José Rodrigo Rodriguez

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Arame farpado

In Poemas para mim mesmo on 29/10/2009 at 9:50

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Seu amor desesperado não mudou sua rotina.
Sete e meia, oito e meia já na aula de pilates.

Seu amor desesperado não atrasou os relógios.
Cinco e quinze, seis e quinze, passeando o cachorro.

Seu amor desesperado não mexeu nenhum móvel.
Quatro metros, cinco metros, cama com criado-mudo.

Seu amor desesperado não mexeu nenhum músculo.
Omoplata, fisiocrata, não dizer uma palavra.

Seu amor desesperado não mudou sua rotina.
Ele vibra, soa e dói como se não fosse o óbvio.

Seu amor desesperado me mantém bem à distância.
E não me pergunta nada, feito arame-farpado.

Eu: intervalo.
Eu: absurdo.
Eu: entreato.
Eu: hiato.

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Detalhes que ninguém gostaria de saber sobre a vida íntima de um heterossexual masculino assumido

In Aforismas e fragmentos on 28/10/2009 at 11:21

Nesses tempos em que as pessoas têm pelo menos sete sexos, um para cada dia da semana; nessa época em que sua namorada pode ir dormir uma heterossexual cheirosa, delicada e carinhosa e acordar uma lésbica, irritada e peluda, chutando suas partes baixas, cheia de raiva contra a opressão à diversidade sexual, nestes tempos em que todo mundo acha que basta experimentar para gostar, que todos dizem, abertamente, que os heterossexuais masculinos convictos são, no fundo gays enrustidos; nesse momento da história da humanidade em que o mundo parece ser mesmo, na essência, bissexual, apresento aos leitores algumas observações sobre a vida de alguns heterossexuais masculinos assumidos que, apesar dos pesares, acham que o respeito à sua posição também é um ato de tolerância à diversidade sexual

* * *

PIJAMA NÃO É COISA DE HOMEM

pijama

Homens não gostam de pijama, gostam de dormir usando roupa velha. Pijama é presente de mulher, mãe ou namorada, que eles usam apenas para agradar, deixando de lado, com extremo pesar, calções surrados de moletom e camisas velhas em que se lê frases como: “Quércia Presidente”. Desperdício de dinheiro e de tempo, gasto com pensamentos sobre a beleza pessoal.

Homenagem ao Seu Antônio e a meu pai, também Antônio.

A SUNGA VERMELHO-BOMBEIRO

sunga vermelha

Um heterossexual masculino convicto, meu conhecido, apareceu na praia com uma sunga vermelho-bombeiro. As filhas, horrizadas, disseram, “Pai, que ridículo! Porque o senhor comprou isso?”

Resposta: “Estava de oferta.”

Homenagem ao Seu Cláudio

O LUGAR NATURAL DO PÊNIS

cueca

O único problema em se usar cuecas velhas e frouxas é o desrespeito à lei aristotélica do lugar natural de nosso órgão sexual. Pois todos os pênis têm uma certa posição, mais confortável e adequada, em que se sentem tranquilos e pacificados.

Tal posição varia em função de tamanho e curvatura. Por isso mesmo, cuecas mais estruturadas promovem um agrupamento do pacote que mantém o órgão em sua posição natural, o que evita torções, oscilações inconvenientes entre outros problemas físicos, mentais e simbólicos.

ALUGAR TANQUES DE GUERRA NOS ARREDORES DE BUDAPESTE

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Apenas um heterossexual masculino convicto descubriria que, nos arredores de Budapeste, pode-se alugar um tanque de guerra por hora e dirigí-lo numa fazenda preparada para este fim.

Apenas seus amigos heterossexuais masculinos convictos, assim que soubesse dessa notícia sensacional, pediriam imediatamente um orçamento de viagem para sua agência de turismo, incluindo a aventura no tanque de guerra como atração principal.

Para os interessados:

http://www.budapest.com/things_to_do/special_programs/fun_activities_in_budapest/gun_fun_in_budapest/tank_driving_in_budapest.en.html

Homenagem ao meu irmão Daniel

A carne da batata

In Poemas para mim mesmo on 20/10/2009 at 11:36

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Se aquela batata tivesse mesmo existido eu a teria comido.
Mas se a comesse, teria sido ela mesmo uma batata?
Teria tido eu dentes capazes de comê-la?
E um estômago capaz de digerí-la?
Ou teria sido ela na verdade um canapé num coquetel burguês?
Ou a batata reles no prato de louça branca periférica?

Se aquela batata tivesse sido comida, restariam-me dentes?
Seriam eles meus dentes?
Ou teriam sido cravados na boca de uma outra criatura?
E de que espécie ela seria?
Da espécie que se come crua?

A carne da batata estaria agora vibrando em minha boca.
A carne da batata estaria agora embebida em cuspe.
A carne mordida da batata triturada em cuspe.
A carne subtraída da batata.
A carne vazia da batata.
A carne convulsa da batata.
A carne da batata.
Persiste.

O Tamanduá Bandeira pergunta…

In O Tamanduá Bandeira pergunta... on 16/10/2009 at 16:31

Às vezes eu fico em dúvida diante das evidências mais inequívocas. Tem dias que eu acredito que o Sarney nunca empregou parentes sem concurso público, que  vou emagrecer sem fazer exercícios, seguindo apenas a dieta do abacaxi macho, e que beber todos os dias até as dez da noite não é um sinal claro de alcoolismo. 

Nestas ocasiões, fico precisado da ajuda de pessoas capazes de me fazer voltar à realidade.

Continuo a registrar neste blog algumas destas questões sob o nome “O Tamanduá Bandeira pergunta…”, sempre em busca de auxílio para ser capaz de ver aquilo que está diante do meu nariz.

Pois mesmo dando bandeira, tem gente (como eu) que não se toca!

O Tamanduá Bandeira…

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… pergunta:

 Sobre comportamento e sexualidade…

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Na década de 60 o dever de casar foi questionado pela juventude e isto foi considerado uma evolução nos costumes, um aumento do grau de liberdade, juntamente com a aceitação de comportamentos sexuais diferentes, como a homossexualidade e outras variantes. Podia-se viver a sexualidade em outros padrões, não necessariamente monogâmicos, não necessariamente heterossexuais.

Hoje em dia,  a luta dos homossexuais para se casarem em padrões tradicionais e a valorização do casamento pela juventude, especialmente cristã, mas não exclusivamente,  é vista como uma evolução nos costumes, digna de ser celebrada e incentivada, a manifestação de uma escolha consciente tomada por todos.

Pergunto, houve aumento ou diminuição do espaço de liberdade para vivermos nossa sexualidade?

 

Sobre crime e sociedade….

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A criação de cada vez mais crimes não exige a criação de cada vez mais vagas nas cadeias o que exige cada vez mais gastos para sustentar presos, gastos que boa parte da sociedade considera como indesejados? A solução para este problema não poderia ser deixar de criar tantos crimes e optar por outras formas de lidar com os problemas sociais?

 

Sobre culinária …

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O panetone e a colomba pascal, afora alguns detalhes na cobertura, não têm exatamente o mesmo gosto? Isso significa que Natal e Páscoa, na verdade, são a mesma festa?

O enxoval do morto

In A obra - novela em capítulos on 16/10/2009 at 15:08

 (trecho a ser incorporado em “A obra”)

A sala de espera estava cheia de parentes, mas ele foi o único a subir para ver se tudo estava bem com o enxoval do morto. A mãe havia pedido para ele ir buscar em casa a camisa azul de que ele mais gostava e um terno cinza, recém adquirido em dez prestações sem juros. O sapato também era novo, mas já estava pago; não era preciso usar cinto, já que as calças não iriam cair no caixão dentro da tumba. Mas mesmo assim ele trouxera um, que ficou em suas mãos meio sem uso pelo restante da noite. 

Tempos depois ele iria se perguntar muitas vezes porque decidira subir aquelas escadas para ver se tudo estava andando bem, porque teria decidido ajudar o rapaz a vestir a camisa nele, para a sua surpresa, muito apertada na barriga, já que os mortos, depois que morrem (ele não sabia), incham um pouco. Porque teria decidido dar palpites no jeito de arrumar meias e sapatos, ajudado a fechar o zíper da calça (sem muito sucesso), tudo isso com um gosto de vômito que a tentativa de reanimá-lo com uma respiração boca a boca deixara em seus lábios. 

Em todos esses anos, nunca chegara a uma boa resposta. Fazer coisas, resolver coisas, lidar com problemas, certamente era essa a sua especialidade na vida. Mas porque tomara aquela decisão específica? Porque não fora capaz de simplesmente largar o corpo e tentar se recuperar do choque da morte dele? Porque não conseguira abandonar, nem por um momento, aquele estado de alerta que o acompanharia de forma aguda pelo menos pelos próximos seis anos? Alerta para ir olhar os irmãos dormindo quatro vezes por noite e se certificar de que ainda estavam respirando, alerta para sentir o chão faltar sobre seus pés quando a mãe ou a namorada se atrasavam um pouco no trabalho, alerta para sentir desespero ao ouvir o telefone tocar?

 Todos esses anos e nenhuma boa resposta. E havia mais, pois o enxoval do morto deve ser acompanhado de enfeites e outros apetrechos: por motivos óbvios, nada disso estava pronto! Um casamento às pressas: caixões de dez, vinte mil reais para escolher, sem a opção de decidir por arranjos de flores mais baratos; um belo jazigo para arrumar, problema resolvido pelo tio que cedera o dele; cheques voadores para emitir, sem saber se tinham fundos, com medo de gastar o dinheiro e medo de parecer mesquinho, barato, desrespeitoso. Depois disso, passar o velório e o enterro ouvindo, de cinco em cinco minutos, “você precisa ser forte para ajudar sua mãe”, com o vômito ainda em sua boca, ou, a esta altura, apenas a memória do vômito, dirigir o carro na ida e na volta e ouvir o irmão mais novo dizer “agora você vai ser meu pai, não é?”, com o gosto de vômito ainda na boca, na manhã seguinte, ir tratar de documentos e documentos a pedido de sua mãe desesperada com o vômito ainda na boca, parando para examinar tantas e tantas pastas, com o gosto de vômito, dias e dias, o gosto de vômito, meses e meses, anos e anos.

Resolver problemas, fazer coisas, lidar com coisas, certamente ele sabia fazer isso muito bem. Funcionário exemplar, sempre alerta, empregado exemplar, sempre a postos, pessoa exemplar, sempre ativa, ser humano exemplar, sempre atento. Pouco a pouco, a decisão que tomara, conforme ia pensando e escrevendo e pensando, começava a fazer mais sentido, afinal, todo funcionário espera receber sua recompensa, seu reconhecimento. Um aumento no pagamento, um aumento no respeito, que seja a mera satisfação do dever cumprido, essas coisas que recebemos, dos outros e de nós mesmos, após fazermos um trabalho bem feito. Às vezes um bônus no final do ano, às vezes cumprimentos afetuosos, uma placa comemorativa, às vezes um relógio de ouro, uma caneta de prata ou uma promoção inesperada, comentários invejosos, tapinhas nas costas, coisas assim, coisas assado. O problema foi, desta vez, imaginar que pudesse escolher sua recompensa.

Depois de passar por tudo isso, quer dizer, tanta gente enfrentara coisas bem piores do que ele (mas não tinha sido fácil), depois de enfrentar tudo isso, quer dizer, tanta gente havia sofrido tão mais do que ele (mas não havia sido fácil), depois de suportar tudo isso, quer dizer, tanta gente enfrentara crises mais agudas que a dele (mas não havia sido fácil), ele achava que merecia algum sossego, lá do alto de seus vinte e três anos. No fundo, sua história era banal, mas mesmo assim esperava algum alívio, em algum momento, algo de mais leve, em alguma medida, algo de menos convulso e dolorido, em algum nível, alguma coisa menos grave, em algum aspecto, algum momento em que fosse simplesmente poupado. Não para sempre, nem o tempo todo, mas que fosse por uma tarde: não ser acionado, não receber nenhum pedido, que fosse por um dia, não ter que escolher nada ou falar nada, que fosse por um átimo, largar o corpo e não ter que desempenhar e entender e dar conta de nada.

Infelizmente ele iria descobrir bem rápido que não é assim que a vida funciona. Não era assim que ele funcionava, ele iria descobrir que ninguém lhe deve nada e que ninguém merece nada, mas que às vezes se ganha alguma coisa. Não se pode contar com ninguém, não se deve esperara nada de ninguém, exatamente na hora “h”, quase nunca, quase nunca.

Namorada em coma

In Rock-poesia-politica on 15/10/2009 at 13:33

“Strangeways, here we come” é o disco menos ouvido e comentado dos Smiths, banda dos anos 80 que canta aquela música do garoto com um “thorn in his side”. A propósito, você sempre se perguntou que catzo é isso “thorn in his side”? Eu também. Faz algum tempo descobri que não se trata de um “espinho no seu flanco“, como diz uma tradução que circula pela net.  A expressão se refere a um menino que sente uma perturbação constante, está angustiado, sofrendo, como se tivesse um espinho cravado em alguma parte de seu corpo e não pudesse arrancá-lo.

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“A boy with a thorn in his side” deve ser, de fato, a melhor forma de descrever a obra dos Smiths e de Morrisey, um de meus heróis pessoais, sobre o qual não tenho nenhuma isenção para falar e a respeito do qual tudo que se comenta ou pensa, mesmo na parte mais funda e inexcrutável da alma humana,  me diz respeito a ponto de eu querer discutir, dar opinião e, se necessário for, partir para as vias de fato. Vidas misturadas: quando isso acontece, falar mal de alguém equivale a xingar sua mãe.

Vou logo pondo as cartas na mesa: perdi faz tempo o senso crítico para avaliar Einstürzende Neubauten, Velvet Underground, Smiths e Morrisey, a ponto de achar ótimo ele aparecer pelado na capa de um de seus últimos discos, sob protesto de meus amigos gays: “Quem quer ver tiozinho pelado? Prefiro bichas novinhas!”. Nesse mundo cada vez mais babaca e superficial, achei genial.

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Mas não foi por isso que comecei a escrever este texto, para falar dos hábitos assexuados deste ocidente cada vez mais conservador e conformado. Foi para apresentar uma avaliação objetiva e serena de um disco meio esquecido dos Smiths. Bom, por onde começar? E genial, certo? Estamos conversados? Nenhuma pergunta, não é? Agora, que tal mexer essa bunda/dedo gordo para comprar? Não seria uma boa idéia?

Mas enfim, sobre o disco, se você ainda não se convenceu e perdeu o amor a vida, basta ler o título de algumas canções para entender do que se trata: “Girlfriend in a coma”, “Death of disco dancer”, “I started something I couldn´t finish”, “Paint a vulgar picture”, “Death at one´s elbow”, ou seja, o mesmo clima festivo e alegre de todos os discos dos Smiths, mas com uma grande diferença: os problemas, as situações, as questões são muito mais complexas, ambíguas, difíceis, típicas de um adulto, muito longe da depressão adolescente dos álbuns anteriores. Caminhos inusitados, estranhos, inéditos.

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Nada contra os adolescente aliás, acho que alternamos momentos adultos, adolescentes e infantis ao longo da vida. De qualquer forma, nesse disco, os Smiths entraram, pouco antes da banda acabar, num campo temático diferente que, hoje em dia me interessa bem mais.

Vamos ficar com “Girlfriend in a coma”: o título não é metafórico. A letra fala de alguém que não suporta a idéia de ter que ir visitar sua namorada em coma e se culpa por isso. Imagine se ela morrer no hospital sem ele tê-la visto? Imagine o tamanho do remorso! Mas como é difícil ver alguém que amamos, cheio de energia, de vida, de idéias, reduzido a quase nada, se debatendo numa cama de hospital para conseguir sobreviver. Encarar a morte de frente: como isso é doloroso… A materialidade da morte; seu cheiro, sua cor, sua temperatura.

Eu já vi um olhar ir se apagando na minha frente. Morrendo ali, por detrás das pupilas. Não há ator ou atriz capaz de representar esse momento, acho eu. Nunca vi nada igual.  A sensação é de estar ouvindo uma fuga, com o perdão do trocadilho involuntário. Perda de foco, algo que se dissipa, mas sem nenhuma revelação por detrás: apenas a aparição assustadora de uma matéria opaca.

nuvem

O momento em que uma nuvem se forma: talvez esta seja uma boa imagem para tentar figurar o instante da morte. A condensação da água em pleno céu e o primeiro do flutuar dos flocos de algodão branco: ver alguém morrer é testemunhar o nascimento de uma nuvem. De uma bruma que ocupa aos poucos o lugar do olhar e rouba a intensidade da carne viva do olho vivo. Ver alguém morrer, para mim, é passar a acreditar na existência da alma e sentir para sempre a dor constante daqueles que carregam pela vida um espinho enfiado, bem fundo, num flanco inacessível de seus corpos.

Os Smiths de “Stangeways, here it comes” falam exatamente dessas coisas, para mim, motivo suficiente para ouvir e para amar o disco.

Triste é o destino de um tucano, são-paulino de classe média

In Aforismas e fragmentos, Amor on 13/10/2009 at 16:44

É sempre muito difícil manter a alegria diante do trabalho, da pessoas, dos problemas, em suma, de tudo. É melhor ser alegre que ser triste, diz a canção, all we need is love, disse um poeta, a felicidade é como a gota de orvalho numa pétala de flor, ensinou um sábio chinês: sabemos que o negócio é bom, que precisamos dele e que é sempre efêmero, mas continuamos em busca. Sem cessar.

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Será melhor, para a sanidade geral, falar em graus, intensidades, níveis de felicidade/infelicidade, medidos numa escala razoavelmente precisa e razoavelmente frouxa. Pois afinal, feliz, feliz, ninguém é de fato, mas infeliz, infeliz, acho, também não.  Temos que nos acostumar com esse detestável meio-termo que nos coloca nem cá, nem lá, nem capitalistas, nem socialistas; nem corinthianos, nem palmeirenses; nem empresários, nem proletários.

Triste é o destino de um tucano, são-paulino e de classe média, condenado a viver mediocremente entre os extremos! Pois no fundo, no fundo, sempre desconfiamos que lá, nos extremos, o mundo faz mais sentido. “O campeão voltou”, cantam os são-paulinos, imitando a letra da canção alvi-negra para revelar seu desejo oculto de serem corinthianos, maloqueiros e sofredores.

“Ninguém se apaixona por mim”, dizem os gordinhos feiosos, como eu, sempre desejosos de um amor para além das fronteiras da razão, para além do bem e do mal. “Seria bem melhor matar todos mundo e começar esse país do zero”, dizem nossos pais, mães, tios e tias, pouco acostumados com os caminhos e desvios do processo democrático, amantes do Capitão Nascimento e do BOP.

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A paixão do extremo fascina, atrai e reluz como uma pedra preciosa, capaz de dar sentido a tudo e resolver todas as nossas dúvidas. No entanto, apesar disso, é preciso aprender, ainda que muito a contragosto, a viver como um anódino são-paulino, tucano e de classe média.

Quer dizer, vocês entenderam a metáfora, não é? Ninguém merece este destino, cruel e doloroso, no entanto, abstraindo-se o exemplo, que usei apenas para os fins desta exposição, mantenho minha frase: parece mesmo necessário amar a vida no meio do caminho, amar estar no meio termo, aprender a gostar do meio de campo. 

Antigamente, os apaixonados eram tratados como doentes e recebiam cuidados e supervisão constantes. Hoje em dia, incentivamos que façam as maiores asneiras.  Achamos bonito que coloquem fogo nas próprias vestes,  achamos normal que não comam, não durmam, não vivam em função do amor ausente; que chorem o dia inteiro, por meses e meses, ou que bebam o xixi do próprio penico.

penico

Muitas vezes, desejamos ardentemente que este sofrimento nos seja dado como prova. Queremos ver quem nos ama magro e doente, chorando e  urrando de dor na sarjeta, sem dinheiro e sem alegria, imaginando que a vida sem a nossa presença vá se acabar e que o mundo sem nossa compania perderá completamente o sentido. Desejamos, no fundo que o desgraçado se mate e desapareça da face da terra, porque amar, afinal, é o maior dos insultos.

Amar é desumano e bestial, sempre sufocante, sempre agressivo e invasivo. Quando o amor acontece simultaneamente entre dois malucos, tudo bem. Juntinhos, eles serão capazes de ver ETs dançando nos céus, de embalar um ao outro ao som de uma lambada imaginária e de cumprimentar os postes de luz como se fossem amigos de velha data.

Que ridículo, que triste, que inveja!  Quantos problemas não poderiam ser evitados se apenas nos acostumássemos a…

“Salve o Corinthians! O campeão dos campeões! Eternamente…”

Série “Fora da lei”

In Aforismas e fragmentos, Fora da lei on 09/10/2009 at 13:06

Aviso prévio

Na tradição romântica o fragmento deveria permitir a intuição do todo. Tal pretensão será mantida nestes escritos, ao menos no que se refere a algum aspecto relevante do mundo em que vivemos. Dar conta do “todo”; do todo mesmo, hoje em dia, seria querer demais. O estado atual das ciências humanas e sociais diz que todo mundo pensa, até os povos e sujeitos os mais improváveis. Tal fato complica bastante qualquer pretensão de universalidade.

Mas seja como for, sobre as leis e sobre o Direito, no Brasil, meu assunto aqui, trata-se apenas de dizer o óbvio. Por isso mesmo, estes são fragmentos rebaixados: permitem uma intuição muito profunda sobre o que está diante de nossos narizes. E pretendem indicar uma falta: a falta consciência jurídica, consciência a qual, como todas as outras, em plena decadência no mundo ocidental.

Este fenômeno, com toda a certeza, é uma distinção típica de classe, embora eu não saiba exatamente de qual delas. Confesso estar um pouco confuso quanto a este ponto, por isso, deixo tal juízo para meus eventuais leitores e para os estudiosos do tema. A mim, atribuo apenas o ônus de ruminar a questão, utilizando-me dos dois estômagos que ainda me restam.

*          *        *

Van Gogh, "A Pair of shoes", 1885

Van Gogh, "A Pair of shoes", 1885

XXXLV. Paradoxo Zen

Mesmo que os políticos fossem sábios, não poderiam estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Os casos excepcionais aparecem no contraste com as leis. É preciso fazer este trabalho de adequação. Difícil imaginar um mundo que prescinda dele: tanta homogeneidade! Regular sem regras: um paradoxo Zen? Há problemas de que não vale a pena prescindir. 

XXXLVI. Caminhante…

 Regular é opressivo como usar sapatos, que têm lá sua utilidade.

 

XXXLVII. Um, Dois, Três da Silva Quatro.

 Gostaria que meus pais tivessem calado diante do Cartório de Registros de Nomes, mas de nada adiantaria. Aqueles burocratas malditos os teriam feito falar. O totalitarismo começa assim.

 

XXXLVIII. Infausto

 A opressão são formulários e prazos: tudo é instrumento. Vivemos num campo de concentração. Resistir é deixar as células em branco e esquecer as datas de entrega (mas não as de recebimento).

A obra – 1 (novela em capítulos)

In A obra - novela em capítulos on 06/10/2009 at 18:28

Começa hoje a publicação em capítulos da novela “A obra” que pretendo terminar daqui a alguns meses. Peço a todos os interessados que façam comentários e sugestões. Eles serão incorporadoa à sua versão final, caso ela venha a ser publicada algum dia, desde que eu termine de escrevê-la.  Mas isso importa muito pouco. O que faz a escrita e transforma alguém em escritor é o mero exercício vão. 

Este texto, desde já, é dedicado a Tatiane Honório Lima, entusiasta da idéia original.

*          *          *

Os tijolos estavam exatamente na mesma posição em que os deixara na semana anterior. Olhando sobre o muro ainda inacabado, via-se direitinho um a um, empilhados em colunas do mesmíssimo tamanho, exatamente como depositados pelo caminhão de entregas sete dias atrás.

“É preciso ter paciência e bom humor”, disse Antônio a si mesmo, enquanto enxugava o suor da testa, sem acreditar muito nas palavras que acabara de articular. Naquele sábado especialmente quente, devotado à fiscalização da obra que já ameaçava se arrastar pelo próximo ano adentro, o funcionário Antônio seria obrigado, finalmente, a agir como chefe se quisesse que o trabalho passasse a andar a contento. 

Estava tudo muito claro: ele estava sendo enrolado. Os tijolos empilhados do mesmíssimo jeito, um a um, iam testemunhando sucessivamente a favor desta conclusão, mal o olhar de Antônio corria minudentemente seu dorso. Tenho certeza que ele tentou encontrar alguma descontinuidade na pilha, logo depois de procurar, com ansiedade, exemplares isolados, espalhados sobre o contrapiso inacabado. Mas não teve sucesso.

Tudo estava absolutamente claro: era preciso tomar uma providência enérgica e imediata. Era preciso cobrar os prazos e lembrar das promessas feitas em troca do pagamento. Religiosamente, o dinheiro era depositado nas mãos suadas daqueles homens que, pensava ele, deveriam ser capazes de honrar a palavra empenhada. Gente simples e sacrificada, que deveria estar à altura de sua digna profissão, o nobre mister de pedreiro.

Porque para ele, Antonio, não havia nenhuma diferença entre eles, cada um na sua função. São Paulo inteira, afinal,  foi construída por gente assim, pedreiros de grande valor que hoje caminham pelas ruas e sobem nos prédios de apartamento sem verem sua autoria sobre as obras reconhecida. Caminham entre cimento e pedra sem receberem as justas homenagens pelo trabalho bem feito e pela perseverança em trabalhar de sol a sol pelo desenvolvimento do país.

Gente de valor como ele; gente honrada. Gente  como a gente, em especial José Bento, chefe do canteiro, marido de uma antiga empregada doméstica, Luzia, que trabalhara para sua família por mais de vinte anos.

ONG apresenta queixa contra estúdios pornográficos

In Aforismas e fragmentos on 05/10/2009 at 18:14

Estúdios são acusados de não exigir que os atores usem preservativos.

Agência Reuters

A entidade Aids Healthcare Foundation, de Los Angeles, Estados Unidos, apresentou a autoridades norte-americanas queixas contra 16 estúdios de filmes pornográficos da Califórnia, acusando-os de violar regras de segurança trabalhista ao não exigir que os atores usem preservativos.

Como prova, a organização incorporou um lote de 60 DVDs ao processo, e uma ex-atriz se juntou à ação, com uma queixa individual contra outras três produtoras. O objetivo da medida é que a Divisão de Segurança e Saúde Ocupacionais da Califórnia (Cal-OSHA) abra um inquérito sobre o assunto.

Segundo o porta-voz da agência, Dean Fryer, as queixas foram levadas a sério e serão investigadas.

A indústria pornográfica movimenta 12 bilhões de dólares por ano nos Estados Unidos e concentra grande parte de suas atividades no vale de San Fernando, um subúrbio de Los Angeles. A Aids Healthcare Foundation vem realizando vários esforços para proteger a saúde de atores e atrizes que trabalham nesse meio.

No mês passado, a entidade moveu uma ação judicial contra o Condado de Los Angeles, acusando as autoridades sanitárias de não fiscalizarem leis destinadas a conter a transmissão de doenças sexualmente transmissíveis na indústria da pornografia.

O processo foi aberto após o exame de uma atriz ter dado positivo para o vírus HIV, em junho. Após a revelação, as autoridades divulgaram 16 outros casos até então desconhecidos do público, todos eles registrados desde um surto de 2004, que levou a novas regras sobre testes e notificações no setor.

A fundação alega que as novas queixas comprovam que os atores não usam preservativos durante as filmagens, violando regulamentos estaduais que exigem a proteção de trabalhadores contra agentes patogênicos na troca de fluidos corporais.

De acordo com dados oficiais, mais de 2.800 casos de doenças sexualmente transmissíveis foram diagnosticados entre 1.884 atores e atrizes pornôs no Condado de Los Angeles entre abril de 2004 e março de 2008, e muitas dessas pessoas sofreram múltiplas infecções