José Rodrigo Rodriguez

A carne da batata

In Poemas para mim mesmo on 20/10/2009 at 11:36

Lower-jaw-of

Se aquela batata tivesse mesmo existido eu a teria comido.
Mas se a comesse, teria sido ela mesmo uma batata?
Teria tido eu dentes capazes de comê-la?
E um estômago capaz de digerí-la?
Ou teria sido ela na verdade um canapé num coquetel burguês?
Ou a batata reles no prato de louça branca periférica?

Se aquela batata tivesse sido comida, restariam-me dentes?
Seriam eles meus dentes?
Ou teriam sido cravados na boca de uma outra criatura?
E de que espécie ela seria?
Da espécie que se come crua?

A carne da batata estaria agora vibrando em minha boca.
A carne da batata estaria agora embebida em cuspe.
A carne mordida da batata triturada em cuspe.
A carne subtraída da batata.
A carne vazia da batata.
A carne convulsa da batata.
A carne da batata.
Persiste.

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  1. “Da espécie que se come crua?” é muito bom.
    Se frita fosse, com certeza você a teria comido.
    Fritas as batatas, não sobram.
    Não pode sobrar.
    Ainda mais se estiverem de sapato.

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