José Rodrigo Rodriguez

A obra – 1 (novela em capítulos)

In A obra - novela em capítulos on 06/10/2009 at 18:28

Começa hoje a publicação em capítulos da novela “A obra” que pretendo terminar daqui a alguns meses. Peço a todos os interessados que façam comentários e sugestões. Eles serão incorporadoa à sua versão final, caso ela venha a ser publicada algum dia, desde que eu termine de escrevê-la.  Mas isso importa muito pouco. O que faz a escrita e transforma alguém em escritor é o mero exercício vão. 

Este texto, desde já, é dedicado a Tatiane Honório Lima, entusiasta da idéia original.

*          *          *

Os tijolos estavam exatamente na mesma posição em que os deixara na semana anterior. Olhando sobre o muro ainda inacabado, via-se direitinho um a um, empilhados em colunas do mesmíssimo tamanho, exatamente como depositados pelo caminhão de entregas sete dias atrás.

“É preciso ter paciência e bom humor”, disse Antônio a si mesmo, enquanto enxugava o suor da testa, sem acreditar muito nas palavras que acabara de articular. Naquele sábado especialmente quente, devotado à fiscalização da obra que já ameaçava se arrastar pelo próximo ano adentro, o funcionário Antônio seria obrigado, finalmente, a agir como chefe se quisesse que o trabalho passasse a andar a contento. 

Estava tudo muito claro: ele estava sendo enrolado. Os tijolos empilhados do mesmíssimo jeito, um a um, iam testemunhando sucessivamente a favor desta conclusão, mal o olhar de Antônio corria minudentemente seu dorso. Tenho certeza que ele tentou encontrar alguma descontinuidade na pilha, logo depois de procurar, com ansiedade, exemplares isolados, espalhados sobre o contrapiso inacabado. Mas não teve sucesso.

Tudo estava absolutamente claro: era preciso tomar uma providência enérgica e imediata. Era preciso cobrar os prazos e lembrar das promessas feitas em troca do pagamento. Religiosamente, o dinheiro era depositado nas mãos suadas daqueles homens que, pensava ele, deveriam ser capazes de honrar a palavra empenhada. Gente simples e sacrificada, que deveria estar à altura de sua digna profissão, o nobre mister de pedreiro.

Porque para ele, Antonio, não havia nenhuma diferença entre eles, cada um na sua função. São Paulo inteira, afinal,  foi construída por gente assim, pedreiros de grande valor que hoje caminham pelas ruas e sobem nos prédios de apartamento sem verem sua autoria sobre as obras reconhecida. Caminham entre cimento e pedra sem receberem as justas homenagens pelo trabalho bem feito e pela perseverança em trabalhar de sol a sol pelo desenvolvimento do país.

Gente de valor como ele; gente honrada. Gente  como a gente, em especial José Bento, chefe do canteiro, marido de uma antiga empregada doméstica, Luzia, que trabalhara para sua família por mais de vinte anos.

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