José Rodrigo Rodriguez

Hamburgo (e Berlim) aos pedaços (II): O pau tem que comer

In Aforismas e fragmentos, Berlim aos pedaços on 02/01/2010 at 23:37

Estou no Zoe Bar na Clemens-Schultz-Str. 96, Hamburgo, cenário de “Contra a parede” de Fatih Akin. Sem querer, esta viagem está se tornando uma espécie de ”tour Fatih Akin”, a ponto de eu ter perdido um pouco a vontade de ir para Berlim. Teria sido um acaso que um dos cineastas que mais me entusiasmam tenha nascido nesta cidade? Olho para as paredes vermelhas do bar sem desconfiar da resposta e bebo mais um gole de vinho no copo grosso de vidro.

O debate recente entre Roberto Schwarz e Michael Wood a propósito da interpretação de Machado de Assis me vem a memória. Roberto criticou o colega novaiorquino por ele ter sido, supostamente, culpado de um “gesto imperial” em sua leitura de Machado ao conferir pouca importância ao local em que o bruxo do Cosme Velho escreveu, em favor da construção de um cânone de grandes autores internacionais.  

Em sua resposta, Michael Wood se defende e, a despeito de reconhecer os perigos do gesto imperial, tenta mostrar que não foi este o caso, além de procurar legitimar seu ponto de vista diante da impossibilidade construir uma leitura que não parta de sua realidade, de sua cultura, de seu meio. No limite, toda leitura estrangeira poderia ser classificada de imperial, inclusive aquela que levantou a hipótese do narrador não confiável, resultado da comparação de Bentinho com Othelo, trabalho da norte-americana Helen Caldwell, amplamente utilizada pelo próprio Roberto Schwarz.

Sem a pretensão de resolver esta controvérsia, fico pensando no meu olhar sobre Fatih Akin. Por ser brasileiro, provavelmente estou desculpado de qualquer gesto imperial, a não ser que estivéssemos falando de um artista paraguaio, boliviano, venezuelano etc. O Brasil só é imperial na América Latina, fato que parece não perturbar muito os intelectuais de esquerda.

De qualquer forma, se o gesto não é imperial (na falta de um Império), poderia ser dito, eventualmente, empobrecedor, inadequado, incongruente, por ser incapaz de dar conta das peculiaridades locais e das referências nacionais que meu cineasta favorito interpreta e critica. O meu consolo é que, provavelmente, se eu levasse essa preocupação para Fatih Akin ele me tranquilizaria. Não é plausível que alguém como ele, preocupado com a diversidade de culturas e pontos de vista, deixasse de se interessar pela visão de um brasileiro sobre a sua obra.

Claro, se eu fosse um crítico de cinema e um americano, pode ser que sua tolerância não fosse tão grande, pois minhas palavras teriam uma força e um peso realmente ameaçadores para suas pretensões artísticas. A falta de poder simbólico e de relevância garantem-me a liberdade de falar qualquer bobagem, sem ter que me preoupar com questões político-culturais tão complexas. Bebo mais um pouco de vinho e do vermelho das paredes, ainda pensando e pensando e pensando…

Minha amiga Renata e seu marido Andreas estão sentados ao meu lado, tambem fãs de Fatih, ambos moradores da cidade de Hamburgo. Toca um rock atrás de outro, agora, pareço ouvir Die Ärtze. Há três minutos, Echo & The Bunnymen. Penso em “Contra a parede” , especialmente nas brigas ferozes do casal de protagonistas, uma delas ocorrida exatamente neste bar, e como para  dissipar estes problemas de alta indagação, olho para eles e digo:

– Acho que eu me sentiria bem mais feliz se vocês dois quebrassem o pau aqui mesmo! Que tal? Não seria interessante? Vamos lá…

Um Andreas de olhar pacato, tolerante e profundamente pacífico me devolve uma expressão  já sonolenta, as duas horas da manhã, acompanhada de uma risada sincera. Renata apenas ri. Mas eu insisto:

– Mas Andreas, me diga, alguma vez você já brigou com alguém? Já deu um soco na cara de alguém?

– Você diz assim, brigar de matar de verdade? Hummmm…. Acho que não, mas me deixa lembrar… Hummmm….

Diante da quase impossibilidade de obter uma reação agressiva de ambos os componentes do casal, que agoram riem da minha cara de mãos dadas e aos beijinhos, desisto a contragosto do meu projeto de reviver “Contra a parede” e continuo a beber o vinho das paredes vermelhas e a pensar em Fatih Akin, no Império Americano, no bruxo do Cosme Velho, na invasão do Iraque, no presidente do Irã, em linguiças com curry e batatas fritas, já sem nenhuma vontade de deixar esta cidade, seus problemas e meus amigos.

Anúncios
  1. Fight Club! O jeito é brigar com você mesmo!!! rsrs E vamo pra porrada!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: