José Rodrigo Rodriguez

Existe amor entre o homem e sua mulher inflável?

In Aforismas e fragmentos on 28/09/2009 at 15:58

Real doll

Recentemente descobri que há empresas fabricando bonecas e bonecos com cara de mulher/homem, textura de mulher/homem, peso e cheiro de mulher/homem, mas feitos de mentira, ou melhor, de resina. Vejam por exemplo aqui, uma versão bem sofisticada: http://www.realdoll.com/cgi-bin/snav.rd?action=viewpage&section=dollgallery. Custam mais ou menos 15.000 dólares; informação para os/as interessados/as.

Fiquei pensando no que isso significa, quer dizer, que tipo de sociedade foi capaz de produzir algo desse tipo. Num primeiro olhar, minha repulsa é visceral. A separação competa entre sexo e humanidade parece ter atingido o grau máximo neste tipo de artefato. 

Fazer sexo casualmente, mesmo que seja impessoal, ainda encerra o risco de você se deparar, em algum momento, com o ser humano que está ali, sempre cheio de demandas e necessidades. Um garoto ou garota de programa é menos arriscado, mas a fantasia ainda está presente.

duende

Não conheço ninguém que utilize este serviço e não tenha ficado encantado/a com alguma pessoa e tenha ao menos querido se envolver com ela.  E vice-versa: isso também vale para os profissionais do sexo. Há muitos filmes e livros sobre relações amorosas que acontecem nestas circunstâncias. 

Pois a despeito do aspecto mercantil, a prostituição também é afetiva e está ligada com a necessidade de “encontrar alguém”, ou seja, “o” alguém, com quem possamos dividir a cama e a vida. Afinal, ao que tudo indica, esta parte do cérebro não fica destivada quando se faz sexo por dinheiro.

O que mais espanta no caso destes bonecos e bonecas é anular justamente isso: não há risco do se apaixonar.

Ou será que existe? A paixão, grande parte das vezes, não exclui a humanidade do outro? Mitificamos suas qualidades para moldar aquela existência à nossa, contra todas as evidências. O fim da paixão é sempre a humanização, que coloca o outro num lugar menos elevado e revela coisas que não conseguíamos ver.

cego[1]

O outro vai nos decepcionando por não seguir o figurino que lhe foi traçado, o que nos faz ver que não hé relação perfeita, que não há amor pleno. Sempre haverá problemas, brigas, incompatibilidades, falhas. Por isso, de uma certa forma, nos apaixonamos sempre por uma boneca ou boneco de mentira, fantasia quase pura, sem carne e sem sangue, cuja verdade estará além da paixão e cuja realidade não podemos acessar naquele momento.

Não há paixões intermináveis, assim como não há fadas, nem há Papai Noel ou duendes. A realidade, ou seja, aquilo que não controlamos, aquilo que se impõe para além da fantasia, sempre acaba aparecendo. Num certo sentido, essas bonecas e bonecos de mentira são a essência da paixão como nós a conhecemos. Ao menos na forma de clichê, aquela das novelas, livros e filmes comerciais; aquela com que sonhamos por prometer a plenitude.

Só existirá paixão totalmente realizada por um boneco ou por uma boneca. De resina, de borracha, de pano…

Um professor, muito amigo  meu, me disse, sem querer dizer, algo chocante sobre o tema da mitificação. Ele teve paralisia infantil, portanto, manca muito de uma perna. Uma vez eu, bem mais novo do que ele, caminhando por sua Faculdade, me ofereci para carregar seus livros, sempre inúmeros, acrescidos à sua pasta, sempre cheia de papéis.

paralisia infantil

Ele parou de andar, olhou para mim e disse: “Nunca nenhum aluno meu se ofereceu para carregar minha pasta, você acredita? Muito obrigado.”  E me passou seus livros. Claro, ele não teria coragem de pedir isso a um aluno por medo de humilhá-lo, ao submetê-lo à situação daquele que carrega os livros do mestre e, portanto, é visto como um adulador. Ao invés disso, escolheu esperar uma oferta de ajuda que nunca veio.  

Por não ser seu aluno, livre da mitificação, fui capaz de ver sua perna defeituosa e sua dificuldade em carregar tanto peso escada acima. Os que se relacionavam com ele a partir do mito que a posição de professor encerra, viam sempre um homem forte, poderoso, sábio, sem perceber que no fundo, como todos nós, meu amigo estava completamente desamparado diante da existência. No caso, um desamparo físico impossível de ignorar, a não ser em razão do mito. 

Mitificar a paixão e deixar de ver o outro serve a que tipo de sentimento? Até onde posso ver, a um sentimento autoritário, violento, infantil e desumando. Todos padecemos dele, todos sofreremos os efeitos das paixões ao longo da vida e provavelmente nunca nos livraremos deles, mas será o caso de mitificá-lo e transformá-lo em padrão das relações amorosas? Em um ideal a ser atingido?

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  1. “V. deve aprender a se virar sozinho!” Woody Allen, sobre a masturbação, em “Igual a tudo na vida”…

  2. Olá Rodriguez…

    Sou graduado e mestrando em letras pela Unicamp e lancei recentemente um livro de poemas.

    Gostaria de trocar meu livro com livro de outros autores, como forma de divulgar minha poesia e, principalmente, conhecer novos poetas contemporâneos. Vi com muito interesse seus livros, mas acabei não os encontrando na biblioteca da Universidade… Seria possível trocarmos livro?

    Um grande abraço!

  3. Bom meu amigo, a verdade é que as mulheres estão a cada dia mais imprestáveis para relacionamentos e com exigências cada dia mais insanas para aqueles que não são machos alfa, isso é, ricos ou então bonitos, sarados, com barriga tanquinho e pau grande, então as real dolls são a justa reação a isso.

  4. De fato…

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