José Rodrigo Rodriguez

Berlim (e Hamburgo) aos pedaços (VI):Porque gente tosca é gente legal

In Aforismas e fragmentos, Berlim aos pedaços on 15/01/2010 at 9:55

para Ana

Alguns leitores ficaram um pouco chocados com minha descrição da premiere de Phantomanie, especialmente com meu amor por coisas toscas e gente tosca. Por isso, vou gastar mais dois parágrafos para tentar explicar.

Em síntese, e isso está na origem do punk e, no meu modo de ver, na crítica de arte materialista, o fechamento da esfera estética em si mesma resulta na morte da força crítica da arte. Ela se torna uma coisa anódina, sem muita relação com a vida e com os problemas sociais mais concretos; uma compensão hamoniosa por um mundo dilacerado. Alívio nesse mundo cão.

O punk surge como reaçãoa isso. O Rock estava se estetizando, aproximando-se da música sinfônica, e se tornando uma música domesticada, sem viço, sem força expressiva. Ao menos sem  força para expressar as questões que preocupavam boa parte da sociedade, ocupada em ganhar dinheiro, ter o que comer, arrumar emprego, arrumar os dentes.

Shane MacGowan, ex-vocalista dos Pogues

É claro, o punk surge numa época complicada, em que a indústria cultural já se formara com seu poder de se apropriar e transformar em mercadoria tudo que é espontâneo e vivo. Os Sex Pistols já são, em parte, o resultado disso.

O tosco do grupo foi estetizado imediatamente pelo esperto Malcom MacLaren, a ponto de virar um “estilo” com figurino e maquiagem. Hoje, gente chata, previsível e convencional pode viver sua fantasia punk comprando roupas e indo ao cabeleireiro. O tosco vira moda. A estetização burguesa e conformista do tosco é a Lady Gaga.

A sociedade é pródiga em compensar artistas que fazem com que ela se sinta melhor. Carros de luxo, mansões, dinheiro, fama, poder simbólico. A veia estetizante é a veia do sucesso.

Claro, com a indústria cultural em funcionamento, é cada vez mais difícil fugir da estetização. O que hojé é punk amanhã pode virar Lady Gaga. Por isso, é preciso sabotar continuamente o bom gosto, investir constantemente contra o fechamento da esfera estética em si mesma, introduzindo nela ambiguidades que podem assumir a forma de coisas toscas como o filme que vi ontem.

Há outros caminhos, menos unilaterais, como o trilhado pelo grupo de teatro de rua Tablado de Arruar, que investe em esquetes simples, mas sofisticados, que tratam de problemas sociais candentes, sem perder a força estética, mas sem cair no teatrão que faz a gente se sentir melhor consigo mesmo.

Foto de divulgação da peça Movimentos para atravessar a rua, concebida na Praça da Sé, em 2005

Nesse caso, talvez mais interessante do que  Phantasmagorie, aproveita-se a força de comunicação das formas estetizantes, atraindo o público para dentro da obra e não expulsando-o logo de cara, para depois introduzir algum incômodo, tornando esta forma contraditória. Fica um gosto amargo e faz pensar, não flutuar.

Phantasmagorie é mais agressivo e talvez menos eficaz do que as coisas do Tablado de Arruar. Mas enfim, todos estão do mesmo lado, contra o aburguesamento e o bem estar provocado por obras de arte perfeitas, harmônicas, idílicas, que só nos fazem bem. Às vezes, para este fim, será preciso usar lutadores de luta livre e gente sem dente.

Eu preferia, é claro, que a falta de dente fosse maquiagem. Mas não era, infelizmente. Por isso eu prefiro o Tablado, mas não consigo não gostar de Phantasmagorie.

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