais que seguem na mesma linha, inclusive Rojda, uma cantora curda, linda de morrer. Vejam por vocês mesmos abaixo. Dela, comprei o álbum “Sebra Min”, entre diversos outros CDs da cantores variados.

Pedi dicas de lugares para ouvir música turca, restaurantes, lojas de roupas: não vou poder aproveitar muito. Meu tempo em Berlim agora é curto. Mas há muito mais coisas para se ver por aqui. Essa vida paralela que acontece no mesmo bairro em que eu vivo, provavelmente a dois passos de distância,  só agora começo a ver.

Seu Metin me deu de presente uma misbahae, em turco, tespih, feita de contas brancas. Um brinde pela compra grande. Como bom árabe, nãos sei se foi presente mesmo ou se ele incluiu no preço dos CDs. Mas valeu pela conversa e pelas dicas.

De tudo o que me vendeu, essa parece ser a favorita do seu Metin (“Eu amo, amo, amo!, disse ele, sem hesitação): Yildiz Tílbe cantando Metris:

Pelo jeito, seu Metin gosta de mulher bonita. Só espero que as cantoras turcas não sejam como as brasileiras, praticamente todas homossexuais. Assim não dá nem para sonhar direito.

Berlim (e Hamburgo) aos pedaços (XX): “No Brasil não existe preconceito racial.”

In Aforismas e fragmentos, Berlim aos pedaços on 09/02/2010 at 14:04

“No Brasil não existe preconceito racial”, ouvi essa mesma frase de alguns alemães, especialmente daqueles que moraram no Brasil, namoraram ou casaram com mulheres brasileiras. Não conheço nenhuma mulher que tenha casado com um homem brasileiro, o que não deixa de ser interessante também…

Mas enfim, fico tentando entender o que a frase significa, porque que existe preconceito racial em meu país, disso ninguém, ao menos no Brasil tem a mais pálida dúvida.

Participei de uma conversa esses dias que talvez elucide alguma coisa. Um fulano que conheci, que mora entre Brasil e Alemanha, dizia para um amigo, alemão como ele, que este país é uma sociedade realmente integrada. Acrescentou: “Raramente alguém vai chamar um negro de sujo, como aqui”.

A primeira parte pode fazer algum sentido, a segunda, evidentemente, é a mais pura fantasia. Comecemos pela bobagem que está na segunda parte da frase.

Vou contar duas lembranças infantis, pessoais, minhas, sobre o assunto:

Eu devia ter uns 13 anos. Um parente meu, meio afastado, habitante da periferia de São Paulo, classe média baixa, me explicava como fazer para fazer sexo com uma negra: “Não pague motel, não, faça na rua, numa moita, por exemplo, para não acostumar mal a mulher”.

Outra memória infantil, do mesmo calibre:

Depois de cumprimentar um colega de trabalho negro, na minha frente, um parente, também habitante da periferia de São Paulo, classe média baixa, me disse baixinho: “Sempre que dou a mão para esse cara tenho vontade de lavar”.

Isso são apenas as memórias mais remotas. Hoje, eu contaria os exemplos já às centenas, uma para cada semana da minha vida, provavelmente.

E são frases de uma violência tão grande, dignas de qualquer país altamente preconceituoso. É claro que elas não são exclusividade de meus parentes: sou autor de um texto sobre racismo e direito e sei que essas coisas acontecem o tempo todo.

Uma observação para complicar: Se acrescentarmos o problema do gênero nesse caldo e pensarmos no preconceito contra homossexuais, a coisa se torna bem mais complexa.

Esta questão aparece, por exemplo, no excelente livro “Cidade de Deus” de Paulo Lins, infelizmente transformado num faroeste high tech para entreter, pelo Spielberg brasileiro, Fernando Meirelles.

No livro, um personagem homossexual sofre maus tratos por preconceito com sua identidade de gênero por parte, justamente, daquelas pessoas que foram vítimas de toda uma série de outros preconceitos. Em suma, negros pobres oprimindo gays pobres, numa mistura de problemas difícil de lidar e compreender. 

Mas enfim, porque alguns alemães falam este tipo de bobagem? Talvez a primeira parte da frase do meu recém conhecido diga alguma coisa de útil: a menção à palavra “integração”. Comparada com a sociedade alemã e mesmo com a americana, a sociedade brasileira parece ser mesmo mais misturada, pelo menos à primeira vista.

Se esquecermos, por exemplo, que em São Paulo há milhares de bolivianos trabalhando na indústria têxtil, em péssimas condições, fica mais fácil ainda ter essa impressão.

No bairro em que estou Kreutzberg, nitidamente, há sociedades paralelas, por exemplo, de turcos, com bares próprios, empregos próprios e língua própria. Há pessoas que moram aqui faz trinta anos e não falam alemão.

Ontem mesmo eu pedi uma informação na minha barraca de frango favorita, dirigida por turcos, logo na entrada do Görlitzer Park, e o atendente me disse: “Eu não falo alemão”. Provavelmente, fala apenas as frases que o permitem vender o frango. Ou simplesmente não estava a fim de falar alemão com um branco como eu.

Em conversas por aqui, me dizem que os turcos falam entre si uma espécie de dialeto que mistura alemão e turco, seus filhos também, e que as crianças alemãs e turcas estudam juntas, mas não freqüentam as casas umas das outras.

Não sei se isso é regra geral, mas é um comentário comum por aqui. Essa é a percepção dos moradores com quem conversei. E estamos falando da região mais tolerante de uma das cidades mais tolerantes de toda a Alemanha.

Deve haver estudos mais sistemáticos sobre isso. Vou procurar…

Bom, num panorama como este, os problemas brasileiros podem tender a serem minimizados. Ou simplesmente não serão vistos.

Basta que um alemão vá ao Brasil e não encontre o tipo de violência com a qual está acostumado para pensar, talvez, “O preconceito não existe aqui”.

Existe sim, é claro, sob outras formas.

Mas o paraíso dos outros talvez seja o nosso inferno: para ser feliz, bastaria ser cego. Seletivamente.

Mas a cegueira, neste caso, não vai durar para sempre.

Eu estou faz dois meses aqui e já começo a sentir certa raiva desta cidade, especialmente após ouvir essas histórias sobre os turcos.

Kreutzberg, exatamente um bairro de turcos, ficou famoso por ter dado lugar a muitas revoltas e protestos.

Diante do que ando ouvindo, já estou achando a vizinhança muito calma. E isso se deve, em parte, ao fato de os pobres estarem sendo expulsos daqui, em razão do preço, para bairros ainda mais afastados, como relatou um outro conhecido, também alemão. 

Mas enfim, espero que o autor da frase que estou comentando também desenvolva um ódio profundo pelo Brasil.

Só assim podemos melhorar as coisas e parar de falar bobagens, um sobre o país do outro.

Os espaços de integração e tolerância, infelizmente, são poucos e devem ser ampliados a todo custo.

Não sei se a melhor solução são cotas, criminalização, educação conjunta, enfim. Mas está tudo por fazer.

Berlim (e Hamburgo) em pedaços (XIX): Tudo por uma foto

In Aforismas e fragmentos, Poemas para mim mesmo on 07/02/2010 at 12:58

Torre de TV de Berlim, programa turístico até a raiz e, para os padrões da cidade, bem caro, me acotovelando com outros brasileiros, espanhóis, alemães, argentinos, japoneses, enfim, aquele pessoal que encontramos em qualquer capital ou ponto turístico do mundo.

Tenho certa fascinação por ver as cidades de cima, uma fascinação que funciona a par com meu medo físico de alturas: não consigo subir em nenhuma elevação, mesmo baixa, se eu puder ver o chão.

Uma metáfora fácil, psicanálise de botequim: o medo das alturas conceituais, temperado com a fascinação pelo conceito e combinado com uma força que sempre me leva para o chão. Sou virgem com ascendete em capricórnio.

Quem leu meu livro de poemas deve ter visto, logo no segundo texto, como a vista aérea de uma cidade me interessa e o quanto ela me perturba (a propósito, você pode clicar aqui e comprar!) Porque tantas pessoas gostam deste tipo de programa? Para além das razões militares, de que serve olhar uma cidade de cima?

Não basta ter um mapa para se situar? Porque subir tão alto para ver, tão longe quanto as nuvens permitiram, naquela tarde chuvosa e fria? Mas foi difícil divagar ali, a mais de 300 metros de altura, sobre questões tão profundas. Foi difícil manter a concentração.

Fora o medo, que me empurrava para longe das grades, mesmo num recinto todo coberto de vidro, sem vento, sem perigo real, o que permite uma visão espetacular de 360 graus, a cada segundo eu levava um encontrão de pessoas interessadas em bater fotos, tendo atrás de si pedaços da cidade.

Fiquei na torre menos de uma hora devido à vertigem, mas principalmente, para evitar danos físicos. Tantas cotoveladas e olhares enfezados, que me computavam como um obstáculo às câmeras sedentas de imagens, foram esgotando pouco a pouco a minha paciência.

Mas a vista é magnífica e a torre muito bonita, inclusive internamente, com uma atmosfera dos anos 50, época em que foi construída. Lembrei dos Jetsons, eles se sentiriam completamente à vontade ali dentro.

A torre deve ter sido, na época, o máximo da modernidade e, ali, ficaram inscritos seus símbolos, na decoração do hall de entrada, nos vitrais e nas escadas, nas paredes que dão acesso aos elevadores, no restaurante e no bar, lá em cima. Símbolo do triunfo da ciência e da tecnologia. Nossa civilização também tem suas pirâmides. Vale a pena visitar.

Mas vá de armadura. Para não virar picadinho.

Berlim (e Hamburgo) aos pedaços (XVIII): Homero ausente

In Aforismas e fragmentos, Berlim aos pedaços on 07/02/2010 at 11:32

Fui visitar Homero aqui em Berlim, no Neues Museum, que guarda restos de Tróia e papiros com um trecho da Ilíada, mas especificamente dos livros 21-23, certamente não saído das mãos do poeta. Os objetos de Tróia são resultado das escavações feitas por Heinrich Schliemann, arqueólogo alemão do final do século XIX, cujo objetivo era atestar a existência da cidade sobre a qual Homero escreveu. A coleção, de dezenas de milhares de objetos, está em parte na Rússia e foi parcialmente destruída, conseqüências da Segunda Guerra.

Fui visitar Homero como quem visita um colega ilustre, talentoso, mas sem tanta reverência. Já não sinto tanta emoção diante de seus textos e de sua idéia. Digo “sua idéia” porque ainda não há certeza se existiram Homero ou Tróia: há teorias e hipóteses, mas nenhuma comprovação definitiva. Tanto a cidade quanto o poeta podem ter sido uma invenção de parte da humanidade em busca de uma ilusão de fundamento.

Por isso senti uma sensação mais prosaica e menos grandiosa. Homero para mim perdeu parte da aura que já teve, especialmente durante minha adolescência. Não estou mais diante “do” fundamento de minha arte e de minha civilização, “da” obra fundamental e definitiva, mas de um de seus momentos mais importantes. Um episódio central, entre outros.

A Grécia, em grande parte, é uma invenção do romantismo alemão, invenção esta que não serviu a objetivos lá muito nobres.

No meio desse caminho de séculos, muitos textos foram recuperados, muitos objetos foram resgatados, muitos estudos importantes foram feitos. Mas também muita coisa ruim aconteceu em razão dessa idéia que pensa as civilizações isoladas, muito bem demarcadas, com referências culturais claras e linhas de força evidentes, despidas de choques culturais, sem mestiçagem, sem mistura, sem algum grau de bagunça epistemológica.

Mesmo para compreender a Grécia e Homero, esta visão não funciona mais. O gênio grego, se existe, é resultado de muita mistura, de influências mútuas entre diversas civilizações do período, a começar pelo Egito, cheio de negros e amado por dez entre dez artistas gregos. A obra de Homero, não se sabe individual ou coletiva, também é resultado dessa mistura, que vem sendo recuperada por aqueles estudiosos que resolveram mudar de foco.

Fui visitar Homero, ainda, porque sei que este processo de revisão não irá torná-lo mais ou menos importante. Ele (s) não tem culpa de nada. Quem (ou o que) colocou a Ilíada e a Odisséia de pé fez, sem dúvida, um excelente trabalho. É lindo. Fui visitar Homero sem tanta reverência, mas ele (ou eles) ainda merece muita. Fui prestar meus respeitos ao(s) poeta(s) que, acreditava eu, estaria me esperando atrás das portas monumentais do Neues Museum. Mas, infelizmente, ele não estava presente.

O pedaço de uma lira, cerâmica que segurava as cordas do instrumento; um vaso com duas alças, supostamente citado na Odisséia III, 43; papiros com trechos da Ilíada e mais centenas de fragmentos de uma suposta Tróia, vindos de um sítio arqueológico que, estudos mais recentes, descobriram ter sido destruído e reconstruído mais de 50 vezes.

Como alguém pode olhar para esses milhões de pedaços e enxergar uma cidade, uma pessoa, um todo? Não teria sido tudo aquilo, especialmente em épocas sem medição de carbono, sem tantos recursos tecnológicos para compreender as escavações, a mera imputação de categorias e idéias nascidas do desejo de ver uma totalidade onde ela nunca existiu?

O que é São Paulo, a minha cidade, o que é Berlim, o que é Hamburgo? Estas cidades tão complexas, que só podemos captar aos pedaçõs? E quem sou eu? Estaríamos nós hoje melhor aparelhados para responder estas perguntas, tão prosaicas, do que arqueólogos e literatos, ansiosos por encontrar o fundamento de sua civilização, ou cientistas sociais em busca de explicações totalizantes?

Quando o amor acaba e alguém nos diz, ressentida ou ressentido, “eu não estou te reconhecendo mais”, será que algum dia ela ou ele já chegou a nos conhecer? Ou é o desejo de ser capaz de fazê-lo, sustentado por anos, contra todas as evidências, o elemento que vai juntando os fatos mais disparatados, vai agrupando fragmentos e pedaços para atribuir um sentido ao todo, até a que o amor desapareça e tudo se despedace?

E nesse sentido, não seria a invenção de Homero e de Tróia, resultado do amor à humanidade? Subtraído seu caráter excludente, matizada pela diversidade de culturas que, hoje, reconhecemos e defendemos; alimentada dos choques culturais e dos cruzamentos que, hoje, estão sendo descobertos, não precisaríamos ainda deste impulso de unir e compreender, de reunir e agrupar, para que a humanidade não se fragmente e se veja como um arquipélago de estranhos?

Seguir o caminho oposto ao do iluminismo, apostar na fragmentação mais completa, não levaria a um resultado autoritário, mas por outra via? Milhões de estranhos que não se conversam, cada um, um idiota, sentado em sua própria ilha, sem um espaço comum para sentar e deliberar. Autocentrados e autopoiéticos, sem amor à humanidade e sem aquilo que esse amor, por si mesmo, tem sido capaz de inventar. 

Por isso fui prestar meus respeitos a Homero, porque ainda acredito na necessidade do universalismo. E o que mais me emocionou na visita, o que mais me comoveu por trás daquelas portas imensas do Neues Museum foi, exatamente a ausência do poeta. Ele não estava lá e isso me fez sentir, de novo, uma emoção adolescente.

Ele não estava lá e sim, aqueles restos singelos, prosaicos e até sem graça que só fizeram ressaltar o gesto que os colocou e os mantém num todo relativamente coerente. O que me fez vibrar foi pensar na força da imaginação dos homens que sustentaram esta idéia, muitos anos antes do nazismo; e na força do amor de todos aqueles que, hoje, sustentam a esperança de construir um espaço de interação cosmopolita entre os seres humanos.

Pois este gesto precisa ser incessantemente repetido pelos que vieram depois. A humanidade, todos sabemos, especialmente depois de visitar a Alemanha e estudar sua história, está sempre em risco. O universalismo, todos sabemos, especialmente depois de tudo que ocorreu depois do 11 de Setembro, pode se perder facilmente.

E eu não estou preparado para viver num mundo sem estas duas idéias.

Para o querido amigo, Érico Nogueira, ausente, saudades.

Berlim (e Hamburgo) aos pedaços (XVII): As Casas Bahia e o socialismo

In Aforismas e fragmentos, Berlim aos pedaços on 07/02/2010 at 0:12

Marcel Breuer, Cadeiras em quatro tamanhos, 1924

O Bauhaus queria ser as Casas Bahia: design bonito para as massas, pesquisa tecnológica aplicada à produção em série de objetos como cadeiras, luminárias, bules e jogos de chá. O significado de “massa”  no começo do século certamente não incluía uma conta de bilhões de pessoas. Mas a questão persiste: Os produtos populares precisam ser feios? Design é apenas para ricos? As massas devem ter acesso à beleza estética? Este problema não seria secundário quando se fala em saúde, saneamento básico, previdência social e educação?

Museu Bauhaus em Berlim, Neues Museum, também em Berlim, e sua bonita coleção de arte antiga. Tróia, civilização Cipriota, Europa na idade da pedra, dos metais, Egito: sempre a presença do ornamental. Qual a utilidade de anéis de outro doze séculos atrás? Para que enfeitar o cabo de uma espada, cuja função é apenas matar e ferir? Porque esculpir com maestria um simples copo para beber água e vinho?  

Meu conhecimento de história é insuficiente para chegar a uma resposta. Mas a presença da dimensão estética, seja ela uma realidade ou mera ilusão retrospectiva, parece perene. Qual a utilidade prática de se construir um copo brilhante e harmonioso ou uma espada decorada com pedras coloridas? Diferenciação de casta, de classe, de grupo?  Mas porque a diferenciação via beleza e não uma simples marca, sinal, simples, preto e branco, sem graça?

Há alguma coisa de arrebatador no estético, que faz mudar nosso estado mental imediatamente. Seja diante de um ser humano bonito, de uma roupa bonita, de um prato bonito, de um quadro bonito ou de uma escultura: algo acontece de mágico logo depois que nosso olhar toca cada uma dessas superfícies.

Adorno fala desse assunto em sua Teoria Estética, chamando de filistinos a todo aquele que se entrega cegamente à sensação de encantamento, cuja função é fazer com que os homens esqueçam da injustiça do mundo. O artista fornece “alívio”, “diversão”, “entretenimento” e é justamente isso que se deve combater, produzindo uma arte tensa, convulsa, que se recuse a fechar-se em si mesma e a elevar o espírito.

É preciso esfregar a sujeira na cara dos expectadores, da audiência, do respeitável público, um  gesto que vive da tensão entre o belo e a realidade da exploração, entre o estético e o grotesco da sociedade capitalista, entre o arrebatamento e o desespero do mundo completamente administrado.

Como o design se encaixa nisso? O que significa para o socialismo, produzir uma bela caneta a menos de 2 euros, numa sociedade completamente injusta? A beleza só poderá ser gozada sem culpa quando houver justiça total no mundo? Não sei como responder a nenhuma dessas perguntas.

Mas há uma questão anterior à da exploração que entra em jogo neste contexto: o caos do mundo diante de nossa existência finita, mortal e a possibilidade de controlar a natureza. Um objeto harmônico pode ser visto, nesse contexto, como um símbolo do humano diante do indeterminado. 

Traçar uma figura geométrica numa folha de papel alimenta o ideal de controlar nosso estar no mundo. Recortar o espaço com muros e lajes serve para a organizar a vida de uma certa maneira. Pintar um quadro, construir um bule, esculpir uma figura, tudo isso é sinal do humano sobre as coisas e a tudo isso se pode chamar de esclarecimento.

Sua hybris se chama “sociedade administrada”, sua medida justa se chama “socialismo”: não pode haver condenação tout court da dimensão estética. Mesmo numa sociedade injusta.

Mas qual é sua justa medida hoje para que a arte não sirva para ocultar a realidade da exploração? A resposta será dada obra a obra, a resposta está nas mãos de cada artista. Não parece ser possível ditar nenhuma fórmula pronta.