José Rodrigo Rodriguez

Triste é o destino de um tucano, são-paulino de classe média

In Aforismas e fragmentos, Amor on 13/10/2009 at 16:44

É sempre muito difícil manter a alegria diante do trabalho, da pessoas, dos problemas, em suma, de tudo. É melhor ser alegre que ser triste, diz a canção, all we need is love, disse um poeta, a felicidade é como a gota de orvalho numa pétala de flor, ensinou um sábio chinês: sabemos que o negócio é bom, que precisamos dele e que é sempre efêmero, mas continuamos em busca. Sem cessar.

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Será melhor, para a sanidade geral, falar em graus, intensidades, níveis de felicidade/infelicidade, medidos numa escala razoavelmente precisa e razoavelmente frouxa. Pois afinal, feliz, feliz, ninguém é de fato, mas infeliz, infeliz, acho, também não.  Temos que nos acostumar com esse detestável meio-termo que nos coloca nem cá, nem lá, nem capitalistas, nem socialistas; nem corinthianos, nem palmeirenses; nem empresários, nem proletários.

Triste é o destino de um tucano, são-paulino e de classe média, condenado a viver mediocremente entre os extremos! Pois no fundo, no fundo, sempre desconfiamos que lá, nos extremos, o mundo faz mais sentido. “O campeão voltou”, cantam os são-paulinos, imitando a letra da canção alvi-negra para revelar seu desejo oculto de serem corinthianos, maloqueiros e sofredores.

“Ninguém se apaixona por mim”, dizem os gordinhos feiosos, como eu, sempre desejosos de um amor para além das fronteiras da razão, para além do bem e do mal. “Seria bem melhor matar todos mundo e começar esse país do zero”, dizem nossos pais, mães, tios e tias, pouco acostumados com os caminhos e desvios do processo democrático, amantes do Capitão Nascimento e do BOP.

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A paixão do extremo fascina, atrai e reluz como uma pedra preciosa, capaz de dar sentido a tudo e resolver todas as nossas dúvidas. No entanto, apesar disso, é preciso aprender, ainda que muito a contragosto, a viver como um anódino são-paulino, tucano e de classe média.

Quer dizer, vocês entenderam a metáfora, não é? Ninguém merece este destino, cruel e doloroso, no entanto, abstraindo-se o exemplo, que usei apenas para os fins desta exposição, mantenho minha frase: parece mesmo necessário amar a vida no meio do caminho, amar estar no meio termo, aprender a gostar do meio de campo. 

Antigamente, os apaixonados eram tratados como doentes e recebiam cuidados e supervisão constantes. Hoje em dia, incentivamos que façam as maiores asneiras.  Achamos bonito que coloquem fogo nas próprias vestes,  achamos normal que não comam, não durmam, não vivam em função do amor ausente; que chorem o dia inteiro, por meses e meses, ou que bebam o xixi do próprio penico.

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Muitas vezes, desejamos ardentemente que este sofrimento nos seja dado como prova. Queremos ver quem nos ama magro e doente, chorando e  urrando de dor na sarjeta, sem dinheiro e sem alegria, imaginando que a vida sem a nossa presença vá se acabar e que o mundo sem nossa compania perderá completamente o sentido. Desejamos, no fundo que o desgraçado se mate e desapareça da face da terra, porque amar, afinal, é o maior dos insultos.

Amar é desumano e bestial, sempre sufocante, sempre agressivo e invasivo. Quando o amor acontece simultaneamente entre dois malucos, tudo bem. Juntinhos, eles serão capazes de ver ETs dançando nos céus, de embalar um ao outro ao som de uma lambada imaginária e de cumprimentar os postes de luz como se fossem amigos de velha data.

Que ridículo, que triste, que inveja!  Quantos problemas não poderiam ser evitados se apenas nos acostumássemos a…

“Salve o Corinthians! O campeão dos campeões! Eternamente…”

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  1. Amar a vida no meio do caminho é mesmo uma grande sabedoria. Mas, o que seria da arte se todos vivessem assim?

  2. Se transformarmos, sem solução de continuidade, arte em vida e vida em arte, você tem razão. Mas é possível e necessário, muitas vezes, pensar radicalmente e agir moderadamente ou vice-versa. Viver o tempo todo num dos extremos parece, para mim, eliminar a tensão de que todo ato criativo é feito.

    A criação, para mim, é um ato de construção, ou seja, destruição planejada, de constrangimentos reais que são muitas vezes também materiais: a tradição das idéias e formas, a pedra, o gesso, a tinta no tubo, o papel em branco etc.

    A violência sem plano e sem obstáculo se consome em si mesma; o respeito ao que está posto é completamente estéril: só o meio do caminho em tensão funciona, na minha experiência, como espaço para a criação artística.

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