José Rodrigo Rodriguez

Escolinha de ditadores

In Aforismas e fragmentos on 21/09/2009 at 17:11

professor raimundo

Para quem tiver o mais remoto interesse em política e gostar de livros bem escritos, vale a pena ler “Diálogo no inferno entre Maquiavel e Montesquieu” de Maurice Joly (UNESP, tradução Nilson Moulin), publicado originalmente em 1864. A capa dura e o belo projeto gráfico mais atrapalham do que ajudam o leitor: parece que estamos diante de um clássico sisudo, mas não é o caso.

O texto, ágil e contundente, é um escrito de intervenção e não uma dissertação de filosofia política. Maquiavel e Montesquieu são apenas caricaturas que permitem ao autor criticar a ação política do ditador Napoleão III e de qualquer outro governante autoritário.

Maurice Joly, advogado e satirista.

Maurice Joly, advogado e satirista.

Quem conhecer bem a história francesa (não é o meu caso) certamente vai se deliciar com as referências veladas a medidas concretas adotadas pelo ditador ao longo de seu governo. Mas mesmo sem estas referências, o livro continua muito interessante.

Afinal, o embate que se trava ali, entre a impessoalidade das instituições democráticas e a pessoalidade dos governos autoritários, tem interesse perene. É difícil não pensar, por exemplo, em George Bush, Hugo Chávez e Berlusconi em vários pontos da leitura.

Preso sendo torturado em Abu Ghraib por soldado norte-americano

Preso sendo torturado em Abu Ghraib por soldado norte-americano

Claro, a transposição das críticas feitas pelo livro para nossa realidade não pode ser direta, afinal, estamos diante de um escrito do final do século XIX. Apesar disso, vários parágrafos parecem se encaixar como uma luva nos problemas atuais. Por exemplo:

“Cada um de meus atos, por mais que pareça inexplicável, procede de cálculos cujo único objetivo é a minha saúde e a de minha dinastia. Aliás, conforme digo em O príncipe, o que é realmente difícil é chegar ao poder; mais fácil é conservá-lo porque, em suma, basta eliminar aquilo que é nocivo e estabelecer aquilo que protege. O traço essencial de minha política, conforme já verificou, foi tornar-me indispensável. Destruí tantas forças organizadas quanto foi necessário para que nada pudesse funcionar sem mim, a fim de que os próprios inimigos de meu poder tremessem só de pensar em destruí-lo.”

Hugo Chávez, Presidente da Venezuela

Hugo Chávez, Presidente da Venezuela

Também:

“Aliás, certas fraquezas e mesmo certos vícios são tão úteis ao prícipe quanto virtudes. Você pôde constatar a verdade dessas observações depois do uso que tive de fazer ora da duplicidade e ora da violência. por exemplo, não convém acreditar que o caráter vingativo do soberano possa prejudicá-lo, bem ao contrário. se, freqüentemente, é oportuno que ele use a clemência ou a magnanimidade, é preciso que, em certos momentos, sua cólera pese de maneira terrível. O homem é a imagem de Deus e a divindade não tem menos rigor em seus golpes do que na misericórdia.”

(…)

“Peço-lhe a graça da luxúria. A paixão pelas mulheres serve a um soberano bem mais do que consegue imagina. (…) os homens são assim, gostam de ver esse viés em seus governantes. A dissolução dos costumes sempre fez furor, uma carreira galante na qual o príncipe deve superar seus iguais, como ele supera os soldados perante o inimigo. (…) Não me é permitido entrar em considerações demasiado vulgares, porém não posso evitar dizer-lhe que o resultado mais concreto da galanteria do príncipe é granjear a mais bela metade de seus súditos.”

berlusconi-e-miss-italia

Berlusconi e Miss Italia

As falas do personagem Maquiavel, ditas diante de um incrédulo Montesquieu, são dignas de uma escolinha de ditadores. No momento crucial do livro, o personagem Montesquieu diz que, “hoje em dia”, os métodos defendidos por Maquiavel seriam rechaçados pelas nações civilizadas.

Diante disso, Maquiavel procura demonstrar, em detalhes, que suas idéias são plausíveis para o mundo daquele século XIX. Há lugares em que todos estes “horrores” estão acontecendo, diz ele. Você não está se lembrando de alguém que conhecemos?

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Napoleão III

Apenas no final do livro, a ficha cai e Montesquieu se dá conta do que está acontecendo em seu país. Não por acaso, Joly foi preso em razão de seu livro. Não posso imaginar triunfo maior para um autor de sátiras políticas!

Mas voltando ao paralelo com os dias atuais, se pensarmos nas restrições ao habeas corpus, práticas de tortura, interrogatórios e prisões sem mandado, promovidas pelos Estados Unidos; nas práticas sexuais do Presidente da Itália, Berlusconi, e na conduta de Hugo Chávez, a ficha não cai de novo? Com o perdão do anacronismo, várias passagens do livro parecem ter sido escritas ontem.

Este “Diálogo no inferno entre Maquiavel e Montesquieu” também é importante por razões menos nobres, pois  serviu de modelo para uma das maiores fraudes da história universal: “Os protocolos dos sábios de Sião”. Sobre isso, leiam aqui: http://jornalivros.co.cc/?p=103.

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  1. Este texto é maravilhoso! Nem sabia que o texto de Joly já havia sido traduzido para o português, conheço o original (em francês)…
    Obrigado pela citação do meu blog.
    Um grande abraço,
    Bira Câmara

  2. Obrigado pela leitura! Gostei muito do seu Blog!
    Abração,
    JR

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