José Rodrigo Rodriguez

Washington, o último dos homens

In Aforismas e fragmentos, Amor on 05/11/2009 at 11:42

geladeira

Ninguém podia contar com ele: Washington era o último dos homens. Era assim desde criança; era assim desde menino. Uma vez lhe pediram para pagar uma conta no banco e, dias depois, com conta e dinheiro ainda no bolso, Washington espalhava roupas sujas pelo chão do quarto.

Outra vez, cuidava por cinco minutos do bebê para que o pai atendesse ao telefone e derrubou a comida sobre a própria camisa, atrasando o jantar da criança e o horário do cinema. Para não falar dos problemas na escola, boletins escondidos, faltas constantes, notas baixas e indisciplina. Washington não fazia nada direito. Não se podia contar com ele. Washington era o último dos homens.

Os amigos e parentes já sabiam: quando ligavam para contar seus problemas, Washington inventava uma desculpa para desligar, para não sair: ele nunca estava disposto a ouvir. Quando alguém precisava de ajuda com o carro, com o apartamento, com uma visita, com um jantar, com um inventário, com uma doença, com uma melancolia, Washington estava sempre com pressa, dedicado a problemas mais graves e mais urgentes.

Era assim com os amigos, com os parentes, com as amantes, com as esposas: não se podia confiar em seus sentimentos, ora sentia uma coisa, ora sentia outra; não se podia contar com ele: Washington era o último dos homens.

Melhor evitar emprestar-lhe dinheiro: Washington nunca iria pagar. E muitas vezes ele pedia emprestado, atrapalhado com contas, pagamentos e prazos que nunca conseguia cumprir. Melhor também não emprestar-lhe coisas: ele nunca iria devolver, pois estava sempre precisado delas, incapaz de consertar as suas e de planejar suas aquisições e descartes maneira mais ou menos racional.  

Preso duas ou três vezes, processado inúmeras:  não podia evitar. Às vezes se irritava e ficava violento, especialmente quando objeto de cobranças. Sua casa parecia um escombro, suas roupas restos de outros tempos, sua vida uma completa bagunça. Usava seus sapatos até furar, usava suas calças até ficaram puídas, deixava mofar a comida na geladeira ou deixava a geladeira vazia: Washington era o último dos homens.

Hell

Às vezes o rancor fazia com que as pessoas deixassem de procurá-lo por algum tempo, mas quase sempre voltavam a falar com ele.  As pessoas, feridas por ele, as pessoas ignoradas por ele, as pessoas roubadas por ele, até mesmo aquelas que ele quase matou. Pois ele não fazia por mal: Washington era mesmo incapaz de ajudar quem quer que fosse; era incapaz de assumir qualquer responsabilidade; era incapaz de resolver qualquer problema ou de suportar qualquer peso para além da própria existência.

Com sapatos velhos, a casa desarrumada e a vida  desorganizada, Washington era mesmo o último dos homens, para os outros e para si mesmo. Por isso aqueles que ficavam com raiva, um pouco mais tarde, não raro, se compadeciam. Por isso aqueles que o odiaram, algum tempo depois, não raro, sentiam ternura. Por isso aqueles que o desprezavam, passados alguns meses, não raro, voltavam a procurá-lo. E a cuidar dele.

Porque ninguém merece morrer ou ficar sozinho. Ninguém merece ser condenado à danação eterna. Ninguém merece ir para o inferno. Nem mesmo Washington, o último dos homens.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: