José Rodrigo Rodriguez

Archive for novembro \27\UTC 2009|Monthly archive page

As vozes

In Poemas para mim mesmo on 27/11/2009 at 15:13


Às vezes basta uma palavra
para dobrar, esticar o espaço:
sob os pés a estrada que esfumaça
ou superfície do jardim que ondula
e nunca mais se aquieta.

No dorso da pedra uma formiga,
os riscos das fronteiras nos mapas,
esta cidade e nossa casa, feérica
a profusão de metros, palavras,
que trincam a terra e ameaçam.

Mas basta uma, no lugar certo,
lugar errado, uma formiga,
que se move entre as margens,
feéricas, que se riscam ao andar
neste mesmo passo

inquieto, de quem se dobra e de quem
imprime a força sobre o espaço, de quem
sopra o vento sobre a água e de quem
faz marejar os olhos e segue na estrada
de quem sempre fala.

O grampeador

In Poemas para mim mesmo on 10/11/2009 at 16:03

grampeador_cis_plus_line

Junções para todos os lados
e tiros.

Uma couraça móvel para sustentar os números
e as palavras.

Mas quase nada entra no relatório
e este nada
precisa ser o suficiente.

Não há alternativa:
como uma bússola quando erramos no deserto
em busca de água.

Ninguém é obrigado a entender, pois afinal,
ninguém precisa assumir o papel de um morto,
um filósofo nazista, inclusive,
já mostrou como isso é mesmo
perfeitamente impossível.

Mas que ajudaria bastante, não tenham dúvidas!

Compreender (em parte) um morto, uma morta,
um juiz, uma juíza; ajudaria a compreender
parte da administração da coisa pública,
e das decisões de executivos de empresas públicas e privadas,
também as de um pai, de um irmão, de um marido ou de um amante,
das mães, das irmãs, das mulheres e de seus amantes, filhos e filhas,
assassinos e assassinas, todos
(algumas coisas cabem em nenhum discurso)
de um olhar vago,
quase-humano.

Anti-coool, brutal e tosco: Iggy Pop ao vivo em São Paulo

In Rock-poesia-politica on 09/11/2009 at 17:53

Iggy-Pop

O show de Iggy Pop é sobre quebrar as regras, mas de uma maneira muito específica. Não se trata de acusar a platéia de conformista e gritar slogans políticos a plenos pulmões em seus ouvidos culpados.  Também não se trata de direcionar explosões de raiva contra as instituições para desmascará-las em sua expressão ideológica mais cínica. Iggy Pop não é um líder carismático, tampouco um intelectual interessado em mobilizar as massas. Sua política, se é que podemos chamar o que ele faz de “político”, é mais sutil. Ver o show de Iggy Pop é ver alguém que não tem medo de quebrar as regras e de se colocar fisicamente em risco.

As regras que ele quebra são aquelas vigentes no momento do show e não leis e regulamentos abstratos do “sistema” opressor. Iggy desafia o tempo todo a barreira de seguranças que o separa do público, a barreira imaginária entre palco e platéia, as regras de decência e compostura, o figurino que alguém poderia esperar de um astro de rock clássico de sessenta anos de idade. E tudo isso sem nenhum glamour, porque Iggy é tosco, a música que ele toca é tosca, o que ele canta é direto, primário, tribal, mal acabad0, sem nenhum traço de cerebralismo ou sofisticação. Estamos diante de uma força bruta sem lapidação ou compostura. E com o pênis praticamente à mostra no meio do palco.

A palavra “urgência” se aplica aqui: o show de Iggy Pop é eletrizante porque sua performance acontece naquele momento. Algo de agressivo e arriscado se materializa ali, e fica claro nos riscos físicos a que Iggy expõe a si mesmo a sua banda. Quem já participou de alguma briga e levou um soco na rosto ou um chute na barriga sabe do que eu estou falando. Em certas situações nos sentimos na iminência de sermos machucados, golpeados, surrados. Foi esse tipo de sensação que o público do Festival Terra experimento este sábado. Uma performance realmente transgressora.

Evidentemente, não há política em chutar a bunda de alguém, também não há política em apanhar da polícia. Mas ainda assim, parece haver algo no comportamento de Iggy Pop que incomoda e inspira. Algo que nos convida a  testar os limites que cercam nossa forma de estar no mundo. As regras de comportamento, as convenções sociais, as leis que organizam nossa sociedade, tudo fica em suspenso durante o show de Iggy e os Stooges.

Logo na segunda música, Iggy chamou o público para subir no palco: aproximadamente 50 pessoas aceitaram o convite, contra a vontade dos seguranças.  Foi necessário muitos minutos e muita porrada para retirar as pessoas do palco. Ao criar este tipo de baderna e suspender as regras por alguns momentos, a esperança de Iggy Pop talvez seja nos fazer compreender como se fabrica um ato de inconformismo. Como ele se fabrica fisicamente, corporalmente, de dentro para fora da carne. E todo ato deste tipo implica em correr riscos.

Mas retomemos nossa questão inicial, o significado político disso tudo. Claro, Iggy Pop tem tem mais a ver com anarquia do que com uma reivindicação política qualquer e pode parecer pueril,  sem sentido, completamente inócuo diante dos problemas que enfrentamos no mundo. Sua performance p0de até mesmo ganhar inflexões conservadoras como numa luta de boxe, em que pagamos seres humanos para encenarem a violência que reprimimos em nosso cotidiano.

Mas apesar disso tudo, acho que há algo de exemplar em asssitir Iggy Pop. Por um momento, deixamos de lado nossas couraças de proteção, mesmo que apenas no campo imaginário. Nenhum dos movimentos  de Iggy é pensado ou calculado: ele se joga, se atira, despenca, se choca com as coisas e com as pessoas. Está completamente fora de controle. Ali, na nossa frente.

Se a emancipação tiver algo de físico e não apenas de intelectual, se a política for um espaço para discutir idéias e interesses, mas também as amarras que constrangem nossos corpos no espaço e no tempo; se questionar a ordem atual do mundo significar abrir espaços novos para além do que está posto como aceitável e de bom tom, Iggy Pop ainda tem muito a nos dizer. Anti-coool, brutal e tosco: Iggy Pop é hoje, sem nenhuma dúvida, meu clássico do rock favorito. Vivo ou morto.

Washington, o último dos homens

In Aforismas e fragmentos, Amor on 05/11/2009 at 11:42

geladeira

Ninguém podia contar com ele: Washington era o último dos homens. Era assim desde criança; era assim desde menino. Uma vez lhe pediram para pagar uma conta no banco e, dias depois, com conta e dinheiro ainda no bolso, Washington espalhava roupas sujas pelo chão do quarto.

Outra vez, cuidava por cinco minutos do bebê para que o pai atendesse ao telefone e derrubou a comida sobre a própria camisa, atrasando o jantar da criança e o horário do cinema. Para não falar dos problemas na escola, boletins escondidos, faltas constantes, notas baixas e indisciplina. Washington não fazia nada direito. Não se podia contar com ele. Washington era o último dos homens.

Os amigos e parentes já sabiam: quando ligavam para contar seus problemas, Washington inventava uma desculpa para desligar, para não sair: ele nunca estava disposto a ouvir. Quando alguém precisava de ajuda com o carro, com o apartamento, com uma visita, com um jantar, com um inventário, com uma doença, com uma melancolia, Washington estava sempre com pressa, dedicado a problemas mais graves e mais urgentes.

Era assim com os amigos, com os parentes, com as amantes, com as esposas: não se podia confiar em seus sentimentos, ora sentia uma coisa, ora sentia outra; não se podia contar com ele: Washington era o último dos homens.

Melhor evitar emprestar-lhe dinheiro: Washington nunca iria pagar. E muitas vezes ele pedia emprestado, atrapalhado com contas, pagamentos e prazos que nunca conseguia cumprir. Melhor também não emprestar-lhe coisas: ele nunca iria devolver, pois estava sempre precisado delas, incapaz de consertar as suas e de planejar suas aquisições e descartes maneira mais ou menos racional.  

Preso duas ou três vezes, processado inúmeras:  não podia evitar. Às vezes se irritava e ficava violento, especialmente quando objeto de cobranças. Sua casa parecia um escombro, suas roupas restos de outros tempos, sua vida uma completa bagunça. Usava seus sapatos até furar, usava suas calças até ficaram puídas, deixava mofar a comida na geladeira ou deixava a geladeira vazia: Washington era o último dos homens.

Hell

Às vezes o rancor fazia com que as pessoas deixassem de procurá-lo por algum tempo, mas quase sempre voltavam a falar com ele.  As pessoas, feridas por ele, as pessoas ignoradas por ele, as pessoas roubadas por ele, até mesmo aquelas que ele quase matou. Pois ele não fazia por mal: Washington era mesmo incapaz de ajudar quem quer que fosse; era incapaz de assumir qualquer responsabilidade; era incapaz de resolver qualquer problema ou de suportar qualquer peso para além da própria existência.

Com sapatos velhos, a casa desarrumada e a vida  desorganizada, Washington era mesmo o último dos homens, para os outros e para si mesmo. Por isso aqueles que ficavam com raiva, um pouco mais tarde, não raro, se compadeciam. Por isso aqueles que o odiaram, algum tempo depois, não raro, sentiam ternura. Por isso aqueles que o desprezavam, passados alguns meses, não raro, voltavam a procurá-lo. E a cuidar dele.

Porque ninguém merece morrer ou ficar sozinho. Ninguém merece ser condenado à danação eterna. Ninguém merece ir para o inferno. Nem mesmo Washington, o último dos homens.

Augusto, o último dos homens

In Aforismas e fragmentos, Amor on 05/11/2009 at 9:57

geladeira

Ninguém podia contar com ele: Augusto era o último dos homens. Era assim desde criança; era assim desde menino. Uma vez lhe pediram para pagar uma conta no banco e, dias depois, com conta e dinheiro ainda no bolso, Augusto espalhava roupas sujas pelo chão do quarto.

Outra vez, cuidava por cinco minutos do bebê para que o pai atendesse ao telefone e derrubou a comida sobre a própria camisa, atrasando o jantar da criança e o horário do cinema. Para não falar dos problemas na escola, boletins escondidos, faltas constantes, notas baixas e indisciplina. Augusto não fazia nada direito. Não se podia contar com ele. Augusto era o último dos homens.

Os amigos e parentes já sabiam: quando ligavam para contar seus problemas, Augusto inventava uma desculpa para desligar, para não sair: ele nunca estava disposto a ouvir. Quando alguém precisava de ajuda com o carro, com o apartamento, com uma visita, com um jantar, com um inventário, com uma doença, com uma melancolia, Augusto estava sempre com pressa, dedicado a problemas mais graves e mais urgentes.

Era assim com os amigos, com os parentes, com as amantes, com as esposas: não se podia confiar em seus sentimentos, ora sentia uma coisa, ora sentia outra; não se podia contar com ele: Augusto era o último dos homens.

Melhor evitar emprestar-lhe dinheiro: Augusto nunca iria pagar. E muitas vezes ele pedia emprestado, atrapalhado com contas, pagamentos e prazos que nunca conseguia cumprir. Melhor também não emprestar-lhe coisas: ele nunca iria devolver, pois estava sempre precisado delas, incapaz de consertar as suas e de planejar suas aquisições e descartes maneira mais ou menos racional.  

Preso duas ou três vezes, processado inúmeras:  não podia evitar. Às vezes se irritava e ficava violento, especialmente quando objeto de cobranças. Sua casa parecia um escombro, suas roupas restos de outros tempos, sua vida uma completa bagunça. Usava seus sapatos até furar, usava suas calças até ficaram puídas, deixava mofar a comida na geladeira ou deixava a geladeira vazia: Augusto era o último dos homens.

Hell

Às vezes o rancor fazia com que as pessoas deixassem de procurá-lo por algum tempo, mas quase sempre voltavam a falar com ele.  As pessoas, feridas por ele, as pessoas ignoradas por ele, as pessoas roubadas por ele, até mesmo aquelas que ele quase matou. Pois ele não fazia por mal: Augusto era mesmo incapaz de ajudar quem quer que fosse; era incapaz de assumir qualquer responsabilidade; era incapaz de resolver qualquer problema ou de suportar qualquer peso para além da própria existência.

Com sapatos velhos, a casa desarrumada e a vida  desorganizada, Augusto era mesmo o último dos homens, para os outros e para si mesmo. Por isso aqueles que ficavam com raiva, um pouco mais tarde, não raro, se compadeciam. Por isso aqueles que o odiaram, algum tempo depois, não raro, sentiam ternura. Por isso aqueles que o desprezavam, passados alguns meses, não raro, voltavam a procurá-lo. E a cuidar dele.

Porque ninguém merece morrer ou ficar sozinho. Ninguém merece ser condenado à danação eterna. Ninguém merece ir para o inferno. Nem mesmo Augusto, o último dos homens.