José Rodrigo Rodriguez

Berlim (e Hamburgo) aos pedaços (X): Traços do passado e futuros utópicos

In Aforismas e fragmentos, Berlim aos pedaços on 24/01/2010 at 16:03

Rua da Mooca, no bairro da Mooca (1957)

Minha mãe sentada na sala, contando as histórias que seus filhos e genros não agüentavam mais ouvir. Histórias sobre a Mooca e sobre sua vizinha do lado, de família espanhola, e dos vizinhos da frente: os da casa mais à esquerda, uma família de japoneses, os da casa mais à direita, uma família de italianos. Minha bisavó, que morava conosco, e meu avô, ambos libaneses, circulavam pela casa cuidando de seus afazeres. Minha avó não. Filha de austríacos, na janela, esquadrinhava o jardim da frente com seus olhos azuis precisos. Bolas chutadas nas camélias, as crianças depois da escola e no fim de semana. Seu jardim, tão bem cuidado, sempre motivo de briga. O filho da espanhola, muito mal educado, discussões constantes:

“Puta que o pariu, Espanha!”, disse minha bisavó, saindo na janela, para dar razão a minha mãe e ofender a vizinha, sob os aplausos dos portugueses, que moravam do lado direito de nossa casa.

“É isso aí dona Ana! Ela merece! Ataca logo a pátria!” 

Na escola do bairro, todos os dias, as crianças que moravam juntas se encontravam. E voltavam juntas para casa, a pé ou de bonde. Lembro do dia em que aprendi com um amigo a falar maçã em turco. Fiquei contente, agradecida, mas não consigo lembrar seu nome. Hoje caminho por estas ruas de Kreutzberg, pensando em minha mãe morta e em tantos nomes, que também matei. Cheguei da escola e contei logo para minha mãe. “Agora posso falar alguma coisa com o vizinho da frente!”, pensei, “pois ele ainda fala muito mal o alemão”. “Mas eles são vietnamitas!”, minha mãe explicou, “Vieram do Vietnã”. Ela não parecia muito feliz com minha descoberta, não sei se gostava muito de turcos. Essas coisas ela guardava para si mesma. Eu nunca tive nada contra, apesar de, quando criança, eu me lembrar de ter sim um desafeto turco. Ou melhor, uma turca: a senhora que limpava o hall do prédio. Com ela eu nunca quis falar. Ela era muito brava, ou pelo menos assim ela aparecia para uma criança de dez anos. Uma vez, esqueci o sapato na porta de casa e ela bateu lá para brigar. “Porque assim não podia varrer o corredor direito!”, disse, “Porque com essa neve faz uma grande sujeira!, disse. Meu pai pediu desculpas, e eu corri para o meu quarto, já esperando a bronca que viria. Nunca a perdoei.

* * *  

 

Uma das projeções da instalação "Placemaking" de Stefanie Bürkle, 2009

 Placemaking, instalaçãode Stefanie Bürkle, 2009, Berlinische Galerie, exposição “Berlim 89/09: “Arte entre traços do passado e futuros utópicos”. Quatro telas penduradas no meio da sala formando um cubo aberto, com as arestas separadas. É possível caminhar entre elas. Quatro projeções, que podem ser vistas dos dois lados da tela; lugares da cidade em que se poder perceber os traços físicos de outras culturas, recém incorporados na cidade. Pesquisa feita por uma equipe interdisciplinar de artistas e pesquisadoras, todas mulheres. Barraquinhas de comida e restaurantes turcos, prédios de apartamentos com portais em estilo oriental no meio de praças. Pois as pessoas se movem, de país para país, levando consigo não apenas a língua e os costumes, mas também seu lugar de origem. Agora, em outro tempo e em outro espaço, esses lugares se reencontram em Berlim e se inscrevem em sua paisagem: foi essa a idéia força do projeto, Placemaking. 

Acompanham as projeções ininterruptas, trechos de entrevistas em alemão, turco, polonês, vietnamita e russo. Entrevistas de imigrantes recentes sobre sua relação com a cidade, com seus vizinhos, com sua nova vida. Trechos selecionados das entrevistas são projetados em duas paredes opostas da sala, textos em alemão e em inglês, organizados graficamente como se fossem versos. Alguém diz algo como “Tenho uma loja na Friedrich Strasse desde a década de 70, muito bem sucedida, com muitos clientes. Hoje, quando saio na rua, ouço muitas línguas, turco, russo, polonês, às vezes o alemão. Nem parece que estou em Berlim. E eu gosto disso”. Mesmo a primeira impressão da cidade, sempre superficial, deixa isso muito claro. Entro num restaurante vietnamita, o dono é vietnamita, as garçonetes, o cozinheiro, todos vietnamitas. Vestidos de vietnamintas, falam vietnamita entre si; na parede a foto de seu rei e de sua rainha, ao lado do balcão, um altar para seus deuses com oferendas, água, velas, comida. Um restaurante turco, outro indiano, outro polonês, afirmações explícitas, quase agressivas, da identidade de seus donos e funcionários. 

Olhando a instalação, Placemaking, e circulando por esta cidade, penso não estar tão longe de entender o que se passa, certamente uma ilusão, entender o que se passa, mas que sempre reconforta. Pois tudo está acontecendo agora nesta cidade, tudo está acontecendo ali, diante dos nossos olhos; tudo se passa à flor da pele. E se essas fraturas, essas reinvenções, esses contatos, essas manobras linguísticas, estas roupas típicas (ou figurinos de cena), parece ser tão recentes, mas tão recentes, quase como eu estar aqui. Talvez a única possibilidade seja mesmo ter uma a primeira impressão de tudo que se passa aqui. Migração recente, ainda sem muita mistura; justaposição de identidades: quem sabe uma síntese futura, uma cidade misturada e mestiça. Uma outra cidade. Penso em São Paulo. Penso nos nordestinos.

Kreutzberg, foto recente

Lembro de minha avó e de suas histórias de libaneses, portugueses, espanhóis e turcos, de vietnamitas, poloneses, russos e japoneses, todos se misturam na minha memória, todos se embaralham no meu presente e convoco a todos, agora, para participar dessa minha história. Minha pequena vida de dois meses em São Paulo, um amigo turco e vizinhos indianos; minha pequena vida de dois séculos em Berlim, um amigo japonês e vizinhos libaneses. Lembro de minha avó e de suas histórias: é como se eu vivesse agora seu passado de muitas línguas, também o passado de minha mãe, de línguas que não dominava e de pessoas que não entendia, como o passado de meu pai, as línguas ainda frescas na memória; eu, eles e minha avó morta, junto com todos os nomes que eu também já matei, naquelas as esquinas da Mooca, ainda ressoando seus passos, e no ar, ainda o espalhando o cheiro de sua comida, aqui em Kreutzberg, nessa mesma cozinha. Penso no nordestinos.

Naquela mesma vila e neste mesmo apartamento na rua Görlitzer 65, nestas esquinas de Kreutzberg, minha avó sentada nesta cozinha, também sentada naquela cozinha, brigando com as crianças turcas e xingando as mães espanholas, na Mooca, brigando com as crianças italianas e xingando as mães vietnamitas. Viver agora como se a São Paulo de hoje fosse o futuro de Berlim, e o seu passado, o presente de Berlim, esta ilusão que reconforta, esta cidade que vive agora entre traços do passado e futuros utópicos. Uma São Paulo passada de futuros utópicos. Uma Berlim de futuros e passados utópicos. São Paulo e seus turcos nordestinos, também Berlim e seus habitantes recém-chegados, o presente de Berlim, o presente de São Paulo. Tudo isso nos traços de tudo aquilo que eu posso ver. Tudo isso nos traços de tudo aquilo que eu não posso mais ver. Uma ilusão, mas que reconforta. Como a memória, mesmo inventada. Mesmo uma avó, se inventada. Uma cidade, sempre inventada. Lembrar dela, edificá-la, fazê-la. Fazendo seu lugar. Placemaking 

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