José Rodrigo Rodriguez

Berlim (e Hamburgo) aos pedaços (III): Görlizer Park

In Aforismas e fragmentos, Berlim aos pedaços on 07/01/2010 at 9:35

Uma cidade desconhecida, a vida que eu poderia ter tido. Neste parque tantas vezes e tantas vezes por estas ruas e pátios e jardins internos. A madeira da mesma mesa cobre minhas mãos enquanto eu escrevo no papel de letras rabiscadas sem fazer muito nexo com desenhos coloridos nas paredes de guache e nankin. Algum rodapé escondido ou porta dentro do armário e a ponta de meu canivete, os nomes gravados na pele de minhas mãos frias de neve, estes nomes rabiscados na madeira para sempre, ou quem sabe na pedra do muro centenário desta rua repleta, por detrás dos chapéus e dos gorros, as testas suadas, por detrás destas portas e janelas, finalmente, deitar meu corpo sobre o seu.  

Tantos casacos e luvas e tantas pausas antes de entrar e sair por estas portas altas sem trincos. Vestidos e vestidos, as peles sobre as peles e estas marcas de suor no pescoço sem dentes e sem respiro. As pausas entre os passos e os guarda-chuvas com gotas de neve entre as varetas, entrando pelas portas abertas que ligam as escadas entre nossos apartamentos repletos de farinha e ovos. Você e este cheiro abafado de aspargos, comigo neste gosto azul de maçã e laranja congelada. Farinha e ovos na forma nova de um bolo e de uma torta sobre a mesa, você na minha pele escorrendo derretido. Você na minha boca nesta massa doce de morango e gelo.

A cidade em que nunca estive, a vida desta vez, agora. Agora eu sei o que vejo. O que existe e o que não existe, o que eu li e o que eu não li, o que eu pude explicar e o que ficou sem entender. A clareza de um cristal na vastidão dos clichês. Agora eu sei completamente o que pensar. Esta idéia material, esta mão material sobre este corrimão de madeira. Agora eu sei o tecido e a tesoura que recorta meu corpo sobre os clichês na máquina de costura montada no quarto dos fundos desta camisola.

Linhas de lã e recortes de veludo, construindo minhas pernas, estas mãos de pele fina de uma avó que eu poderia ter conhecido. Já não sei o que cheirar, e o gosto desta torta doce de mel e nozes. A vida agora em que eu já estive, nesta cidade concreta sem luz. Minha avó, morta ou viva. Provavelmente viva.  Simultaneamente viva, recortando as palavras que entram sem parar pelas frestas com o vento e posso ouvir sem esforço. Às vezes eu quero ouvir e às vezes não. Mas às vezes é possível escolher, apurar o ouvido e juntar as vozes de silvo com o vento. E distinguir se quem geme é uma alma ou apenas um nuvem. Apenas.

As vozes simultâneas das nuvens e das almas que nos são vulneráveis. Sempre haverá frestas no tecido que a pele fina das mãos gostaria de reconstruir. Gostaria de ser capaz ou seria capaz de tecer com as pausas necessárias para comer e dormir, ou mesmo sem elas, o mais rápido possível. A neve também era branca na minha memória e também fazia frio. Ela também cobria gelo as paisagens que envelheci inventando ou que envelheci de tanto inventar. Você, eu sei, eu nunca inventei, pois sonhar não tem nada a ver com isso. Inventar se faz na matéria e em minha oficina não entram unicórnios. Os sonhos  sempre involuntários: não nesta oficina. Aqui, os homens e as bestas envelhecem do mesmo tempo se esvaindo; e também as moscas no pão sobre a pia molhada de leite, esvoaçando no frio desta cozinha suja.

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