José Rodrigo Rodriguez

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Hamburgo (e Berlim) aos pedaços (XIII): O pão com gordura de porco é grátis

In Aforismas e fragmentos, Berlim aos pedaços on 31/01/2010 at 22:26

Bar Der Clochard na Reeperbahn,  Hamburgo. O cheiro de xixi na entrada e o som que se ouvia naquele corredor todo pixado e espremido entre boates pornô e sex shops me fez sentir em casa. AC/DC no último volume, ZZ Top e bandas punk alemãs, durante o tempo que permaneci no local. 

Um salão pequeno, escuro e sem janelas com cara de sótão, com uma mesa de pebolim no centro e mesas comunitárias por todos os lados, escuras e sujas. Nos fundos, uma porta que se abre para um pátio externo cheio de bancos de madeira enfileirados, todo cercado por grades, provavelmente para evitar que cervejas sejam arremessadas na rua.

Nas paredes, pixações variadas, flyers de shows e cartazes de diversos tipos, todos conspirando para compor a decoração em tons de preto claro e preto escuro, certamente uma criação coletiva para a qual contribuíram anos e anos de fumaça de cigarros. Algumas paredes cobertas de madeira, como o balcão logo à direita da entrada. O chão, cheio de garrafas quebradas e lama, uma mistura de água – resultado da neve derretida, trazida para dentro nos sapatos dos clientes –  e sujeira. Ambiente acolhedor.

No centro do bar, um homem grande de idade indefinida, muito parecido com um sátiro, barba longa e cabelos longos, todo vestido de negro, com correntes, anéis e braceletes, executava coreografias entusiasmadas, acompanhando todas as músicas que tocavam.  O sátiro bebia em grandes goles, num copo de cerveja alto e largo, uma mistura de algum destilado e limão. Bebedor profissional.

Ao lado dele, um rapaz que parecia ser, de fato, um morador de rua, cumprindo a promessa do nome do bar (“clochard” em françês, andarilho, mendigo),  também dançava animadamente, balançando a cabeça e comendo um pedaço de pão preto. Quando a música os empolgava um pouco mais, os dois se abraçavam e juntavam as cabeças, sorrindo de felicidade, entregues à tarefa de embebedar-se ao som da excelente seleção musical.

O restante dos frequentadores seguia o mesmo estilo, idades variadas, exceto algumas meninas mais jovens e rapazes entre 20 e 30 anos. Entre os clientes, um velho marinheiro de barbas brancas e chapéu característico, um punk com um moicano mal cuidado e seboso, com cara de malvado e todo tatuado, alguns bêbados terminais e moradores de rua, que dormiam pelos cantos, entre outros personagens. Mas também muita gente com jeito e cara de normal, como eu e meus amigos. Todos conversando, bebendo e ouvindo música.

Nunca me senti tão confortável num lugar na minha vida.  As pessoas pareciam estar ali, de fato, apenas  para viver a sua maluquice, a sua auto-destruição ou a sua viagem, sem qualquer preocupação em impressionar quem estava do lado.

Mas não eram todos autistas, ao contrário. Cortezes, puxaram conversa quando eu e meus amigos demos espaço, notaram minha empolgação com a música, estimulando- me com gestos de aprovação e incentivo, o que criou um ambiente acolhedor e de respeito.

“Eu não sei o que estou fazendo aqui hoje e vocês, sabem?”, perguntou-nos um rapaz completamente bêbado, mas extremamente educado, que partilhava nossa mesa.

“Genau! (Exatamente!)”, respondeu, sempre rápida, minha amiga Renata, começando uma conversa meio desconexa que só terminou quando fomos embora.

Esse sempre foi o espírito original do punk: “You are welcome, one of us!”, seja você um engomadinho, um junkie, um bêbado terminal, um estudante, um mendigo, uma prostituta, uma patricinha. E queremos ouvir sua estória. Você será aceito sem julgamento, desde que tolere que todos os outros embarquem em sua própria maluquice.

Vai doer deixar Der Clochard tão longe de mim, a um oceano de distância. Especialmente porque, à esquerda do balcão, um cartaz avisa os frequentadores, logo abaixo de grandes pilhas de pão preto: “O pão com gordura de porco é grátis”. À disposição dos clientes, para evitar os efeitos maléficos da bebida em profusão, pão besuntado de banha de porco. Gratuitamente.

É comovente pensar que o estabelecimento se preocupe com a sobrevivência de seus clientes. Pois muitos ali estão, de fato, a caminho de uma cirrose ou, pura e simplesmente, da morte. Sem exagero ou piada.

Mas mesmo estas pessoas precisam de um lugar para se divertir e socializar. Para dançar e puxar uma conversa fiada. Der Clochard é esse lugar. O bar perfeito.

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Berlim (e Hamburgo) aos pedaços (XII): Madeira, argila, pedra, carne, suor e sangue

In Aforismas e fragmentos, Berlim aos pedaços on 29/01/2010 at 21:49

Pense na Rua Oscar Freire ou em uma rua qualquer do Alto Leblon, Savassi ou outro bairro chique de uma capital brasileira com um prédio em escombros no meio, todo pichado, cheio de artistas e gente estranha de todo o tipo. Esta é a Kunsthaus Tacheles em Berlim que funciona em um edifício parcialmente destruído durante a segunda guerra, ocupado por artistas logo após a queda do muro.

Espaço para ateliês, sede de um teatro, de dois cinemas e dois bares, um deles chamado Zapata, este centro cultural autônomo tenta resistir às mudanças que ocorrem na região: instalação de lojinhas transadas, restaurantes chiques, escritórios de arquitetura e design, ateliês de chocolate e outros estabelecimentos do mesmo tipo, entre eles, não pude deixar de notar, uma loja especializada em boinas. Boinas às centenas, de todas as cores, de todos os tipos, tecidos, tamanhos. Boinas e boinas e boinas…

“Gentrification”, diz-se em inglês, aburguesamento, pode-se dizer em português. É o que está acontecendo, por exemplo, com a Vila Madalena em São Paulo. Quando os maiores idiotas que você conhece resolvem se mudar para o bairro, aquele tipo de pessoa se jacta citando nomes e nomes de artistas de Nova Iorque que ninguém conhece e faz questão de posar como dândi sem ter talento ou originalidade alguma, é evidente que alguma coisa estranha está se passando na região.

Eu sempre me espanto com o fato de, historicamente, gente rica e descolada adorar fazer pose de artista e estar no meio deles. Acho notável. Será que é uma tentativa de comprar o talento que não se tem? Simples assim? Não sei… Claro, isso é muito bom para ambas as partes quando o resultado é a compra de quadros, a edição de livros, a realização de exposições e outras atividades de mecenato. A arte tem essa capacidade de excitar o filistinismo e se colocar ao lado de charutos, vinho, pratos de gourmet, discos de música clássica, mas dane-se. Dinheiro é dinheiro.

O problema está nessa relação terminar em despejo como no caso da Tacheles, ameaçada pela especulação imobiliária na região do Mitte, onde está situada. Aconteceu com o Village em Nova Iorque e com a Vila em São Paulo: trata-se da irracionalidade capitalista em ação. Os ricos pagam para ficar perto dos artistas, constroem suas lojinhas e escritórios nas redondezas e… Surpresa! Valorizam a área, que fica cara demais para os artistas permanecerem ali.

Por isso acho que, em interesse próprio, os ricos deveriam subsidiar moradias baratas para que os artistas ficassem onde estão. Senão vão terminar aburguesando a cidade toda, até mesmo a decadente e bagunçada Kreutzberg, e terei que procurar outra cidade para visitar. Porque além dos museus, a única coisa que me interessou realmente em Berlim até agora foi esse bairro.

É sempre chocante lembrar como a arte não tem nada a ver com isso. Nada a ver com afetação, sofisticação, presença de espírito, gente moderna e descolada. A arte é um embate seminal com materiais virgens que precisam ser dobrados, torcidos, forjados e trabalhados, sempre obsessivamente, até que se atinja um resultado pelo menos razoável. É uma tarefa física mais do que intelectual. Seminal, bruta e nada harmoniosa.

Entrar no ateliê de um artista de verdade, como se pode fazer na Tacheles, ou privar da intimidade de um escritor, de um compositor sério,  dá a dimensão real desta atividade, muito próxima de ofícios como os de sapateiro, pintor de paredes, marceneiro, tecelão. A arte está visceralmente ligada ao artesanato e isso nunca vai mudar.

Por isso não adianta ter apenas talento. É preciso ser obsessivo, insistente, teimoso. Muita gente é capaz de escrever um verso engraçadinho, uma parágrafo bonitinho, fazer um desenho interessante ou uma música simpática, tirar uma foto bem sacada ou fazer uma firula qualquer. Mas um artista é muito mais do que isso. Ele nasce de centenas de noites mal dormidas em cima da prancheta ou diante da tela do computador, de dias e dias tentando resolver um verso ou lixando um pedaço de madeira ou pedra, de horas e horas apertando parafusos, torcendo e queimando com ácido chapas de metal, até chegar ao resultado esperado. Não existe artista de fim de semana.

Uma boa obra nasce da repetição, da insistência, de milhares de ensaios e estudos, da tentativa, do erro, da decepção, da alegria de ir testando os limites da sua paciência e da matéria, que apenas espera, inerte, bem na sua frente, cada gesto de violação, todos imprescindíveis para se forjar uma obra.

Pois o material raramente se dobra com facilidade, as palavras não respondem assim que solicitadas, as cores nem sempre estão sob controle, imagens se esfumaçam e idéias se perdem, se desviam. Por isso mesmo, ao lado da mesa de trabalho, pilhas e mais pilhas de folhas de papel se acumulam; ao lado da tela e do cavalete, tubos e tubos de tinta vazios se espalham, por todos os lados do ateliê pode-se ver pedaços descartados de madeira, argila, pedra, carne, suor e sangue.

Berlim (e Hamburgo) aos pedaços (XI): Participe da suruba multicultural queer na cabana de Martin Heidegger

In Aforismas e fragmentos, Berlim aos pedaços on 27/01/2010 at 20:15

Escrevo para convocar todos os interessados a participarem de uma suruba multicultural queer de 24 horas a se realizar na cabana de Martin Heidegger em Todtnauberg, Alemanha. A atividade será intitulada “O Ser são vários (e eu amo todos ao mesmo Tempo)” e terá como objetivo promover a diversidade e a integração ideológica, étnica, cultural e sexual.

Durante a atividade haverá a apresentação de  DJs e bandas ao vivo, além da distribuição gratuita de preservativos e água. Cada participante será responsável, evidentemente, por sua própria comida.

A atividade será filmada e fografada, respeitando-se a identidade dos participantes que não desejarem aparecer em filmes e fotos. Com este material, será realizado um documentário e uma exposição.

Todos os participantes contarão com serviços jurídicos gratuitos caso sofram ameaças de deportação ou sejam processados pelas autoridades em razão da atividade, cujo cunho é essencialmente político.

Interessados em participar da suruba, por favor, escrevam para este blogue para serem informados do dia e do horário, estratégia para entrar e permanecer na cabana e trajes requeridos para serem admitidos no recinto.

Berlim (e Hamburgo) aos pedaços (X): Traços do passado e futuros utópicos

In Aforismas e fragmentos, Berlim aos pedaços on 24/01/2010 at 16:03

Rua da Mooca, no bairro da Mooca (1957)

Minha mãe sentada na sala, contando as histórias que seus filhos e genros não agüentavam mais ouvir. Histórias sobre a Mooca e sobre sua vizinha do lado, de família espanhola, e dos vizinhos da frente: os da casa mais à esquerda, uma família de japoneses, os da casa mais à direita, uma família de italianos. Minha bisavó, que morava conosco, e meu avô, ambos libaneses, circulavam pela casa cuidando de seus afazeres. Minha avó não. Filha de austríacos, na janela, esquadrinhava o jardim da frente com seus olhos azuis precisos. Bolas chutadas nas camélias, as crianças depois da escola e no fim de semana. Seu jardim, tão bem cuidado, sempre motivo de briga. O filho da espanhola, muito mal educado, discussões constantes:

“Puta que o pariu, Espanha!”, disse minha bisavó, saindo na janela, para dar razão a minha mãe e ofender a vizinha, sob os aplausos dos portugueses, que moravam do lado direito de nossa casa.

“É isso aí dona Ana! Ela merece! Ataca logo a pátria!” 

Na escola do bairro, todos os dias, as crianças que moravam juntas se encontravam. E voltavam juntas para casa, a pé ou de bonde. Lembro do dia em que aprendi com um amigo a falar maçã em turco. Fiquei contente, agradecida, mas não consigo lembrar seu nome. Hoje caminho por estas ruas de Kreutzberg, pensando em minha mãe morta e em tantos nomes, que também matei. Cheguei da escola e contei logo para minha mãe. “Agora posso falar alguma coisa com o vizinho da frente!”, pensei, “pois ele ainda fala muito mal o alemão”. “Mas eles são vietnamitas!”, minha mãe explicou, “Vieram do Vietnã”. Ela não parecia muito feliz com minha descoberta, não sei se gostava muito de turcos. Essas coisas ela guardava para si mesma. Eu nunca tive nada contra, apesar de, quando criança, eu me lembrar de ter sim um desafeto turco. Ou melhor, uma turca: a senhora que limpava o hall do prédio. Com ela eu nunca quis falar. Ela era muito brava, ou pelo menos assim ela aparecia para uma criança de dez anos. Uma vez, esqueci o sapato na porta de casa e ela bateu lá para brigar. “Porque assim não podia varrer o corredor direito!”, disse, “Porque com essa neve faz uma grande sujeira!, disse. Meu pai pediu desculpas, e eu corri para o meu quarto, já esperando a bronca que viria. Nunca a perdoei.

* * *  

 

Uma das projeções da instalação "Placemaking" de Stefanie Bürkle, 2009

 Placemaking, instalaçãode Stefanie Bürkle, 2009, Berlinische Galerie, exposição “Berlim 89/09: “Arte entre traços do passado e futuros utópicos”. Quatro telas penduradas no meio da sala formando um cubo aberto, com as arestas separadas. É possível caminhar entre elas. Quatro projeções, que podem ser vistas dos dois lados da tela; lugares da cidade em que se poder perceber os traços físicos de outras culturas, recém incorporados na cidade. Pesquisa feita por uma equipe interdisciplinar de artistas e pesquisadoras, todas mulheres. Barraquinhas de comida e restaurantes turcos, prédios de apartamentos com portais em estilo oriental no meio de praças. Pois as pessoas se movem, de país para país, levando consigo não apenas a língua e os costumes, mas também seu lugar de origem. Agora, em outro tempo e em outro espaço, esses lugares se reencontram em Berlim e se inscrevem em sua paisagem: foi essa a idéia força do projeto, Placemaking. 

Acompanham as projeções ininterruptas, trechos de entrevistas em alemão, turco, polonês, vietnamita e russo. Entrevistas de imigrantes recentes sobre sua relação com a cidade, com seus vizinhos, com sua nova vida. Trechos selecionados das entrevistas são projetados em duas paredes opostas da sala, textos em alemão e em inglês, organizados graficamente como se fossem versos. Alguém diz algo como “Tenho uma loja na Friedrich Strasse desde a década de 70, muito bem sucedida, com muitos clientes. Hoje, quando saio na rua, ouço muitas línguas, turco, russo, polonês, às vezes o alemão. Nem parece que estou em Berlim. E eu gosto disso”. Mesmo a primeira impressão da cidade, sempre superficial, deixa isso muito claro. Entro num restaurante vietnamita, o dono é vietnamita, as garçonetes, o cozinheiro, todos vietnamitas. Vestidos de vietnamintas, falam vietnamita entre si; na parede a foto de seu rei e de sua rainha, ao lado do balcão, um altar para seus deuses com oferendas, água, velas, comida. Um restaurante turco, outro indiano, outro polonês, afirmações explícitas, quase agressivas, da identidade de seus donos e funcionários. 

Olhando a instalação, Placemaking, e circulando por esta cidade, penso não estar tão longe de entender o que se passa, certamente uma ilusão, entender o que se passa, mas que sempre reconforta. Pois tudo está acontecendo agora nesta cidade, tudo está acontecendo ali, diante dos nossos olhos; tudo se passa à flor da pele. E se essas fraturas, essas reinvenções, esses contatos, essas manobras linguísticas, estas roupas típicas (ou figurinos de cena), parece ser tão recentes, mas tão recentes, quase como eu estar aqui. Talvez a única possibilidade seja mesmo ter uma a primeira impressão de tudo que se passa aqui. Migração recente, ainda sem muita mistura; justaposição de identidades: quem sabe uma síntese futura, uma cidade misturada e mestiça. Uma outra cidade. Penso em São Paulo. Penso nos nordestinos.

Kreutzberg, foto recente

Lembro de minha avó e de suas histórias de libaneses, portugueses, espanhóis e turcos, de vietnamitas, poloneses, russos e japoneses, todos se misturam na minha memória, todos se embaralham no meu presente e convoco a todos, agora, para participar dessa minha história. Minha pequena vida de dois meses em São Paulo, um amigo turco e vizinhos indianos; minha pequena vida de dois séculos em Berlim, um amigo japonês e vizinhos libaneses. Lembro de minha avó e de suas histórias: é como se eu vivesse agora seu passado de muitas línguas, também o passado de minha mãe, de línguas que não dominava e de pessoas que não entendia, como o passado de meu pai, as línguas ainda frescas na memória; eu, eles e minha avó morta, junto com todos os nomes que eu também já matei, naquelas as esquinas da Mooca, ainda ressoando seus passos, e no ar, ainda o espalhando o cheiro de sua comida, aqui em Kreutzberg, nessa mesma cozinha. Penso no nordestinos.

Naquela mesma vila e neste mesmo apartamento na rua Görlitzer 65, nestas esquinas de Kreutzberg, minha avó sentada nesta cozinha, também sentada naquela cozinha, brigando com as crianças turcas e xingando as mães espanholas, na Mooca, brigando com as crianças italianas e xingando as mães vietnamitas. Viver agora como se a São Paulo de hoje fosse o futuro de Berlim, e o seu passado, o presente de Berlim, esta ilusão que reconforta, esta cidade que vive agora entre traços do passado e futuros utópicos. Uma São Paulo passada de futuros utópicos. Uma Berlim de futuros e passados utópicos. São Paulo e seus turcos nordestinos, também Berlim e seus habitantes recém-chegados, o presente de Berlim, o presente de São Paulo. Tudo isso nos traços de tudo aquilo que eu posso ver. Tudo isso nos traços de tudo aquilo que eu não posso mais ver. Uma ilusão, mas que reconforta. Como a memória, mesmo inventada. Mesmo uma avó, se inventada. Uma cidade, sempre inventada. Lembrar dela, edificá-la, fazê-la. Fazendo seu lugar. Placemaking 

Berlim (e Hamburgo) aos pedaços (IX): Arte sem corpo e sem sujeito: “SUSI POP bin ich”

In Aforismas e fragmentos, Berlim aos pedaços on 23/01/2010 at 18:54

Charts 97, Nr.2, Les femmes d'Alger, 1998

SUSI POP não é uma artista de carne e osso, mas um rótulo, apropriado ao longo do tempo por vários artistas diferentes. SUSI POP não tem biografia ou corpo ou alma: é um conjunto de procedimentos, nascidos em Berlim faz 21 anos, que produziram uma obra bastante homogênea. É o resultado esperado da adoção de princípios compositivos bastante rígidos: 1) a  apropriação de obras clássicas, transformadas em silk-screen cor de rosa; 2) a apropriação de fotografias históricas, tranformadas em silk-screen cor de rosa; 3) retratos de pessoas, comissionados pelos clientes, também cor de rosa, feitos a partir de fotos. 

Radicalização do POP ART: crítica ao artista como dandy, melancólico e atormentado, ou simples reificação da arte e mercantilização de seus procedimentos? O projeto levanta muitas questões: sobre a idéia de autoria na arte, sobre o papel da biografia em sua interpretação, sobre a natureza do fazer artístico… Mas o resultado final da maquininha SUSI POP tende a ser, na minha opinião, um pouco repetitivo e monótono, sempre beirando o decorativo. A despeito da dificuldade óbvia de combinar um quadro rosa com o sofá e a mesa da sala.

Para um escritor lírico como eu, SUSI POP deveria ser um tapa na cara. Mas o lirismo mudou desde o romantismo. Deixou de ser apenas a expressão de estados de alma para abordar o sujeito de uma outra maneira. Trata-se de saber, afinal, o que significa ser sujeito num mundo massificado, dominado pela racionalidade instrumental que exige adaptação, adequação e domesticação dos sentidos, dos desejos, das condutas. A possibilidade de ser sujeito está sob ataque. Querem nos convencer que ser sujeito é comprar produtos exclusivos, passar as férias em lugares exóticos, usar roupas transadas e ouvir música alternativa; nunca viver e pensar de maneira autônoma.

Horários rígidos de trabalho, gestos rígidos no espaço público, nenhuma espontaneidade, nenhum espaço para o devaneio e a experimentação, exceto durante as horas vagas, nas folgas ou as férias, quese tornam cada vez mais curtas. Ser sujeito é adaptar-se ao trabalho para trazer o salário para casa, é adaptar-se a relacionamentos estandarizados para sentir-se melhor perante a sociedade, é adaptar-se às leis do estado para não ir para a cadeia, é seguir fielmente os princípios de sua religião. Pode ser também desrespeitar todas essas regras para virar um marginal de almanaque, igualmente previsível, igualmente reificado, igualmente inofensivo.

Ser previsível e conformar-se a regras (ou à sua desobediência, o que dá na mesma) talvez seja uma tara humana inescapável… É justamente isso que um lírico nunca poderá aceitar. Há que existir um cerne de individualidade na alma de todo ser humano; que apenas espera um canal para conseguir se expressar. Há que haver um cerne de pensamento autônomo atrás de todo miltante radical, um cerne de espontaneidade por trás de todo namorado/namorada tirânica com suas regras de conduta moral estrita; um cerne de liberdade na alma de todo burocrata de espírito.

Fico pensando que, talvez, uma experiência semelhante a SUSI POP, mas no sentido inverso, pudesse testar essa hipótese. Criar um selo artístico sem corpo ou alma para que qualquer um pudesse expressar, por meio dele, seus impasses subjetivos. Será possível recriar os (pouco comentados) experimentos de escrita automática e coletiva dos surrealistas? Criar princípios compositivos mais elásticos que abram um espaço maior para a invenção, para outros materiais, para outras possibilidades?

Vivemos hoje um certo renascimento do sujeito na arte.  Valorização da biografia, das experiências pessoais, da subjetividade. Também o fenômeno dos blogues: não posso olhar para isso tudo com maus olhos. As subjetividades esmagadas estão gritando e levantando suas cabeças. Claro, é preciso evitar os excessos, naturais a este renascimento. Afinal, ainda não é o caso de celebrar. A experiência de ser sujeito ainda é privilégio de alguns poucos, aqueles com mais tempo livre, com mais abertura de alma e com mais coragem de enfrentar a rejeição de seus repectivos grupos. 

Talvez cheguemos a um novo equilíbrio entre subjetividade e objetivação; as regras do meu experimento poderiam ajudar a conter o excesso de subjetivismo para atingirmos um outro patamar… Seja como for; seja alguém capaz ou não de realizar esta minha sugestão de experiência anti-SUSI POP, esta maquininha de fazer arte faz pensar. E incomoda. Ao menos a mim.

Berlim (e Hamburgo) aos pedaços (VIII): Esfrega neve na minha cara e diz que me adora

In Aforismas e fragmentos, Berlim aos pedaços on 23/01/2010 at 16:45

A PERGUNTA

Boris,
 
I have a question. It has nothing to do with the apartment. Everything is fine. Something happened to Ismael, a friend of mine here in Berlin today and since then we are asking ourselves if we got it right. As I do not know German culture deeply, maybe you can help me figuring it out.
 
I was not with Ismael. He was heading to a club with two other Brazilian friends, a girl and a boy, an with a German guy he met the day before. Imet the guy also: I was together with Ismael in a club yesterday when he talked to this guy. He was very friendly and told us about this other party today. As I have too much work to do for Monday, I decided to stay home and Ismael went with his friends. One of them is a young filmmaker who was selected to the Berlinale. They are all in their early 30’s; including the German guy I am talking about.
 
All of a sudden, the German guy knocked Ismael down in the snow and started rubbing snow in his face. For him and for the two other Brazilians, it seemed something  aggressive to do. Ismael got really shocked (he is a very delicate man), so his  Brazilian friends. They left the guy alone and went somewhere else.
 
It is not common for us to play like this. The German guy kept saying it was a mistake, that they got it wrong and that doing things like this is normal in his culture. Is that so? Are we being unjust with the guy?
 
Sorry for bothering you with this, but as you live here in Berlin, maybe you can help me figuring it out. My friend and I are asking ourselves if we interpreted the situation wrongly. 
 
Best,
 
Jose Rodrigo

A RESPOSTA

Dear Jose,

interesting to hear about your friend’s cross-cultural experience.

I thought about your narration of the events and about the meaning of snow, especially rubbed in the face.

Probably Ismael and his friend are being just a little unjust.

In general, in my “culture” rubbing snow in somebody’s face will be taken as a sign of affection.  Obviously, it is a rough, juvenile kind of affection. Teenage Boys do it to girls, and girls have their way of getting snow in the boy’s faces. It is a little like pushing somebody’s head in the water when swimming, isn’t it?
I would never rub snow in the face of someone that I didn’t like. It could be somebody I only know for a short time, although it is rather unusual. It is also not so usually for grown men and women (although you write about the girl and a boy, who are in their thirties) – they would have to be in a playful mood, wouldn’t they?

I am not so sure about the knocking down part. If you want to have snow in somebody’s face, you will have to find a way of achieving it, no? So for reasons of immobilising, knocking in the snow is a good, time-honored way. But how roughly was it done? Where they play-fighting a little bit, or did it happen “all of a sudden”, without any warning? I would think that, with these rougher games, where people can have their feelings or buttocks bruised, the active part (who is of course expecting “revenge”) would take care to ensure some degree of consensuality. If only by threatening and encountering little resistance and perhaps laughing or playful counter-threatening – the other person should get a chance to take their glasses off, or say that they wear contact lenses or that they will definitely kill the other person.

It’s called “einseifen” by the way (“lathering”). One can get a little angry with the person whodunnit when executed to roughly or against one’s will, but hardly too much.

Mhh, nobody has rubbed snow in my face for a long time.

Best
Boris

PENSAMENTOS FINAIS

Boris,

Thank fot your answer! It is great to learn things like that. I think you are absolutely right. It was not aggressive. Maybe it was something too foward to do with someone you just knew, but I understand when you say it was a proof of affection!
 
Maybe we, Brazilians, see the snow differently than you. As we are not accostumed with it and it is not part of the landscape, it do not seem something we would like to play with, but something we should protect from. Maybe that lead to an erroneous interpretation of the situation. But maybe I am  just getting too old for these things!
 
Best,
 
Jose Rodrigo

Berlim (e Hamburgo) aos pedaços (VII): Terroristas!

In Aforismas e fragmentos, Berlim aos pedaços on 20/01/2010 at 12:42

Meu alemão não é suficiente para engrenar uma conversa descontraída com quem quer que seja. Fico tenso, esqueço as palavras, as frases páram na metade, preciso recorrer ao inglês, às vezes enfio um português no meio, enfim, como diria o poeta, chiclete com banana. Sem contar a exaustão que sinto depois, como se tivesse corrido a São Silvestre num pé só.

Ler é um pouco mais tranquilo, os dicionários estão ali, a internet acolá, o tempo a meu favor e não há ninguém esperando que eu diga alguma coisa rápido para preencher o vazio instalado após a emissão de uma frase mais ou menos compreensível, mas com o nome de uma coisa estranha no meio.

Tá certo que havia uma fila atrás de mim, hora do almoço, cidade grande, gente atrasada, mesmo que só para fazer tipo. Mas o cara ficou bravo e fez cara feia apenas por eu ter titubeado. E ele nem levou em conta o fato de eu ter dito corretamente o nome do prato, do acompanhamento, pedido o pão certo, um guardanapo extra, tudo rapidinho, logo depois do “Hallo!”, “Hallo!”.

Minha professora de alemão teria se orgulhado de mim e me dado um ponto positivo. Mas ele não, ah, não!

Deve ter sido só de sacanagem, talvez inveja, depois desse show de alemão na frente dele, o cara vem e pergunta, só para me derrubar, o tipo de molho eu queria com meu “cous cous”, num sotaque terrível, de um fulano recém chegado às terras de Goethe.

“Não é assim que minha professora diria!” pensei, meio decepcionado, meio choraminguento. E eram três opções, três! Três opções e eu não entendi nenhuma. Não havia nenhum rosto amigo ao meu lado para ajudar.

Era preciso pensar rápido: pedi a primeira opção de molho, é claro, porque eu sou brasileiro, malandro e não queria três alemães grunhindo no meu cangote por eu ter atrasado a fila. Ainda fiz cara de bravo, como se estivesse impaciente. Ele respeitou minha cara feia, finalmente, talvez por se sentir reconhecido, e até pediu desculpas pela demora que se seguiu.

Pois tive que esperar meu prato ficar pronto e foram quase cinco minutos! Cinco minutos, um absurdo!

Mas valeu a pena! Era uma porção linda, suculenta, farta, praticamente camponesa, colorida, cheia de texturas, possibilidades e alternativas, eivada de horizontes comunicativos e emancipatórios; com o “cous cous” lá embaixo, embebido no molho, absorvendo todos os sabores, totalizando e universalizando a cada segundo aquela experiência multicultural e globalizada, tudo por apenas 6 Euros!

O único problema, é claro, foi o molho. Era de pimenta, mas pimenta mesmo, de nível profissional. Daquelas pimentas baianas que são como mulher nova bonita e carinhosa: fazem um homem gemer sem sentir dor.

Resultado: ao invés de gastar 6, gastei 11 Euros, porque tive que pedir dois sucos de maçã e um pão extra, cortesia da casa, além de dois copinhos de chá, já incluídos no preço. Quer dizer, o primeiro estava, pois foi o cara mesmo quem me serviu. Já o segundo eu fui pegar para aliviar a ardência, que estava quase chegando ao esôfago, sob seu olhar vigilante, que eu nuca saberei se era de censura ou só a cara feia dele mesmo.

Saí altaneiro do restaurante, pisando forte, mas minha vontade era ficar de quatro na primeira esquina e enfiar a boca na neve para ver se o ardor passava. Ainda estava na mesma quando cheguei ao meu destino aquele dia, 25 minutos de metrô mais tarde. Nada que uma garrafa de fritz-kola e uma Bionade não resolvessem.

No cômputo final, a pimenta me custou quase 10 Euros e uma sensação de fracasso e ignorância da língua de Rilke. “Quem sabe agora você resolve fazer a lição de casa!”, diria minha professora.

Mas houve um saldo positivo nesses acontecimentos todos. Pelo menos agora posso entender melhor tudo o que anda acontecendo com os descendentes de árabes depois de 11 de setembro. Pois como qualquer um pode perceber, esse povo tem mesmo tendência para virar terrorista.

Eu já deveria saber disso, pois conheço minha mãe, descendente de libaneses, desde que nasci. Se eu a visse na fila da imigração, ela seria a primeira a ser revistada, porque a mim ela não engana. Mas às vezes a gente esquece de algumas verdades fundamentais, especialmente depois de estudar filosofia e fazer análise por tantos anos.

Entender a mãe, entender alemão, entender os terroristas… É muito relativismo para um ser humano só!

Poema Sujo, Ferreira Gullar

In Poemas para... on 15/01/2010 at 13:01

http://www.revista.agulha.nom.br/gula1.html#sujo

Iluminação: A degeneração da espécie (II)

In Uncategorized on 15/01/2010 at 12:40

A Gwyneth Paltrow tosca…

… é a Christinna Ricci.

A Christinna Ricci tosca…

é a Dinive.

Iluminação: A degeneração da espécie (I)

In Uncategorized on 15/01/2010 at 12:30

O Brad Pitt, tosco….

…é o Johnny Deep.

O Johnny deep, tosco….

… é o Ed Wood.