José Rodrigo Rodriguez

Com o espírito em Deus

In Aforismas e fragmentos on 16/09/2009 at 16:54

Cesare Pavese cometeu o suicídio em 1950 deixando um livro inédito, Diálogos com Leucó (ed. Cosac y Naif), obra  arcaizante que adotou a forma clássica do diálogo para discutir, a partir de temas da antiguidade, questões fundamentais da existência humana. 

Escritor e poeta identificado com a esquerda, o livro rendeu-lhe críticas ácidas, afinal, nenhuma ideologia política é capaz de suportar a liberdade dos artistas. Nenhum regime autoritário suportaria um poeta como Lorca, diz Adorno em “Lírica e sociedade”.

cesare-pavese 

Matar-se, sob certas circunstâncias, é o ato livre por definição.

Não se deve, jamais, confiar nos artistas. Seu impulso para a pesquisa e para a mudança é sempre mais forte do que a disciplina das verdades cristalizadas, das existências serenadas, das conquistas celebradas, bens fundamentais para medir e proclamar a vitória política.

Na política atual, vence quem emburrecer ou naturalizar o outro a seu favor. A  política da sociedade emancipada abre mão da vitória e da derrota e de qualquer linguagem marcada pelas idéias de submissão e dominação, prêmio e punição. Ser vitorioso é ser capaz de indagar e tomar decisões em conjunto.

Gustav Klimt, Jurisprudenz (1903/1907)

Gustav Klimt, Jurisprudenz (1903/1907)

Por isso mesmo, qualquer sociedade atual passaria muito melhor sem os artistas que se alimentam da precariedade de todas as categorias e vivem do prenúncio do vir a ser.

Daí alguns deles acharem melhor, depois de muita incompreensão e chateação neste mundo, como fez Cesare Pavese,  ir adiantando o serviço. Melhor do que ser acusado de niilista ou nefelibata.

Um tiro, asfixia, copo de veneno, forca, atirar-se de um prédio: aceito sugestões.

Veja abaixo um trecho do diário de Pavese, “Ofício de Viver: Diário de 1935 – 1950” (Bertrand Brasil), que para mim explica, ainda que em parte, a necessidade e a delícia do suicídio.

*          *          *

Antoine Wiertz, Suicídio (1853)

Antoine Wiertz, Suicídio (1854)

5 de abril de 1945

É bom viver num lugar quando a alma esta em outro. Na cidade quando se sonha com o campo; no campo quando se sonha com a cidade. Em qualquer parte quando se sonha com o mar.

Parece sentimentalismo, e não é. Ao contrario, a prova é a allpervadingness da imagem.

Uma realidade somente é avaliada filtrando-se através de outra. Somente quando passa a ser uma outra. Eis o motivo de a criança descobrir o mundo através das transfigurações literárias ou lendárias ou, de qualquer modo, formais. Eis porque a “essência da poesia é a imagem”.

Daí se poderia deduzir que o mundo, a vida em geral, valorizam-se tão somente estando o espírito em uma outra realidade, sobrenatural.  Digamos, tendo o espírito em Deus. É possível?

Cesare Pavese

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